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Eu mereço! (ed.20)
... e assim morre o Aurélio todos os dias, porque tudo que vive um dia morre e pra morrer basta estar vivo...
(toca o tema final de Auto da Compadecida, passam dançando João Grilo, Rosinha e Chicó e sobem os créditos)
QUÊ?
Se eu surtei? Rá! Quase. Bem vindos amigos leitores, a mais uma “Assim Morreu o Aurélio”! Por que eu comecei o texto que nem louca? Porque esse é o meu normal mesmo. E adoro chamar a atenção. Funcionou? Ah, sabia! Mas, falando sério, é porque fico revoltada com gente que acha que se preocupar com a manutenção do vernáculo seja supérfluo e preciosista!
Recebi um e-mail outro dia reclamando contra um texto escrito pela Dehynha aqui nesta coluna. O leitor argumentava que as observações feitas pela colunista acerca dos estropios que sofre a nossa língua em filas de supermercado e similares não eram relevantes, porque os terroristas lingüísticos estavam apenas “se apropriando” do idioma e fazendo dele um “uso particular”. Ah, por favor, se eu roubar um punhado de dinamite e promover um atentado explosivo na ABL por motivos próprios e particulares exclusivamente meus, estarei menos errada? Ok, vai, estou sendo extremista. Mas essa é a minha forma de me expressar, cara. Ou é exagero ou é reclamação. Pode escolher! Ho ho ho.
O ponto é: a Língua Portuguesa está viva e, por isso, sofre constantes mutações. Claro, sofre mesmo. Do contrário estaríamos a “dizeire” ó pá até hoje, ó pá! Isso sem falar que estaríamos ainda cheios de arcaísmos. “Cousas” em lugar de “coisas”, letras mudas inúteis em palavras como “contacto” e “exacto”, acentos desnecessários como em “pêlo” e “môço”. Impensável, certo? Ainda mais numa época como esta, em que as pessoas andam falando por símbolos gráficos. (Malditos sejam todos os miguxos!).
Nesse ponto, você talvez argumentaria: mas a Língua Portuguesa já sofreu tantas mudanças desde que veio de Portugal, as “variações” que vemos hoje não seriam novas mudanças se apresentando? E eu respondo: algumas coisas sim, de fato. Tanto é que estão aí nos apresentando inovações como a abolição de alguns sinais gráficos – viu? Morram miguxos! – como o trema, por exemplo, que caiu em desuso.
Mas nem por isso existe uma alma capaz de me convencer que dizer “nóis vai”, “nóis vem” e “nóis vamos estar assassinando o purtuguêis” seja algum tipo de variação válida. Por favor. Não existe embasamento teórico e cultural algum pra esse tipo de coisa. Se quiser vir defender o uso de algumas expressões cunhadas e usadas por classes específicas (como as mil e uma denominações pra palavra “polícia” que podemos ver em filmes como Cidade de Deus e Tropa de Elite, por exemplo), tudo bem, podemos conversar. Afinal, trata-se – nesse caso sim! – de expressão cultural legítima. Do contrário, não me venha falar que “estálta” e “esmagrecer” possam ser sequer levados em consideração de outra forma que não seja pra cortar a língua de quem disse isso, ok?
Sim, nosso idioma é um organismo vivo e pulsante, sem dúvidas. Mas me desculpe, não acho que devamos ver nenhum ser vivo ser esculhambado e morto todo santo dia e nos conformarmos com isso porque “é a vida”, ou “é a violência” ou “é uma expressão cultural”. Expressão cultural uma pinóia!
Por falar nisso, deixa contar uma passagem que rolou hoje. Estava eu indo pro consultório da minha terapeuta, quando passei em frente a um escritório de contabilidade. Estabelecimento com aspecto distinto, sólido, bem instalado. Exibia um letreiro bonito e orgulhoso, dizendo assim: “Fulano & Ciclano – 50 Anos ContabiliSando com Eficiência!”. Aí, ó, até o estúpido do meu editor de textos ta BERRANDO, sublinhando este CONTABILISANDO e dizendo: Alô-ou? Contabilizar é com Z, cáspita!
Pois é. Deu vontade de bater na porta do tal escritório e dizer: “Amizade, vocês devem ser mesmo bons de números, a ponto de nem prestarem atenção ao que ta escrito na sua placa!”. Ah, mas contador tem mesmo é que saber de número e não de ortografia, certo? Certo, nada contra! Mas um escritório de contabilidade que já funciona há cinqüenta anos, provavelmente com clientela solidificada e uma imagem respeitável a zelar não deveria pelo menos saber contratar um profissional competente pra montar um anúncio daquele tamanho?
Ora, vamos lá. Aquilo nem era pintado à mão por nenhum pintor de letreiros que, este sim, é de se esperar que escorregue no português. Como o que pintou o letreiro do boteco aqui ao lado da minha casa essa semana e lascou um S no final de MARMITEX (é, gente, MARMITEXS, óbvio, né? É plural!). Não senhores. O orgulhoso e vistoso anúncio dos contadores foi claramente feito por um designer, um diagramador, um artista gráfico, leve o nome que levar. O fato é que é um profissional que trabalha com computador e com palavras, pelo que deveria – isso em tese – saber escrever no próprio idioma. Ou pelo menos passar a correção ortográfica AUTOMÁTICA disponível em qualquer programinha meia boca desses.
Agora me fala: é mole? Eu to errada de reclamar? Puxa vida, cara, qualidade definitivamente é uma coisa em extinção. E depois a errada sou eu que reclamo e planejo atentados a bomba a filas de supermercado, escritórios de contabilidade cinqüentenários e, claro, à Academia Brasileira de Letras. Paulo Coelho é uma ova. Arre!
Lívia Santana
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Eu mereço! (ed.20)
Sinceramente, eu não vou ficar aqui redigindo regras, explicando como, quando e por que do uso da gramática, do bom português, de um conhecimento da linguagem, idioma e tudo mais que envolva o agrado aos olhos e uma excelente sonoridade. Sim, porque quem lê milhares de absurdos diariamente com os meios de comunicação (jornais, revistas, msn, orkut e coisas do gênero) ou escuta com a convivência, sou eu. Se você também passa por isso, lamento.
Pois bem, não sou o professor Pasquale, sou uma jornalistazinha de meia tigela (isso é ofensivo!) que, além de estar sempre em busca de novos projetos e horizontes, entrega vários textos tortos para as editoras do Livin consertarem. Momento autodefesa: jornalistazinha é a mãe! (Desculpe. Isso é um conflito com o meu EU interior). Ainda vou ganhar o mundo! Entrevista no Jô será apenas o início, aguardem!
Não posso ficar aqui numa repetição sem fim falando sobre a taxa de analfabetismo do país que gira em torno de, aproximadamente, 14 milhões de brasileiros – isso porque entre os adolescentes, digamos, da faixa etária entre 10 a 15 anos, parece, o número reduziu. Eu ia fazer uma brincadeira sequelada agora. Ia não, eu vou! Me ocorreu que essa faixa etária aí está abaixo daqueles irritantes que apelam pro miguxês (16 a 20 anos) e outras palavras inventadas, quando não infestam nossa tela de emoticon achando a coisa mais normal do mundo e como se todos fossem obrigados a entender os códigos (primeiro e único comentário: bom em códigos era o Mestre dos Magos e eu preciso voltar pra casa!). Essa faixa etária também (e essa era a brincadeira sequelada) foi salva pelo “São Huck” com disputas de jogos como o Soletrando, vai que é isso.
Se bem que, desculpe você que lê esse texto e me acha um ser um tanto quanto revoltado, inútil e agressivo – nem me importo – mas educação começa de baixo, desde cedo e sem essa que as pessoas não têm acesso à informação. Claro, não posso generalizar, por isso vou citar exemplos dando continuidade ao meu singelo e meigo jeito ignorante de reclamar das coisas.
O que você tem a me dizer a respeito da mocinha (ok, senhora) que trabalha na minha casa há 20 anos? Ora, ela sempre teve tudo que tínhamos desde comida a roupas, pois nunca a deixamos de fora em nada. Os filhos dela brincaram comigo e com minha irmã quando pequenos. Portanto, tiveram acesso a coisas que talvez jamais tivessem se a mãe não trabalhasse aqui ou se fosse uma perdida. Ah sim, porque entrei nesse assunto? Fácil. A filha dela hoje trabalha, luta pelos objetivos, vai atrás do que quer e tenta ajudar em casa. O filho, um mimado e enjoado que irritaria Jó em instantes, só sabe ligar pra minha casa de 30 em 30 minutos para tirá-la do sério. O marido tentou. Foi até pra Portugal (nem eu saí do Brasil, minha gente, por favor – sem acesso? Me poupe!), onde ficou, pelo menos, cinco anos, mas “cansou” e resolveu voltar. “Não estava dando tão certo”, disse ela. Esse é o momento em que Carla engole seco e suspira profundamente (ai ai). E ela? Bem, ela continuou como doméstica ou “secretária do lar” como preferem dizer hoje em dia, mas com todas as “regalias” possíveis – é bom informar.
Dia após dia, aqui estou, correndo atrás dos meus objetivos, fazendo planos, bolando situações fantásticas e planos infalíveis de dar inveja no Cebolinha, quando me deparo com o seguinte recado: “Carla é pra você ligar pro senhor asterisco.” (Eu não me controlei e tirei os erros de português do recado, encare como uma tradução). Olha, eu peguei aquele papel e fiquei horas tentando entender, pensando quem seria o tal “senhor asterisco”. Existiria alguém com esse nome? É, até acredito que exista, mas não que ele me conheça, por favor, né?
Me entenda, vai. Eu fiquei por dias tentando imaginar quem seria o misterioso senhor asterisco, se, talvez, quem sabe, não seria ele o meu “príncipe encantado” e... (certo, parei!). Pois é... quando finalmente a encontrei (processo de trabalho intenso e optei por perguntar pessoalmente porque eu não conseguia acreditar que a explicação seria a que eu deduzi) perguntei a respeito e claro que ela não soube me explicar. Mas disse que uma mocinha ligou falando de telefone e que eu entrasse em contato com esse senhor. Batata! A operadora do meu celular ou outra qualquer querendo me enfiar a faca e telefone pelas ventas ligou e, obviamente, pediu para que eu entrasse em contato pelo *XXX. Imagine agora minha cara de decepção que chegou a pensar até num relacionamento com o senhor asterisco? Se bem que com esse nome seria velho demais pra mim... mas talvez ele tivesse filhos como exclamações, vírgulas... (eu paro! Mas entendam que só fazendo piada eu sobrevivo).
Lembrei-me de outro fato e nesse é minha irmã quem se acaba de rir, está quase mudando de nome, se bobear. O nome dela é Alessandra (escolhido por mim com cinco anos de idade e não me perguntem o que me fez fazer isso). Bem, os bilhetes pra “Lelê” (como a chamamos desde pequena) são SEMPRE assim: “Lessandra, fulano ligou e pediu blá blá blá”. Er... vinte anos, pessoal! São vinte anos convivendo com uma menina chamada de Lelê ou Alessandra. Ela acha mesmo que o A, no caso, seria um mero artigo? Não, ela não sabe quando o A é artigo ou uma simples vogal (o que é vogal? Ô, vida...). Eu tive crise de risos quando minha irmã veio me mostrar o bilhete e contar a situação. Gente, eu não agüento só de pensar que quando falo “Fulana, você sabe se Alessandra vai almoçar em casa hoje?” ela entende “Fulana, você sabe se a Lessandra vai almoçar em casa hoje?”. Enfim... não posso concordar com a falta de acesso a nada nesse caso.
Mas ressalvo que os brasileiros estão ficando mais burros por opção e isso envolve toda e qualquer classe social. Porém, prefiro deixar esse assunto para o próximo texto. Agora eu preciso sair pelas ruas questionando as pessoas que eu encontrar pelo caminho se alguma delas me ligou, porque depois do senhor asterisco, querido leitor, admito nunca mais ter lido ou prestado atenção num bilhete sequer.
Carla Coutinho
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Figuras de linguagem (ed.19)
Engraçado como alguns momentos da vida são permeados por metáforas. É quando embarco nos devaneios e abuso das alegorias, sou soterrada pelas antífrases e ironias que me ocorrem, fico tonta com os milhares de antíteses que parecem ditar o ritmo do meu universo. É também quando aparece uma característica minha: a prolixidade. Assim, nada é simples nem linear e, nas voltas do meu pensamento anacolútico e referencista, sucedem-se, eufemisticamente, antonomásias, alusões, hipálages e até mesmo perífrases e metonímias. Por outro lado, qualquer um é capaz de identificar meu aspecto mais marcante: sou uma criatura hiperbólica! A gradação me é tão intrínseca que elaboro clímax elípticos, necessariamente onomatopaicos e sinestésicos. Acho que vou mandar pendurar uma placa na minha porta: cuidado, hipérbato!
Ok, você deve estar pensando: esta criatura surtou de vez! E devo mesmo, estar meio seqüelada, mas o caso em discussão é: a maioria das pessoas não entenderia nada do escrito acima, sem uma explicação, um dicionário ou, mais de acordo com a linguagem cibernética, através de um link. E, no entanto, as palavras enroladas do outro mundo escritas ali, estão presentes a todo o momento em nosso cotidiano.
Já parou pra pensar o quanto somos rasos na maioria das vezes? Não só em relação ao idioma pelo qual nos expressamos e para o qual fomos declarados “aptos” na escola – pelo menos era o que se depreendia do boletim que levamos pros nossos pais, no fim das contas. A nossa superficialidade se aplica a todos os aspectos da vida, sejam eles culturais, formais, técnicos e até mesmo pessoais. Gostamos de um determinado ritmo musical, mas não sabemos nada a respeito dele. Lemos um determinado livro, certa vez, que achamos muito bom, mas que sequer recordamos o nome do autor. Compramos um aparelho eletrônico qualquer e sequer damos uma olhada no manual de instruções. Nos relacionamos com as pessoas tão preocupados com nossos umbigos, que sequer atentamos pros sentimentos do outro, que estão em jogo. Além disso, a expressão “eu acho” parece suprir – absurdamente – a nossa crassa ignorância a respeito de 90% dos assuntos do universo e nos dar o poder de nos tornarmos médicos, advogados, diretores de cinema, técnicos de futebol e, a meu ver, loucos. A falta de humildade é absurda, principalmente se comparada à exigüidade do conhecimento.
E o que isso tudo tem a ver com “Assim Matei o Aurélio”? Tudo! As figuras de linguagem contidas no primeiro parágrafo, por exemplo. São preciosismos? Coisas que decoramos uma vez na escola, fizemos a prova e no dia seguinte já não lembrávamos mais, e não nos fazem falta? Pra maioria das pessoas saber disso não deve fazer falta mesmo, a não ser praquelas que trabalham com a palavra e lidam diariamente com verbos, advérbios e discursos. No entanto, por mais leigos que sejamos, utilizamos a toda hora essas mesmas figuras de linguagem. Duvida? Pois bem.
Em algum momento da sua vida já deve ter lido gibis –sejam da Turma da Mônica, do Tio Patinhas, Super Homem ou X-Men – e está careca de saber que socos, tiros, quedas e coisas do gênero são expressos por palavras que se aproximam do som real. A mesma coisa com os sons que fazem os bichos (mugidos, cacarejos, etc). Se você, internauta que é, faz uso do MSN ou alguma outra ferramenta de comunicação instantânea, certamente usa, além dos emoticons amarelinhos e bonitinhos que coleciona aos montes, as chamadas onomatopéias. Não tente negar, eu sei que usa.
Da mesma forma, temos a ironia, a antífrase (que nada mais é que uma forma de sarcasmo, um tipo de humor tão comum que está até listado no orkut), e a antítese. Aliás, qualquer pessoa que goste de música identifica a antítese presente em versos populares como “já estou cheio de me sentir vazio” ou “mentiras sinceras me interessam” – Renato Russo e Cazuza, respectivamente. Assim como gradação e clímax (expressões sexuais à parte, por favor) são as formas mais usadas de expressão, ainda mais num mundo silogístico como este. Pensa só: mesmo na fofoca mais ordinária que se faça, costumamos começar com “menina, não te conto!”, como se não fôssemos passar os próximos minutos desfiando minuciosamente o rosário de cada detalhe picante e cada palavra significativa.
Mas, pra encerrar o raciocínio, o recado é o seguinte: não aceite passar simplesmente pelas coisas, sem procurar apreender delas o máximo que der. Não torça o nariz pra palavras enroladas, só porque você está muito acostumado a gírias pobres, tecnicidades, lugares comuns ou estrangeirismos.
Cultura é uma coisa que nunca faz mal, não importa que haja quem defenda a ignorância disfarçando-a de liberdade de expressão ou pichando o conhecimento de preciosismo, como aconteceu num e-mail que recebemos outro dia, aqui no Assim Matei o Aurélio. O fato é que respeito cabe em qualquer lugar, isso não se discute. Mas isto não implica que degenerações lingüísticas se transformem numa manifestação rica – de impropérios, só se for! – oriunda de uma identidade de massa válida.
Aliás, aqui uma opinião toda minha e não me levem a mal: massas são estúpidas. Deixam-se levar por posturas políticas populistas, param a vida pra descobrir quem matou a Taís, provocam manifestações irrefreáveis de violência num estádio de futebol, poluem parques e praias, alimentam e apreciam produções artísticas desprovidas de beleza, como o funk e o axé. Talvez esta seja uma forma de ser feliz, afinal, quem não questiona, não se incomoda com o mundo. Mas eu ainda prefiro ser indivíduo a pertencer a alguma coletividade sem rosto.
Razão pela qual ainda defendo ser importante conhecer, pelo simples amor ao conhecimento.
Glossário
Alegoria, Antífrase, Antítese, Antonomásia, Eufemismo, Gradação, Hipálage, Hipérbole, Ironia, Metáfora, Metonímia ou Sinédoque, Onomatopéia, Perífrase, Sinestesia, Anacoluto, Clímax, Elipse
Lívia Santana
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Seguro de vida (ed.18)
Dia desses me bateu uma vontade enorme de fazer uma faixa verde-fluorescente e nela escrever com tinta vermelha (garrafal) a seguinte frase: Abaixo o gerundismo! - então, com a faixa muito bem colocada sobre o meu corpinho, eu iria até a Avenida Paulista expressar minha indignação em um protesto singular, mas que me proporcionaria uma satisfação quase orgásmica. Oras, tanta gente protesta até porque mataram um cão (lembram-se da cadela Preta?), por que eu não poderia protestar em razão do assassinato do Português?!
Nesse mesmo dia, assim que recebi a fatura do meu cartão de crédito com a cobrança indevida de um seguro que eu NÃO pedi, liguei para a empresa emissora na intenção de solucionar meu problema. Acabei arranjando outro.
- Eu não solicitei tal seguro, quero que você o cancele agora.
- Mas minha senhora, veja bem, com esse seguro a senhora poderá ficar tranqüila caso tenha algum problema de saúde. Se a senhora aceitar continuar com este, podemos dar um desconto pra senhora nos próximos três meses para um outro seguro que...
- Quantas vezes mais você vai dizer a palavra 'senhora'? E não, eu não quero esse e nenhum outro. Entendeu ou quer que eu faça um desenho?
- Ah sim, então vou estar encaminhando a senhora ao setor responsável e...
- Ahn? Você vai o quê?! Sabe, absurdo maior do que a empresa me enviar cobranças indevidas, é manter em seu quadro de funcionários alguém que não saiba sequer falar direito!
- Entendo sua indignação senhora, mas a senhora precisa entender que...
- Pára de dizer 'senhora' e encaminhe logo a ligação ao setor responsável, por gentileza.
(Treze minutos e vinte e sete segundos depois)
- Fulano de Tal, boa tarde, com quem eu falo.
- Boa tarde Fulano de Tal, serei direta. Vocês cobraram na minha fatura atual um seguro que não solicitei, por favor cancele-o.
- Claro, mas antes vou estar verificando por que esse erro ocorreu para que não aconteça novamente.
- Heim? Você vai o quê?!
- Desculpe senhora, não entendi a pergunta.
- Imaginei que não a entendesse mesmo. Esqueça, apenas faça o cancelamento.
(Vinte e sete minutos e treze segundos depois)
- Pronto senhora, a partir da próxima fatura a senhora não estará mais recebendo a cobrança deste seguro.
- Que ótimo. Mas, sabe... Eu estava aqui pensando e há um outro que eu gostaria de fazer.
- Pois não, qual seria?
- Seguro de Vida.
- E vai estar fazendo para a senhora mesma? (reparem no MESMA)
- Não, não. É em outro nome, anote aí: Língua Portuguesa.
- Desculpe, não entendi.
- pi-pi-pi...
Robertam de Felippe
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Difícil de engolir (ed.17)
Sou daquelas pessoas que prefere sempre escrever em português.
Sou daquelas que não customiza, personaliza. Não deleto, apago ou elimino. Não printo, imprimo e assim por diante.
Muitas palavras estrangeiras já foram aportuguesadas, com algumas nos acostumamos, enquanto outras soam bem estranhas, mas até dá aguentar: estresse, drinque, espaguete, estêncil, flerte, gangue, grogue.
Outras são esquisitíssimas: escripte, eslôgã, esmôquim, espíquer, esqueite, estriptise, frilance... Chega!
Mas algumas vezes, tenho vontade de chorar.
Viking, por exemplo, em português é viquíngue. É a mesma coisa?
E reveion? Melhor esquecer e pensar no Ano Novo.
Mas a pior de todas é píteça (é com "e", pois este tem som de "i" em sílaba átona). Quem em sã consciência come uma píteça?
Dri Polacco
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Aqui jaz nossa língua (ed.16)
Quero começar essa coluna com uma oração: a Oração do Ignorante: “Deus, dê sabedoria para assimilar o que outros dizem, pois sou tapado. Dai-me senso crítico e racionalidade para que eu saia de minha medíocre ignorância. Mostra-me o caminho da razão, pois vivo na irracionalidade. Ilumina meu caminho para a verdade e o conhecimento, pois só enxergo aquilo que outros me mostram. E acima de tudo, faça com que eu seja tolerante, pois nem todos o são com a minha estupidez. Amém”.
Após esse momento de profunda lucidez – e espero realmente que muitos ignorantes entendam isso como uma crítica construtiva – vou relatar alguns assassinatos. Não sabe o que é crítica construtiva? Procura no Google! Se não sabe o que é Google, continue assistindo Faustão. Quem sabe um dia você descubra!
Antes que algum ignorante venha me tacar pedras, entenda:
do Lat. ignorante
adj. e s. 2 gén.,
indivíduo que ignora;
que não tem ilustração;
desconhecedor;
que não possui a habilidade, o saber que a sua profissão exige.
Conheço pencas, pencas de pessoas em período de estudo ou não que ignoram a nossa linda língua portuguesa. Ignoram mesmo! Você explica o certo e continuam falando e escrevendo errado, porque... bem... porque querem! Sou adepta da liberdade de escolha. Você escolhe o certo ou o errado. O que quer ser e o que não quer ser.
Dói! Dói os olhos e os ouvidos de quem vê e ouve essa epidemia de assassinatos incontroláveis. E já que a coluna se dirige ao nosso ilustre Aurélio, vamos falar de vocabulários. E na falta dele. E no seu uso completamente equivocado. Quem sofre do coração, não siga adiante. Será fatal!
Fila de supermercado! É o ponto mais freqüentado pela falta do bom uso de nossa língua. Já ou vi por ali:
- Comprou papel iluminado? (papel-alumínio – e está escrito na embalagem!!!)
- Meu marido comprou um celulá rastejado pur satéliti (rastreado)
- Essa brusa (blusa) frutacô (furta-cor) é de malha matizada (mercerizada)?
- Custei a subi na garagi! Muito íngridi! (íngreme)
- Ontem cumi salada mística (mista) no restorante (restaurante).
- Era serviservo? (Self service)
- To cuma ansiosidade! (ansiedade).
- A minha vizinha tem um filho homensexual (homosexual).
- Ah, minha filha, é a lei dos smurfs: a gente sempre fica na fila que anda menos. (Lei de Murphy)
- Ana Cráudia (Cláudia) tá uma gracinha! Adora si gambá (gabar) só porque andou de avião. (Coitada da Ana Cráudia...).
- O pai dela trabalha no oroporto? (aeroporto)
- E a mortandela, quanto foi? A chalchicha foi baratinha! (eu não sabia como escrever errado salsicha... já mortadela virou apelido, né? rs)
- Distraí o dente diciso. (extraí – siso)
- Fulana deu uma esmagrecida... (emagrecida).
- Tive de assustá meus cheques todos! (kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk Sustar!)
- Ele num dava ligança pro que eu tava falando. (alguém traduz?)
- Já to com dorcicolo. (torcicolo)
- Eu fico cumedo (com medo) quando tem os omi (homens) me bizoiando (olhando) cum (com) cara de ixtrupador (estuprador).
- A gente tamo ino (estamos indo) pra sua casa, mas antes de chegar, eu te dou uma telefonada (telefonema).
Depois dessas 2 últimas, só matando! Quem não suporta mais ler sou eu!
Mas nem só as filas de supermercado são alvo dessas atrocidades lingüísticas! Salas de aula também proliferam esses assassinos. Infelizmente. Falar e escrever certo parece coisa de outro mundo. O que impressiona é que fazem de uma forma que o errado é mais difícil de falar e escrever que o correto!
Mas vou deixar as pérolas dos nossos estudantes para a próxima edição! É muito erro até mesmo pra mim, que nem sofro de problemas cardíacos. E as pérolas do orkut? Dão um belo livro da grossura de uma bíblia!
Então, prezado ignorante, antes de levantar um estandarte de preconceitos (Sim! Preconceito com a forma correta de se escrever e falar!) e acusações (Contra a minha pessoa ou quem quer que viva lhe corrigindo...) eu te aconselho que estude, mas estude bastante, leia, se interesse por aquilo que você não compreende, pesquise, analise, tenha conhecimento, quem sabe desta maneira você aprenda. Ah, e faça a oração que ensinei no início deste texto. O autoconhecimento é o primeiro passo para a evolução.
Andréa Paes
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De grátis, nem injeção na testa (ed.15)
Sim, caro leitor, você realmente leu este título lamentável. Mas a culpa não é minha, eu garanto. Aliás, estou aqui justamente pra expressar a minha indignação com coisas desse tipo.
Assim como eu, você deve receber diariamente as malditas mensagens do orkut anunciando vídeos de celebridades em situações comprometedoras, blogues ruins, poemas horrorosos, mensagens de otimismo nauseante, sexo amador e profissional, fofocas e anúncio de créditos livres de celular. Eu já disse que odeio o Orkut? Se sim, repito: odeio. Aquilo lá só serve pra causar brigas entre namorados, arranjar encrenca com as namoradas dos seus amigos sem ter culpa nenhuma no cartório, ser assediada por gente sem desconfiômetro, receber propaganda e – isso sim algo que presta – baixar jogos, vídeos e músicas.
Ah, mas voltando ao motivo deste texto. Eu queria muito saber o que leva pessoas a não só propagarem fraudes com créditos de telefonia celular, como a assassinarem o pobre do português no processo! Não, o português não é o dono da banca de revista que vende o cartão pra recarregar o telefone, que fique claro.
Como se não bastasse a desonestidade descarada dessas mensagens – chamem-me falsa, hipócrita ou estúpida, não importa, mas deleto sem nem mesmo abrir, tal o asco que tenho desse tipo de esperteza. É por este tipo de coisa se tornar habitual e razoável que as relações humanas estão como estão! – ainda vêm intituladas assim “COLOQUE CRÉDITOS DE GRÁTIS NO SEU CELULAR!”. Duvida? Acabei de receber mais uma!
Diz pra mim: eu mereço isso?
Uma coisa, criatura execrável, é a palavra GRÁTIS, advérbio oriundo do latim que significa livre de preço, gratuito. E outra coisa é a expressão DE GRAÇA, derivada do substantivo “graça” que, acrescida da partícula “de”, se torna locução adjetiva e significa muito barato, por pouco dinheiro, grátis. Agora, uma mistura das duas simplesmente não existe, energúmeno, não passa de vilipêndio da língua pátria, da manifesta degeneração dos seus neurônios! Arre, que agonia!
Mas se parar pra pensar um pouco faz todo sentido. Afinal, o que dá pra esperar de uma gente ignóbil que perde tempo enviando mensagens pelo orkut anunciando fraudes como se fossem grandes oportunidades? Nada, oras! Não se espera nem que saibam assinar os próprios nomes, que dirá saber o significado de “língua culta” ou de “estelionato”. É uma falta total, cara. De bom senso, de simancol e de respeito próprio.
PS: Sobre figuras como “desconfiômetro” e “simancol”, eu prometo que esmiúço mais noutra ocasião, ok? Até lá.
Lívia Santana
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Hum, essa é ardida! (ed.14)
As pessoas dizem que sou "ardida" e o fato é que concordo com elas, por isso não vou me preocupar em medir palavras agora. Se eu fosse uma sem-teto que expressa sua opinião quando nota algo errado elas me chamariam de desbocada - mas eu conheço as obras de Nietzsche e pago as minhas contas todas em dia, então sou "ardida". Pois bem, essas mesmas pessoas não fizeram parte do meu passado e não sabem em que circunstâncias aprendi a ler e escrever. Provavelmente acham que nasci em berço de ouro, que estudei nos melhores colégios, que tinha aulas de Latim e Esperanto nas horas vagas. E não é nada disso. O que define o grau de cultura de alguém não é sua classe social, mas o tamanho do seu interesse.
Ser ao mesmo tempo pobre e culto no Brasil, como em qualquer país de terceiro mundo, é tarefa árdua. Há pouco incentivo, há muitos recursos inexplorados. Não obstante, está longe de ser algo impossível e peca quem confunde pobreza com ignorância, assim como está errado quem acha que dinheiro é sinônimo de cultura. Pense no nosso excelentíssimo presidente, que mesmo após ter enricado e com isso aberto inúmeras portas para o hall da cultura, continua sendo um zero à esquerda em se tratando do assunto. Aí você vai me dizer que esse é o charme dele, que o cara chegou onde está porque é humilde e não tem grandes ambições na vida fora a melhoria do país e blablablá. Conversa! Um presidente que se orgulha de "a mãe ter nascido analfabeta" (sic) poderia evitar dizer esse tipo de abobrinha se quisesse. Mas, afinal, esse é o charme dele, não é?
Deixemos os pleonasmos presidenciais de lado, pensemos agora naquele garoto que o dono da banca contratou como entregador de jornais. Entre uma entrega e outra ele pega uma revista sobre Literatura e lê, não entende metade do que está escrito, então pergunta ao patrão o significado disso e daquilo. Em pouco tempo, tamanho é seu interesse pela leitura, ele estará agradecendo a oportunidade e se despedindo daquele emprego para começar em um melhor. E assim vai até que um dia, quem sabe, ele se torne dono da maior editora brasileira. Percebe? Mas ele também pode passar seu tempo livre babando sobre revistas de mulheres nuas - é uma opção dele, não minha e nem sua.
Há ainda aqueles que não têm o menor interesse em deixar de ser ignorante e ainda fazem questão de deixar isso bem claro. Certa vez a mocinha que ajuda aqui em casa com as tarefas domésticas viu no jornal a propaganda de algo que queria comprar, mas como não enxerga muito bem de perto, me perguntou: "Roberta, o que está escrito aqui, depois do asterístico?". Abri um sorriso, li a frase e depois comentei que se diz asterisco e não asterístico. Eis que, no dia seguinte, ela comenta comigo: "Menina, ainda bem que prestei atenção naquele asterístico, senão teria perdido dinheiro!". Oh, céus! Será que eu sou mesmo muito implicante ou será que pensar um pouco cansa? E, nesse caso, a palavra correta é bem mais simples do que a errada, o que torna a situação mais revoltante. Isso não é ignorância (ou burrice como alguns preferem dizer), é preguiça. Acesso à informação é o que não falta nos tempos atuais - mesmo vivendo em um país de terceiro mundo - e, se você não mora lá no "sertão do universo" onde "Judas perdeu as meias porque as botas ficaram para trás faz tempo", certamente terá a chance de aprender a escrever (e a falar) corretamente. Mas, para quê?! Você é faxineira e não jornalista, então para quê escrever tudo certinho, não é mesmo? Não, não é. E, se você pensasse diferente, talvez não fosse jornalista, mas também não precisaria ser faxineira.
Então, como havia dito lá em cima, as pessoas dizem que sou "ardida". Mas eu me orgulho por meu primeiro emprego ter sido em uma fábrica de salgadinhos, lavando batata, e ainda assim poder conversar hoje com o professor Pasquale de igual para igual.
Roberta de Felippe
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Testemunha de um interminável assassinato (ed. 13)
Não posso dizer que estou aqui por acaso ou, simplesmente,
que não sei como vim parar nessa coluna. Quem me conhece
sabe muito bem como acho repugnante, abominável e indiscutível
o fato de existir toda e qualquer defesa do que muitos
já chamam de “variação da língua portuguesa”. Tudo bem,
não deixa de ser uma variação (pra pior, claro). Um dialeto
“infanto-debilóide”, como já classificaram.
Eu confesso que quando fui chamada para escrever esse
texto achei que seria algo mais fácil, visto que eu, no
início da febre “Orkut”, cheguei a fundar uma comunidade
(Odeio Quem “Excreve Axim”, da qual falarei em outro texto)
- calma, não comece a me julgar antes de ler qualquer explicação.
Foi no orkut, “uma rede de relacionamentos”, como todos
os repórteres – ao menos de tv - insistem em chamar como
se ninguém soubesse do que se trata, mesmo quando a câmera
foca o monitor, que eu tive um imenso desgosto ao me deparar
com o denominado “miguxês” (fofolês é apelação!). Antes
de tomar qualquer atitude – até porque estava boquiaberta
e paralisada em frente ao monitor - chamei minha irmã,
mais nova e, conseqüentemente, mais inteirada do assunto.
Ao mesmo tempo eu pensava algo como “espero que ela não
saiba me explicar”. Não preciso dizer que a decepção foi
total.
É óbvio que fiquei indignada, mas não só por ser uma das
testemunhas de um assassinato, o problema é que eu não
conseguia (e ainda não consigo) compreender uma só frase
em sua completa extensão. Por outro lado, nenhum sentimento
de tristeza pela não compreensão do dialeto tomou conta
do meu ser. Mas não vou negar que a partir de então passei
a analisar o desempenho da minha irmã quando em frente
ao computador. Eu precisava entender como ela conseguia
decifrar e responder com tamanha agilidade o que, para
mim, era um código digno de ser ignorado. Até porque eu
tinha certeza que dali não sairia nada interessante. Pessoas
interessantes podem não ter domínio da língua portuguesa,
mas jamais se renderiam a tamanho absurdo (se bem que hoje
em dia não duvido de mais nada)!
Aliás, dominar a língua portuguesa é bem complicado, não
podemos negar. Quem sou eu para dizer que domino por completo
a minha língua de origem. Sou jornalista, mas e daí? Vejo
tantos deslizes em jornais e revistas todos os dias. Às
vezes um erro de digitação é motivo de “incompetência”
e é por isso que um amigo meu sempre alerta coisas como
“na dúvida, não use crase”.
No entanto, a grande questão é que esses seres repugnantes
– e eu defendo os adolescentes porque sei que eles não
são os únicos a usarem o “miguxês” - não dominam sequer
o bê-á-bá da língua portuguesa (pobre coitada). Cansei
de ouvir casais enamorados (no início da relação, claro)
falando, em público, mesmo convictos de que ninguém prestava
atenção, de tal forma. Acho que quando sai da tela do computador,
o que já era inconcebível torna-se também desesperador!
Mais assustador quando vejo entrevistas de professores
e detentores do domínio da língua dizendo que “essa é uma
transformação natural. As pessoas estão usando a língua
escrita para se comunicar”. Em primeiro lugar: eu não implicaria
com o dialeto se essas pessoas soubessem, no mínimo, conjugar
um verbo. Em segundo: o que ele chama de transformação
eu chamo de mutação literária, lingüística, ou seja lá
o que for. O importante é que vocês entendam a minha indignação.
Como se não bastasse o assassinato diário (o Aurélio é
pior que gato, se pararmos para analisar. Morrer todo dia
– nem sei se posso dizer aos poucos - não deve ser fácil)
com os excessos de letras, principalmente o “x” fazendo
som de “c, ç, sc, ss, z, ch”, ainda temos que nos deparar
com a alternância de letras maiúsculas e minúsculas. E,
pra quem não sabe, existe um programa que ao ser instalado
no computador faz todo esse trabalho. É, pasmem!
Mas ainda tem como piorar. É impossível descrever a minha
cara quando vi a chamada do Cyber Movie, no Telecine Premium.
Quem não teve a oportunidade de conferir (que sorte, hein?)
eu explico. Imagine aquele filme que vocês adoram com legendas
em “miguxês”? Pois é, minha gente. Essa sessão durou tempo
o suficiente. Todos os dias às 21 horas coisas do tipo
“koé, maluko?” e mais um monte de outras frases (nunca
consegui acompanhar essas frases no MSN. Na tv, com a agilidade
dos diálogos, que não seria mesmo possível) tentavam traduzir
o que os personagens diziam. Talvez uma forma de “emburrecer”
ainda mais a geração chamada de “futuro do país” (começo
a ficar com medo disso).
Bem, para os que sentem dificuldade para decifrar o dialeto,
há um dicionário específico para traduzir (ou desestruturar)
a língua portuguesa. Não acredita? Aqui está o link: http://aurelio.net/web/miguxeitor.html.
Por ironia do destino –e disso eu tive que rir - o nome
do inventor é Aurélio, que alega, inclusive, ter feito
pesquisas durante um tempo para desenvolver a ferramenta.
O que me conforta é que alguns especialistas dizem que
isso é uma forma de identidade (?) entre jovens e que,
provavelmente, só usarão o dialeto por um determinado período.
“É uma forma deles se fecharem em guetos e terem um diferencial”.
Por mim eles podem permanecer isolados do mundo em um lugar
jamais achado nem mesmo pra Judas sequer perder as botas.
Que sumam. Mas, por favor, para sempre!
Carla Coutinho
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Língua Portuguesa
(ed.12)
De acordo com o dicionário, linguagem é a expressão
do pensamento, por meio de palavra; ou qualquer
meio de exprimir o que se sente ou pensa; ou conjunto
de sinais, visuais ou fonéticos, através dos quais se
estabelece a comunicação; ou idioma; ou estilo;
ou voz dos animais.
Levando em conta essa definição, dá até pra entender porque
o mundo está acabando. É ou não é?
A comunicação não verbal tem proliferado enormemente,
desde gestos obscenos usados pra mandar fulano praquele
lugar até sinais gráficos ininteligíveis usados numa conversa
na internet. A coisa nesse sentido anda tão grave que é
comum ver pessoas especializadas em imitar emoticons. Ah,
você não sabe o que é emoticon? Bom, é o que antigamente
costumávamos chamar de caretas. Mas agora...o que é a evolução,
não é, minha gente?
Neste diapasão, nasceu uma coisa chamada popularmente
de “miguxês”. Ah, você, ser humano normal não sabe também
o que é isso? Explico. Imagine um monte de crianças que
acabaram e aprender a falar e que, portanto, se comunicam
através de sons rudimentares e grunhidos. Certo? Ótimo.
Agora imagine que essas crianças sabem usar um teclado
e, conseguintemente, a internet. Como será que essas crianças
escreveriam? Seria “axim”? Seria “foteenhu”? Seria “miguxo”?
(faz uma pausa pra tomar um sal de frutas)
Ufa. Então, voltando. Nem sei como é que eles se entendem,
juro por Deus. Devem ter desenvolvido alguma anomalia cerebral,
só pode. E descobri outro dia que existe até TRADUTOR de
língua de gente, pra “miguxês”. Dá pra acreditar?
Eu fico embasbacada (e nauseada) quando vejo um diálogo
travado nessa língua, que nada mais é que uma degeneração
da preciosa Língua Portuguesa, chamada por Camões de última
flor do Lácio. Antipatias à parte, havemos de reconhecer
a riqueza e a sonoridade do nosso idioma. Ainda que você
tenha suado para aprender a conjugar os verbos defectivos
e anômalos na escola, que se lasque todo pra diferenciar
quando se usa mal ou mau ou tenha se esquecido há tempos
o que significam coisas como sintaxe, regência ou concordância,
a culpa não é da Língua Portuguesa. A culpa geralmente
é do sistema de ensino, com professores entediados e desmotivados
pelos baixos salários, da “decoreba”, da falta de interação
com outros assuntos, da pobreza de recursos sonoros e visuais.
Afinal, nem todo mundo aprende da mesma forma, não é?
Além disso, atualmente existe uma tendência triste em
se valorizar excessivamente a Língua Inglesa em detrimento
da Língua pátria, o que, pra mim, demonstra aculturação.
(Não, aculturação não é falta de cultura, veja no dicionário).
Na verdade, já repararam como o Inglês é um idioma pobre,
em se tratando de vocabulário? Duvida, discorda? Então
abra o dicionário e procure o significado da palavra “get”.
Ou “play”. Ou “take”. E veja se não é a coisa mais possível
do mundo se confundir todo ao escutar ou formular uma frase?
“Ah, mas isso é argumento de gente ignorante que não sabe
falar inglês”. Bem, pode até ser. Mas isso não faz com
que a minha afirmativa seja inverídica. E, by the way,
no que diz respeito ao inglês, eu acho que me viro bem,
obrigada.
Em todo o caso, existe uma verdade: a Língua Portuguesa,
indefesa, pobrezinha, sofre ataques sádicos e impiedosos
diariamente. E, tirando o pentelho do Pasquale Cipro Netto,
não tem ninguém que a defenda.
Mas isso agora acabou. Assassinaram o português? Se ele num
tiver bigode e não se chamar Manuel, pode gritar “Assim Matei
o Aurélio”, o defensor do idioma fraco e oprimido, que nós
damos um jeito de fazer justiça!
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