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Baú do Cinema

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- The break-up
- Antes que termine o dia
- Raiozinho de sol
- De repente 30
- Círculo de fogo
- Procurando Nemo
- Adaptação
- 100 Movies, 100 Quotes, 100 Numbers
- Letra e música
- Dogville
- Sob o sol da Toscana

The Break-up (ed.22)

the break-up



Visão da Lívia

Você talvez leia o nome do filme dessa semana e pense: que merda, essas duas só sabem resenhar comédia romântica? E a isso eu poderia responder de pelo menos dezesseis maneiras diferentes, indo desde um malcriado “estou andando pro que você pensa” até um polido e interessado “existe um motivo bastante razoável pra isso”. Ai, ai, olha eu de novo começando um texto de forma mal humorada. Hoje a Dehynha me disse que queria a Lívia boazinha de volta. Ok, quando ela voltar eu dou o recado.

Mas fico com a resposta polida e interessada: existe sim, um bom motivo pra resenhar comédias românticas. Enquanto tudo que é site por aí está falando: a) de filmes cult; b) de filmes nerd baseados em HQs e c) de Tropa de Elite, a gente procura filmes totalmente fora de holofote pra poder comentar, e não só comédias românticas, claro. Afinal, pra repetir o que todo mundo já disse sobre a densidade de Brokeback Montain, pra comentar os uniformes do Quarteto Fantástico ou pra bater continência pro Capitão Nascimento, eu nem preciso pensar, tá tudo pronto!

Por outro lado, falar sobre um filme como “The Break-up”, que não prima pelos efeitos especiais, pela trilha sonora, pela atuação do elenco e nem pela originalidade da história, é um verdadeiro desafio. E olhe, se eu quisesse meter o pau no filme, também seria uma resenha fácil, porque a história está recheada de elementos passíveis de crítica. No entanto, eu cheguei ao final com a estranha sensação de ter gostado. Vejamos se eu descubro o porquê.

Vince Vaugh (o ogro mais ogro do mundo) aborda a Jennifer Aniston (que ficou com uma cruz na testa depois que virou a ex-do-Brad-Pitt, coitada) num tedioso jogo de beisebol de um jeito absolutamente truculento. Eu olhei aquilo e pensei: “cara, eu não sairia com um cara desses nunca na vida”. Aí pensei mais: “eu nunca estaria no meio de uma multidão dessas vendo um jogo idiota desses, pra começar”. Bom, mas é aí que começa. A confiança dele lhe rende a namorada da cintura mais fina que existe no mundo. Aliás, aquela mulher não deve ter uma das costelas, não é possível um ser humano normal ter aquela circunferência e ainda conservar vivos todos os órgãos e ossos dentro do tórax. Fala sério.

Então, eles vão morar juntos. Montam um senhor apartamento e, como já era de se esperar de um tipo de homem daquele, ele a transforma em empregada. Ou mãe. Tanto faz, no fim das contas o efeito é o mesmo: alguém que limpa, cozinha, cata as roupas sujas espalhadas pela casa e assiste à cena deprimente que é um homem daquele tamanho vidrado jogando videogame sem parar, um jogo atrás do outro.

Ela não se sente valorizada, ele acha que ela reclama demais. Alguma semelhança com a vida real? Ô, vida severina, viu.

As brigas são lamentáveis, totalmente desprovidas de sentido ou densidade. Mesmo a comicidade poderia ser melhor. Por outro lado, não deixa de haver apelação. A cena em que ela volta pra casa e o encontra bêbado no sofá vendo uma mulherzinha vulgar dançar seminua no meio da sala enquanto um amigo literalmente come uma outra num sofá ao lado é chocante e agressiva. Se tinha namoro pra acabar, pra mim acabou ali mesmo. Além disso, registre-se que a cena da nudez da Jennifer Aniston é pequena, rápida e mal explorada. Os criadores da história conseguiram até mesmo desperdiçar a piada pronta que envolve as sessões de depilação feminina. Uma pena.

Então, por que, diabos, você resolveu resenhar este filme? Respondo: por causa de dois discursos – o do melhor amigo, dono do bar, e o do próprio cara, no fim das contas.

O amigo faz o Ogro ver que ele se comporta como um astro – não só com a namorada, com a família e os amigos também – que não tem que prestar satisfações a ninguém e só faz o que bem entende. Mais que isso, um sujeito que é sedutor e vive cercado de amigos, mas que não deixa nenhum deles se aproximar o suficiente pra feri-lo. Ou pra ser alguém relevante de verdade. Ele arremata: “pobre garota, nunca teve a menor chance com você. O pior é que você gosta dela de verdade e sempre a manteve à distância”.

Chocado, o cara percebe a verdade nas palavras do amigo – um verdadeiro idiota maníaco que só tem essa participação decente no desenrolar da história. E se dá conta de que não quer perder a namorada.

Então, como todo bom clichê, ele arruma a casa – que a esta altura está um chiqueiro – prepara um jantar, coloca a mesa à luz de velas e espera por ela. Pra dizer que fez muita coisa errada, coisas das quais não se orgulha. E que percebe que poderia ter agido melhor em muitos momentos do relacionamento de dois anos que tinham vivido. Que a valorizava, que a amava e não queria perdê-la. Que queria fazê-la feliz. E que se dispunha a mudar, porque finalmente tinha entendido a importância, a necessidade, de não fazer apenas o que ele queria. Tinha percebido finalmente que o que se está fazendo importa menos do que com quem se está. E vindo do Ogro, o discurso é muito comovente.

Ah, uma coisa a favor do filme: não, não termina tudo feliz pra sempre depois do pedido de desculpas. Fica em aberto, o que suscita considerações sobre as possibilidades que envolvem uma relação a dois. Há quem diga que a questão nesse caso não seja de mudança, porque ninguém muda de verdade. Seria apenas uma questão de aceitação. Ela deveria ter aceitado o modo como o cara se comportava pra poderem ficar juntos. Ele, a seu turno, precisava aceitar que ela tinha necessidades e expectativas e, se queria ficar junto dela, precisava correspondê-las. Simples assim.

Mas eu acredito em mudança. Ainda que seja de perspectiva, o que faz toda diferença. Aliás, não é justamente isso que importa? Se duas pessoas se conheceram e se amam pelo que são e acabaram se afastando por terem dificuldades em lidar com a forma com que se comportavam, seria realmente necessário que ambos mudassem a sua essência pra que se dessem bem de novo? O importante não seria a forma de encarar o mundo e de reagir aos estímulos que se recebe?

The Break-Up demonstra uma coisa interessante: só odeia quem um dia amou. E, eliminado o motivo da raiva – ainda que esse motivo seja a convivência estreita – nada impede que o amor possa nascer de novo. Visto por um outro prisma.

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Antes que termine o dia (ed.21)

antes que termine o dia



Visão da Lívia

Visão da Carla



Lívia
Outro dia, tive uma grande e grata surpresa. Deram-me um filme dizendo: “Veja, vai gostar”. Olhei que filme era e o nome não me dizia nada, nunca tinha ouvido falar. Fiz cara de dúvida e a minha interlocutora garantiu que era bom e que lembrou de mim quando assistiu. Não dava pra recusar, né? Pois bem, assisti e estou balançada até agora.

Sentei-me então diante desta tela em branco e fiquei pensando em como recomendar o filme, tarefa que se revelou um tanto mais complicada do que parecia. Falar sobre filmes que são considerados obras de arte, que têm elementos inusitados, atores pouco óbvios, motes surpreendentes é relativamente fácil, acredite. O difícil é falar sobre algo que precisa fugir da pecha de piegas, a linha que separa a pieguice do drama é realmente muito tênue.

É engraçado falar sobre Antes que Termine o Dia porque geralmente não assisto a filmes feitos para chorar, não tenho paciência. Ainda mais um que eu saiba previamente que é feito pra chorar, como foi o caso. No entanto, este, sem que entenda muito bem o porquê, me prendeu. Nem que quisesse eu poderia desligá-lo depois que comecei.

Outro motivo que torna inusitado falar sobre este filme é o fato de a Jennifer Love-Hewitt ser protagonista dele. Ah, já sei, você deve estar se perguntando: “Como assim? Resenha de filme da Jennifer Love-Hewitt? Alô-ou! Ta louca?”. E certo, eu também pensaria assim. Mas antes de fechar a tela, acredite: vale a pena.
Em contraposição a tudo o que pudesse servir de motivo para não ver e ainda mais não falar sobre este filme, há um rol de razões para fazê-lo. Por exemplo, não se trata de um artigo comercial, apesar de hollywoodiano e conta com uma trilha sonora lindíssima. Além disso, discute um assunto absolutamente delicado de forma bastante sutil, esbanjando sensibilidade, levando à reflexão e até mesmo à introspecção. E mais um detalhe, um pouco bobo, mas que me agrada muito: é ambientado na Inglaterra, então o inglês que se ouve é deliciosamente britânico.

O filme começa enfocando um casalzinho jovem e bonito acordando junto num belo apartamento e cuidando da vida. Ele um executivo bem sucedido, ela uma musicista muito talentosa. Nada errado a um olhar superficial. Mas, se perscrutarmos um pouco mais, detectamos logo os erros. Muitos.

Então é inevitável nos perguntarmos: quantas mudanças não faríamos em nossas vidas se tivéssemos a visão clara de tudo o que está errado? Muitas, eu garanto. Quantas vezes nos portamos de maneira absurda e até mesmo abjeta, sem sequer nos darmos conta? E quantas coisas importantes perdemos por negligência, por não enxergarmos o óbvio?

E por que é que não temos essa visão? Será alguma deficiência, limitação inerente ao ser humano? Duvido muito. Todos nós temos plena capacidade de perceber todos os elementos presentes em nosso dia a dia, apenas vivemos imersos demais em nossos próprios umbigos e em nossos problemas para refletirmos o quanto agimos equivocadamente a torto e a direito.

O que você faria se olhasse a morte de frente? Entraria em pânico? Provavelmente. E mesmo que ela estivesse ali para alertá-lo sobre a sua conduta, ficaria tão paralisado que sequer poderia fazer algo a respeito. Certo? E se ao invés da sua própria morte, vislumbrasse a morte daquele que mais ama? Se visse diante de si a perspectiva de não poder ver de novo aquele que está sempre ali à sua volta, e que muitas vezes é negligenciado sem que você sequer se dê conta disso? Se entendesse que amanhã aquela pessoa não estaria ali para ouvir nada do que tivesse a dizer, ainda que merecesse um pedido de desculpas ou uma declaração de amor? Alguns ainda assim ficariam paralisados. Outros tentariam aproveitar o pouco tempo que resta. Quem sabe até pudessem mudar algo do que fosse acontecer? Quem sabe pudessem fazer valer a pena um dia juntos, mais até que uma vida inteira?

É este o enfoque da história, por isso o título original “If Only”. E se? Só se...

O filme lida de maneira admirável com sentimentos controvertidos como arrependimento, culpa, impotência. E saudade, amor, cuidado. Quanto é suficiente? Como é que sabemos quando se está deixando a desejar num relacionamento? Se ao menos nos déssemos ao trabalho de olhar em volta e perceber a infelicidade do outro, poderíamos facilmente identificar quando agimos errado. E mais, poderíamos evitar o sofrimento daquele a quem amamos e até mesmo corrigir os nossos passos.

Mas e então, tudo andou errado. Ainda há o que consertar? Há. Requer mais coragem contorcer-se de culpa ou se esforçar para mudar? Lamentar o erro ou aprender com ele? Existe uma segunda chance? Sempre há tempo para mudar o rumo da estrada?

Todas estas questões estão em Antes que Termine o Dia. Um filme basicamente sobre sensibilidade. Sobre a bênção que é ser tocado por coisas sutis. Feliz daquele que se emociona sem restrições, que consegue ver beleza nos lugares mais insuspeitos, que agradece as pequenas coisas. Não estou falando de se debulhar em lágrimas enquanto ouve baladas, mas de saber fechar os olhos e apreciar o calor do sol, o barulho da chuva, o riso de alguém que se ama. Feliz daquele que olha o mundo e enxerga cores, luz, dádivas, oportunidades. Porque sentir é um dom e aquele que não sente vive em vão e, portanto, já está morto.

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Carla
E você chegou todo feliz, sentou na sua cadeira de escritório que destrói sua coluna por vezes, abriu o site do Livin Rooom e clicou direto nessa coluna porque adora cinema. Porém viu o filme sobre o qual falamos e pensou “Antes Que Termine O Dia? Ah não!”, né? Pois continue sentado aí e leia a respeito ou então não leia nada, corra ali na locadora, caso não tenha tv a cabo em casa - na qual passa todos os dias praticamente - e alugue o DVD. Acha que é água com açúcar demais? Vamos lá, nada como um filme que nos faça refletir sobre cada passo dado diariamente. Ah sim, filme feito pra chorar? Sem dúvida alguma! Mas sabe quando a sensação de alívio e de vontade de fazer tudo diferente do que você fez até hoje domina a sua alma depois de um longo período de choro e soluços? É o que Antes Que Termine O Dia provoca, caso você tenha o mínimo de sensibilidade (tudo bem, se não tiver e você ao menos prestar atenção na mensagem o filme despertará algo mais no seu frio ser, garanto).

Ian (Paul Nicholls) e Samantha (Jennifer Love-Hewitt) formam um daqueles casais felizes, cheios de planos para o futuro e, apesar de suas diferenças, se amam. Ele, um executivo inglês, desses profissionais que só pensa em trabalho, nas reuniões diárias, sua carreira, decisões que serão tomadas na empresa, amigos. Ela, uma cantora romântica que só pensa em seu relacionamento e demonstra seu amor a cada instante – e, por vezes, sente a falta daquela palavra de carinho dada sem um simples gesto, não em troca, mas simplesmente por também ser humano e necessitar desse combustível.

Num dia importante para Ian na empresa, as coisas saem erradas e Samantha tenta ajudá-lo, mas é mal interpretada. Tantas brigas e diferenças fazem o casal terminar o namoro. Um acidente muda o rumo da vida do casal quando Ian acorda na mesma cena do dia anterior e repara que os fatos se repetem ao longo do dia, o que o faz perceber que teve a chance de voltar para consertar seus erros em relação à Samantha, refazendo tudo já feito anteriormente, mas da forma correta.

Pronto! Momento em que damos início à reflexão. Tenho reparado um pouco mais a cada dia nas pessoas, em todo o egoísmo que elas carregam, em como se isolam do contato físico, se afastam do próximo. A correria do dia-a-dia sufoca sem que a gente perceba. A vontade de ficar só por segundos faz com que cada um entre em seu mundo paralelo ao sair de casa com seus fones plugados no mp3, mp4 ou pocket PC. Se você precisa de informação ande mais um pouco, peça aquela senhora que está a alguns passos ou cutuque o ombro de alguém que está feliz ouvindo música ignorando o mundo ao redor.

Quantas vezes você não olhou pra alguém e pensou em dizer o quanto gosta e o quanto o quer bem, mas preferiu deixar para outro dia? Quantas vezes alguém disse o quanto você era importante e você ignorou ou não retribuiu? Não que fosse necessária uma retribuição, mas você simplesmente deixou de dizer algo especial para alguém que, talvez, o ache tão importante que só um “obrigado” seguido de um abraço seria algo mais do que significativo.

Quantas vezes a gente se esquece de retribuir favores com um simples “obrigado”, ignoramos um pedido de ajuda, saímos de casa às pressas com o famoso “estou sem tempo” e não dá aquele aperto de bochecha nos irmãos ou pais repleto de carinho? Aquele beijo, um simples - mas intenso - “eu te amo” para quem se ama, um doce “gosto muito de você”, “você é especial” para aquela pessoa que consideramos tanto e queremos tanto ter por perto. Os simples e habituais “bom dia”, “boa tarde” ou “boa noite” até mesmo no elevador com um belo sorriso para fechar qualquer assunto.

Tantas coisas que deixamos de fazer pensando que podemos fazer “amanhã” mesmo tendo conhecimento da frase “nunca deixe para amanhã o que você pode fazer hoje”, não? É nela que Antes Que Termine O Dia se resume. No que sempre deixamos de fazer, falar, pensar, querer, desejar, ser, ter, doar, sonhar, velar, amar com as pessoas que gostamos e queremos cultivar para todo o sempre em nossas vidas, às vezes por vergonha, por não saber como chegar, por não julgar necessário, por não querer ser sentimentalista demais, enfim, por qualquer coisa banal que não justificaria o fato de não fazermos tais coisas.

Mas devíamos viver, após ver esse filme e a cada amanhecer, pensando que todos os dias temos uma nova chance. Todos os dias podemos mudar algo em nossas vidas, que seja um simples gesto ou qualquer outra forma de expressão. Podemos ser mais felizes, intensos, próximos e dedicados a coisas que não dizem respeito a nós apenas, mas a todos que fazem parte do mundo que criamos em partes, a cada instante, a cada passo dado e a cada dia.

Curiosidades do filme:
Jennifer teve acesso ao roteiro do filme ainda na adolescência e desde então quis interpretar a romântica Samantha. Porém, era jovem demais na época. Mas nada acontece por acaso, não é verdade? O filme ficou registrado em papel por vários anos dando tempo e oportunidade para que a atriz interpretasse a personagem.
Tamanha foi a dedicação de Jennifer Love-Hewitt à Samantha que as duas músicas que canta no filme foram compostas por ela.
Caso você nunca tenha visto ou sequer tomou conhecimento desse filme, Antes Que Termine O Dia foi lançado em 2004, mas, no Brasil, direto em vídeo. Portanto, esqueça se você pensou em lembrar quando ele esteve em cartaz. De qualquer forma, vale à pena correr até a locadora mais próxima e conferir a história.

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Raiozinho de sol (ed.20)

raiozinho de sol raiozinho de sol



Visão da Lívia

Visão da Dehynha





Lívia
Ah, existem alguns filmes muito difíceis de resenhar.

E, acreditem, fiquei eu aqui vinte minutos olhando pra esta única frase escrita no papel, tentando me decidir do que falar. De que passagem, de que personagem, se enfatizaria o triste ou o cômico.

E ainda estou aqui parada, pensando, uma hora depois. Porque descobri que será uma tarefa árdua de verdade. Não posso fugir do tema pela tangente, porque seria indigno do filme. Não posso me lançar a uma narrativa detalhada da história, porque seria uma resenha fácil e condescendente. E, por fim, não posso pretender dissecar brilhantemente as metáforas do filme porque ou são inexistentes ou claras demais pra ter a pretensão de explicá-las a quem quer que seja.

O filme é de uma simplicidade gigantesca e fantástica. É sobre uma família formada de gente neurótica e patética, cada qual à sua maneira. A coisa é tão terrível que nos perguntamos, com os primeiro minutos de filme: “que merda é essa”? E emendamos logo em seguida: “fui enganado”!

Mas as gargalhadas durante o filme se sucedem. As lágrimas também. E a gente termina o filme com um olhar perdido e um meio sorriso.

Little Miss Sunshine mereceu cada uma das 16 indicações a prêmios que recebeu, entre Oscar, Globo de Ouro, Indenpendent Spirits Awards e British Academy of Film and Television Arts.

E se você não viu, aconselho a sanar este erro rapidamente!

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Dehynha
Poucos... pouquíssimos filmes provocam tantas sensações como este filme nos provoca. Aliás, não lembro de nenhum filme parecido com este. MISS SUNSHINE tem um sabor especial. Eu posso até afirmar que entrei no cinema uma pessoa e saí outra. Mais feliz mais pura, mais confiante. Aliás, qualquer pessoa minimamente sensível sai da sala com aquela cara de bocó sem entender o que acabou de assistir, mas maravilhado. E é nesse misto de sensações que tento descrever o que é esse filme.

Filme independente, barato para os padrões cinematográficos, totalmente humano, tragicamente cômico, com atuações brilhantes e dignas de Oscar.

Nos primeiros minutos de filme você fica se perguntando “o que é issooooooo?”, e termina apaixonado por essa família incomum. Como pode tantas pessoas sem brilho nenhum conseguir a simpatia e a paixão do público? Qual é o milagre?

Se eu for comentar sobre todas as maravilhas do filme, essa resenha não termina nunca. É uma surpresa atrás da outra. E nessas surpresas, que em qualquer filme comum nos decepcionaria, neste filme, ficamos mais embasbacados ainda. Eu nem sei contar quantos “que issoooooo!!!” exclamei.

Vou ser curta, porque continuar falando é contar o filme todo. E já fiz isso em outras edições. E nesse caso seria terrível contar os detalhes e comentar o que eu acho de cada cena. É um filme para assistir sozinho, junto, com família, amigos, de manhã, de tarde, de noite... E depois recordar e sorrir...

Ah... uma pergunta que não quer calar: A sua felicidade depende exclusivamente de suas conquistas?

Veja o filme e me responda.

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De repente 30 (ed.19)

de repente 30



Visão da Lívia

Visão da Dehynha



Lívia
É quando assisto a filmes como “De Repente 30” que me sinto menos mulherzinha. “Ah, ela ta de gozação”, provavelmente alguém dirá. Ainda mais levando em conta a resenha toda feminina da Andréa, que eu acabei de ler agora e dei muita risada, porque conhecendo minha amiga como conheço – e esse é o aspecto impagável que vocês perdem das resenhas dela, já que nunca ouviram a entonação apaixonada que ela usa pra dizer tudo aquilo – sei que ela viu tudo aquilo mesmo e que ser mulher na visão de mundo dela tem muito mais graça e encanto do que se pode imaginar.

Mas por que eu me sinto menos mulherzinha? Porque as “femininices” do filme me são praticamente indiferentes. Aliás, aquele rosa todo me agride, eca. Eu assisto a “De Repente 30” pensando o tempo todo: o tempo é inexorável, meu Deus.

Ok, eu não preciso contar a história do filme, por dois motivos: primeiro, a Andréa-spoiler já contou; e segundo: todo mundo já deve ter visto esse filme numa tarde modorrenta, sem nada pra fazer e talvez até sob chantagem da namorada.

Por outro lado, queria muito falar sobre uma coisa chamada oportunidade. Quem nunca sentiu que daria um pedaço de si pra ter uma nova chance, pra fazer diferente e, no entanto teve que se resignar com a merda que fez e seguir em frente? Vamos fazer que nem a propaganda da Coca-Cola: levanta a mão quem nunca se perguntou “E se...?”.

Ah, cara, esse dilema é intrínseco do ser humano. Agimos de determinado jeito num determinado momento, motivados por sei lá o que, sofrendo de alguma forma, passando por sei lá que tipo de pressão. E quando aquelas circunstâncias passam, olhamos pro que fizemos, colocamos a mão na cabeça e dizemos um sonoro “f o d e u!”. E há aquelas vezes em que a consciência da merda nem vem logo em seguida, precisamos que aquele anjo maldito chamado maturidade venha nos sentar ao ombro, feito o corvo do Poe, e nos diga “lembra daquilo?”. E você lembra. E se arrepende amargamente.

Quem me disser que nunca se arrependeu de nada, das duas uma: ou está mentindo – não pra mim, pra si mesmo – ou é vítima de um caso grave de inconsciência e insensibilidade. Agora me diga: o que difere os homens dos animais? Tele-encéfalo desenvolvido e polegar opositor? Pode até ser, mas de que adianta andar em duas pernas se não se tem consciência e sensibilidade? Nada, a meu ver. Por isso, faça uma força aí, pense bem. Não há nada do que se arrepender, mesmo? De haver tratado mal alguém que o amava, de não ter tomado a iniciativa de alguma coisa e o momento ter passado, de ter largado a escola, de não ter largado, de ter passado tempo demais reclamando...?

De Repente 30 lida com o famigerado tema da volta no tempo, da segunda chance pra consertar tudo. O cinema, aliás, é recorrente nesse mesmo tema, como podemos ver em De Volta para o Futuro, Efeito Borboleta, Antes que Termine o Dia, Os 12 Macacos, A Dona da História, etc. E só é recorrente por um motivo: querer consertar a merda de um jeito milagroso é algo antes de tudo humano.

E sabe, há outra coisa que me ocorre assistindo a este filme: eu, que até outro dia era ninfeta, to começando a pensar – e achar! – nos cabelos brancos. E de repente, to com trinta, quarenta, cinqüenta, oitenta. Sem possibilidade de voltar no tempo, sem direito de arrumar tudo num passe de mágica. O que me lembra de pensar nas merdas antes de fazê-las, pra ver se eu choro menos depois e chego nos oitenta uma velhinha mais simpática.

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Dehynha
Voltar no tempo...

Quem não desejou pelo menos um instante de sua vida voltar no tempo? Mas e avançar no tempo? Eu, pelo menos, nunquinha! Por mais que minha infância e adolescência não tenham sido das melhores... eu nunca desejaria avançar no tempo. É meio louco comer parte de sua vida em um instante apenas.

Mas nesse filme bobinho, feliz e gostoso de assistir, a personagem Jenna (nomezinho feio!) deseja ardentemente ter 30 anos. E eu aqui, querendo voltar a ter 13! Claro, com a “cabeça” que tenho aos 30! Imagine que delícia olhar para os meninos (ih... isso aqui ta virando papo de TRICÔ) aos 13 anos e vê-los com todo o conhecimento de 30? Hum... pensando bem... eu deveria esperar pelos 18 anos pra... ah... xá pra lá!

O que me surpreendeu no filme foi esse desejo da Jenna em chegar aos 30. Achar que aos 30 as mulheres são resolvidas, felizes, completas... Eu me lembro que nos meus 13 anos eu só queria estudar (é sério!), brincar, dar o primeiro beijo( é sério também), conhecer uma boate... Ta certo que nessa idade muitas meninas já têm o corpo com curvas, e outras, coitadas (eu – uma delas) retas! E isso, claro, gera um complexo horrível. Mas nem por isso desejei ter 30. Eu queria era sumir! Ou acordar mais curvilínea...ganhar mais uns quilinhos... Até porque aos 30 as coisas já estão indo pela lei da gravidade. Por mim, ficaria nos meus 25 até o fim!

No caso da Jenna, aos 30 ela é uma mulher linda, rumo a um sucesso almejado por qualquer mulher, e namorada de um cara lindo e famoso! Assim, até eu, né? Mas lá está a Jenna, cabeça de 13, com 30 anos, e começam as situações engraçadas. Principalmente em relação ao amor. E no amor, os clichês. Convenhamos que essa história do seu melhor amigo da adolescência ser apaixonado por você é beeeeeeeeeemmmmmm clichê. E a Jenna descobrir isso aos 30 e voltar no tempo pra reparar tudo é mais clichê ainda!

Nem por isso o filme deixa de ser bacana. O diretor Gary Winick manteve um clima super gostoso no filme inteiro! Acho que pra alguém não gostar desse filme, tem de ser muito insensível e nada nostálgico. Ou, ser homem! (risos). É, porque homem não pensa em romance nem em quantos beijos ele teve aos 13. Aos 13, os meninos só pensam em bola (e continuam pensando até o final de suas vidas), dar umazinha (continuam pensando até o final de suas vidas), sair com os amigos (continuam pensando até o final de suas vidas), e... bem... a cabeça deles nunca muda! Apenas se acrescenta ter de ganhar dinheiro pra pagar o carro, as viagens, a cerveja, o ingresso pro jogo de futebol, a tv a cabo e o puteiro da esquina. (eu sabia que isso ia virar um TRICÔ).

Voltando ao filme, o romance toma conta de tudo! Afinal, a Jenna é uma mulher de 30, e ela vê que ter 30 e estar sozinha não é legal. Mesmo sendo editora de uma revista de sucesso e morar num apê super bacana! Fora o fato de ter um cartão de crédito com o limite lá em cima! E as festas? Nossa! Ter 30 assim... até eu!
E ela se vê sem o seu amigo, e vê também que ele é mais que tudo de bom! Aliás, ele é mesmo! Um xuxu! E fotógrafo (ta bom... puxei pro meu lado...sorry ) ! E o romance deles é uma delícia, só que o rapaz já é comprometido. Pois é... a Jenna dançou. Quem mandou pular 17 anos?

Como todo filme de romance, o casal sensação tem de ter final feliz. E, com nenhuma surpresa, ela volta no tempo! Ooooooooooohhhhhhhhh...

Então, beijo-beijo, amo você pra cá e pra lá... ter 13 anos é muito bom... e termina o filme com os protagonistas felizes e de novo com trintinha!

Bobo? É! Clichê? É. Mas gostoooooooooooso de assistir... Um filme prum sábado à tarde, debaixo do edredom, com mais 2 ou 10 amigas, comendo chocolate, sorvete, bolo, brigadeiro e muitas, muitas lembranças bacanas pra se tricotar!

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Círculo de fogo (ed.18)

círculo de fogo



Visão da Lívia

Visão da Dehynha



Lívia
Primeiramente devo dizer que a inclusão deste filme na lista do “Cinema Noiar” se deveu a alguns fatores um pouco diferentes dos que vêm orientando as nossas escolhas. Até agora, os filmes foram indicados por mim ou pela Andréa tendo em vista apenas uma coisa: o nosso gosto pessoal. E nem sempre tivemos consenso sobre a qualidade do filme, no final das contas – haja vista a Andréa ter tido a capacidade de desancar Adaptação! Meu Deus do céu.

Este, no entanto, saiu numa conversa no MSN. Eu disse: “Andréa, precisamos diversificar o estilo dos filmes pra não aborrecer os leitores só com filme cult ou filme de mulherzinha”. Ela concordou e sugeriu filme de guerra ou ficção científica. Aí, pára tudo. Uma coisa muito importante: Eu ODEIO filme de guerra. Não, não é exagero não, é bem assim mesmo. Ódio, mortal e profundo. Resgate do Soldado Ryan e Rambo pra mim, dão na mesma porcaria. No começo do ano, já não lembro mais quando, fui parar na sessão de meia noite pra ver Flags of Our Fathers e, acreditem ou não, eu DORMI pela primeira vez na vida dentro de um cinema. Puta cadeira desconfortável da porra, disparos altíssimos de perfurar o tímpano de pobres almas que estavam ali por engano, e eu dormindo. Saí de lá grogue e JUREI de pés juntos que nada no mundo me faria voltar pra ver Cartas de Iwo Jima. (pára pra tomar um copo d’água ao lembrar do episódio traumatizante)

O que eu tava falando mesmo?...Ah, lembrei. Ficção Científica. Geralmente filme de ficção científica é uma merda, tirando grandes pérolas como De Volta Para o Futuro, ET, Cocoon, Jurassic Park, Laranja Mecânica, Os Doze Macacos, essas coisas. Ainda faço um TOP 10 Filmes de Ficção Científica que Salvam, só pra ver gente me jogar pedra. Ah, o que? Não, querido leitor, não me esqueci de Star Wars, não. Eu só prefiro não tecer comentários a respeito, já que nada que é “das estrelas” – jornada, guerra, viagem, patinação no gelo, etc – eu tolero. É, lamento, mas a verdade é essa.

Mas então, voltando à vaca fria. E bota fria nisso. Aqui estou eu, pra resenhar um filme de guerra. “Ué, mas você não odeia isso?”. É, odeio. Mas sei lá por que, na conversa com a Andréa me veio uma perturbação mental e eu disse: “Ah, tem um que me obrigaram a ver outro dia que eu até gostei”. E ela: “É? Qual?” E eu: “Ah, Círculo de Fogo”. Ela nunca tinha ouvido falar, mas topou. A Andréa devia ser mais dura comigo de vez em quando. Dizer, por exemplo: “Você ta louca? Vamos ver alguma coisa que preste!”. Mas não, ela diz: “Ta bom!”. E aqui estou eu, acabando de me dar conta de que cometi um erro de julgamento.

Apesar de todo este prólogo verborrágico e melodramático, como é característico meu, Círculo de Fogo é um filme interessante. Principalmente porque há dois jeitos de se ver o filme: enfocando o contexto histórico ou se concentrando no drama psicológico. Notem que a Andréa assistiu ao filme seca pra ver a batalha de Stalingrado. Eu gosto dos personagens e dos dramas pessoais. E por isso, sem querer, acabei ficando em frente à televisão enquanto um lobo ia espreitando entre a ramagem em meio à neve. Por fim, quando ouvi “I am a stone” com o indefectível sotaque britânico do Jude Law, fiquei, né?

Acabado o flash back com o lobo, nos mostram o olhar perdido e muito azul do Jude Law, que acaba pousando em cima da Rachel Weisz. Ótima cartada, deixa claro imediatamente a que veio o filme: contar a história de amor entre um casal de lindos protagonistas. E ali mesmo sabemos que a coisa vai se desenrolar de qualquer jeito, que se dane a guerra explodindo lá fora.

Fui olhando as caras de medo dos soldadinhos magrelos enfiados nas fardas encardidas e pensando: cara, a humanidade tem problemas mentais seríssimos. Não basta sermos responsáveis pela dizimação e estupidez que envolve uma guerra, ainda remontamos a coisa toda com figurantes e música apocalíptica tocando ao fundo, pra depois exibirmos “a obra” pra deleite de uma platéia de lunáticos. Dá no mesmo que apreciar suicídios.

Além de estúpida, não há quem me convença de que guerras não são construídas em cima de mentiras deslavadas ditas por mestres da retórica. Círculo de Fogo demonstra isso. Um herói forjado pra insuflar esperança numa nação afundada em miséria e escuridão. Vassili Zaitsev– Jude Law – é uma mentira. Um rapaz ignorante, assustado, com o instinto de sobrevivência acurado e uma boa pontaria. Nada mais. E o transformam em herói. Isso basta para animar os civis russos a continuarem se agüentando e os soldados a resistirem um pouco mais. Basta isso para suscitar a ira dos alemães ante a empáfia do herói que ousa ser um entrave à sua dominação. Basta isso pra que a mocinha se apaixone. E que um amigo se rasgue de ciúmes a ponto de virar um inimigo íntimo.

Eu não vou contar a história do filme – vocês já devem ter reparado isso. Vou comentar algumas coisas, apenas.

Num dado momento Vassili conta a Tânia – Rachel Weisz – sobre o horror que é matar alguém que tem rosto, em vez de apenas um vulto ao longe. E fala sobre como todos aqueles rostos o assombram, como nunca vão embora. Em seguida, vaticina: “todos aqui reunidos sabem que vão morrer. Então cada noite que voltam vivos é um bônus, o que faz com que cada xícara de chá, cada cigarro, seja uma celebração, porque pra muitos pode ser a última noite. É algo que você precisa aceitar aqui: chega a vez de cada um”. E em seguida diz, dolorosa e pateticamente, que se sobreviver à guerra, quer trabalhar numa fábrica. Porque foi a uma quando criança e percebeu que os operários não tinham noção do que acontecia ali como um todo, mas que o capataz, colocado acima, deitando o olhar sobre a massa de trabalhadores, sabia. E que um dia ele queria ser como aquele homem. Quer metáfora mais perfeita? Guerra e indústria, morte e trabalho alienado. Tudo uma coisa só.

A opressão do momento não consegue apagar a beleza da cena que se segue, em que ela procura por ele no dormitório e fazem amor silenciosamente, com soldados dormindo em volta. Ela se deita ao lado dele fitando-o intensamente. Seguram-se as mãos. Ela beija o peito dele e enfia a mão pequena, com unhas sujas por dentro da calça, cujo botão ele a ajuda a abrir. Beijam-se, acariciam-se e ocultam a pouca nudez sob o cobertor. Intenso, mudo, arquejante. Contorcem-se um contra o outro, vibrando de agonia. Ela arregala os olhos, ele fecha os dele. E tampa com a mão a boca dela pra abafar os gemidos durante o gozo. Comoventemente cúmplices. Riem e se olham, apaixonados. Vale todas as explosões pela densidade da cena.

E chega. Não vou dizer se o mocinho morre ou vive no final, se ele vence a guerra de egos – como chamou a Andréa, embora eu tenha até gostado da tensão da luta fria entre os dois atiradores, se ele fica com a mocinha, nada disso. Só direi isso: filmes de guerra me dão uma imensa sensação de desperdício de horas preciosas. Porque eu gosto é de vida e não de morte. E me agradam boas idéias, e não espetáculos de estupidez sangrenta.

By the way, pra quem gosta do gênero, é um ótimo filme. Hasta la vista (viu como eu fiquei poliglota nesse fechamento?) e até semana que vem, com uma resenha decente desta vez (eu espero).

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Dehynha
Durante toda a minha vida li sobre a segunda guerra mundial. Sou fã de um escritor alemão, Heinz Konsalik, que em 90% de seus best sellers escreveu romances históricos. E acho que em 80% deles é mencionada ou descrita com detalhes a segunda guerra mundial, sendo focados o Exército Vermelho e os Nazistas. Apesar de ser um escritor alemão, ele é imparcial em seus livros. Relata o horror e a crueldade dos dois lados. Ressalta a forte perseverança alemã contra o patriotismo russo. A confiança dos alemães no partido contra a obediência dos russos a Moscou. Descreve de uma maneira tão vibrante e apaixonante que você se entrega às histórias. Sofre o frio da Sibéria, sente as dores causadas pelas torturas, ama e odeia cada um dos chefes dos exércitos. Quando um leitor acaba de ler um livro do Konsalik, corre pra abraçar a família, passa a dar mais valor ao que tem, e vive melhor. Porque ele faz com que você conheça cada soldado e o que ele mais ama. No fim, todos são heróis. Heróis de uma guerra onde todos perdem.

Quando a Lívia me convidou a ver esse filme, e disse que era baseado em fatos reais, e que a história era sobre um herói de Stalingrado... aaaaahhh... Surtei! Mas, acho que minha expectativa foi maior que a competência do diretor.

Antes de meter crítica á sinopse, tenho que dar o braço a torcer para a escolha do elenco. Bravíssimo! Sem Ed Harris, Jude Law, Joseph Fiennes e Bob Hoskins, eu não teria chegado ao fim do filme. A produção foi correta. Nada espetacular... mas foi boa o suficiente pra nos localizar no filme. Já a Rachel Weisz poderia se sair melhor como russa. Talvez culpa da direção, que deve ter optado por uma mulher mais doce e atraente do que uma brava guerreira.

Falei do Konsalik logo no início porque este filme foi baseado num resumo do livro Enemy at the Gates, de William Craig, sobre um famoso duelo entre um jovem russo e um nobre alemão durante a Batalha de Stalingrado. Então cabe aqui o seguinte: porque não leram um livro do Konsalik? Sairia um filme muito mais forte, emocionante e real do que este. Até porque a equipe diretor/produtor é muito boa: Jean-Jacques Annaud/ Alain Godard. Só leram o livro errado. Até porque a história desse herói russo não tem provas palpáveis, porque o herói foi criado oportunamente para dar coragem aos russos que quase perderam Stalingrado para os alemães. Assim, o filme se perde num enredo frio, onde uma grande batalha, que causou a morte de mais de 2 milhões de soldados, se resume a uma briguinha de egos de dois franco atiradores. Uma brincadeira de caça e caçador. Um tema aliás, muito melhor contado, filmado e emocionante em Fogo Contra Fogo (Heat – 1995). Tá certo que até o rifle do herói russo, Vassili Zaitsev, está exposto no museu histórico de Volgogrado (antiga Stalingrado), e ele permanece até hoje como um herói nacional, mas mesmo assim, foi muito mal contada essa história.

Pra criar mais interesse, os diretores resolveram colocar uma história de amor no meio. E apesar de eu estar receptiva e sensível a qualquer coisa, o romance entre Tânia e Vassili não me comoveu nem um pouco. Ai que saudade dos romances passionais dos livros do Konsalik...!

Então, fica aqui meus parabéns ao Ed Harris que representou um alemão fantasticamente! O olhar, a tensão, o meio sorriso... ele fez o filme sozinho. E, pasme, só chegou ao filme lá pela metade! Bob Hoskins arrasou de russo safado. Aliás, ele arrasa sempre! Joseph Fiennes me emocionou também. Senti o ciúme e a amizade que ele expressou.

Fico pensando no que seria desse filme sem esses atores maravilhosos. E talvez, pela atuação deles, eu terminei o filme sem saber se gostei ou não gostei. Só tenho uma única certeza: eles se basearam num resumo de livro bem fraco.

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Procurando Nemo (ed.17)

procurando nemo



Visão da Carla

Visão da Dehynha



Carla
Quem nunca se incomodou com a superproteção dos pais? Certo, ignore a pergunta se você é da década de 70 ou 80, quando a “paz e o amor” reinavam, o rock’n’roll dava as coordenadas e, no final das contas, os filhos eram julgados rebeldes sem causa. Tudo bem, vou mudar a linha de raciocínio. Lembra aquela época das festinhas americanas (eu sempre levava fandangos – barato e alegrava a festa) que os pais marcavam hora para voltar? Nossa, 22h em casa! (E hoje a galera sai a essa hora. Como as coisas mudam, não?). Pra piorar, os pais iam buscar na porta! Vai me dizer que você nunca pediu pra seu pai ou sua mãe parar o carro lá na outra esquina pra ninguém ver que eles te levaram? Claro que já, sem essa de “nunca”! Seus pais são liberais, nunca se preocuparam com suas idas e vindas e você nunca precisou dar satisfações? Conta outra.

Procurando Nemo é, sem dúvida, uma surpreendente animação da Pixar. Aliás, este filme inaugurou um novo padrão de qualidade para a Pixar e para a arte da animação digital. Tudo bem, sou suspeita para falar de animações e nem crítica de cinema eu sou, mas a resenha é minha, então eu falo o que eu quiser, cito quem eu quiser e comparo com o que eu quiser.

O filme conta a história de Marlin, um peixe-palhaço que acaba de se mudar com a esposa, Coral, para uma anêmona, a qual julga ser o “local perfeito”, pois proporciona uma das mais belas vista do recife. Nesse ponto, Marlin já mostra a preocupação em dar o melhor para sua esposa e, claro, para os seus 401 filhotes – prestes a nascer. Porém, o ataque de uma barracuda muda o rumo da história. Sobrevivem apenas Marlin e Nemo, que nasce deficiente, com uma nadadeira menor do que a outra – a “nadadeira da sorte”.

Marlin, que muitos julgam simplesmente superprotetor, é na verdade um peixe-palhaço traumatizado pela tragédia (você não ficaria?), que passa a praticamente sufocar Nemo com o excesso de zelo, afinal, há em jogo o medo de perder a única coisa que lhe restou. Obviamente a nadadeira é também desculpa para a superproteção e, com tudo que ocorreu, Marlin prometeu que jamais deixaria nada acontecer ao filhote.

A primeira cena do diálogo de Marlin e Nemo pode ser comparada ao que ocorre com a gente. Que pai e mãe nunca ficaram preocupados em levar o filho para escola pela primeira vez? E que filho nunca fez escândalo ou pirraça ao ser deixado lá no primeiro dia de aula? (se você vão fez, viu vários coleguinhas fazendo). Depois de anos sem sair da anêmona, o momento é inevitável. Marlin olha ao redor – temendo a violência (pense na cidade) e até tenta convencer Nemo a adiar sua ida à escola, mas é em vão. Nemo não vê a hora de conhecer novos “amiguinhos”.

Na escola, o “Tio Raia” é daqueles professores que adoram dar aula ao “ar livre” – no caso, água mesmo – e mostrar tudo que existe ao redor. E, para desespero de Marlin, leva os alunos para o paredão, o limite entre o recife e o mar aberto.

Então Marlin comete um erro terrível: diz a Nemo que ele não consegue nadar em mar aberto por causa da nadadeira. Pronto! Filho que se sente desafiado, sabe? Nemo diz que odeia o pai, não pensa duas vezes e nada em mar aberto para provar que é capaz de nadar até o casco do navio que está por ali. O problema é que um mergulhador, um dentista de Sidney, o captura para dá-lo de presente a sua sobrinha, Darla, uma assassina de peixes pior que a Felícia de Tiny Toons. Tão ruim que sua aparição tem como trilha sonora o tema de Psicose.

Aqui o filme se divide em dois momentos: a aventura de Marlin em busca do filho e o destino de Nemo no aquário do dentista.

Marlin viaja centenas de quilômetros lutando contra o mar inteiro, enfrenta tubarões, águas-vivas e todos os tipos de predadores, tudo na companhia de Dori, uma peixinha que sofre de perda de memória recente que é o personagem mais engraçado e adorável da história.

A aventura em alto mar garante encontros divertidos, ainda que perigosos. Como o grupo de auto-ajuda formado por tubarões, cujo juramento é “eu sou um tubarão legal e não uma ignorante máquina de comer, se eu quiser modificar essa imagem eu tenho que me modificar, os peixes são amigos e não comida”. Ou o grupo de tartarugas surfistas cheias de gírias (“arrepiando aquelas águas-vivas, tu tocou mó terror irmãozinho”), entre eles Crush, uma tartaruga de 150 anos com quem Marlin acaba aprendendo que os pais devem deixar os filhos se virarem, devem acreditar na capacidade deles e deixá-los livres.

Engraçado quando, no meio do caminho, Dori sugere pedir informações para um ser que, de longe, parecia pequeno. Marlin, traumatizado, coitado, acha que pode ser mais um predador e Dori solta a fantástica questão “porque que homem detesta perguntar?” (caramba, até aqui, meninos, por favor, hein?) e Marlin responde com “não vou discutir a guerra dos sexos e sim a nossa sobrevivência” (saída clássica pela direita).

No entanto, o “sombrio” ser é uma baleia e Dori passa a se comunicar em baleiês: “Procuraaaando Neeeemo. Ondeee é que ele táááá? Quero sabeeeer como chegar láááá?...” (confiram essa parte no texto da Déa que, na minha opinião, é a mais autêntica resenha do filme). Um momento realmente antológico.

Em dado momento, Dori diz: “é engraçado, pois se você não deixa nada acontecer com ele, nada vai acontecer com ele. Não seria bacana pro Lemo”. (lembrando que no filme ela o chama ainda de Remo e Feno). Pais, só mudam o endereço e a espécie, não? Infelizmente ou felizmente, quem sabe, chega a hora dos filhos aprenderem a “andar com as próprias pernas”.

Eles acabam chegando a Sidney e a notícia logo se espalha, até chegar a Nemo, preso no aquário do dentista, que se finge de morto para escapar de Darla. Mas o pai o vê nesse momento e acredita que o esforço foi em vão, que o filhote realmente morreu.

Marlin volta para o mar desconsolado e Nemo consegue fugir, pois como lembra Gil – o peixe repleto de cicatrizes devido às suas diversas experiências, principalmente de fuga - “todo esgoto vai dar no mar”. Decepção de Marlin de um lado – que quer ficar sozinho, pois acha que o filhote está morto, e desespero de Nemo do outro, que agora procura o pai. Cena que eu chamo de momento “óóóóó” (a sala do cinema se emociona): Dori pede que Marlin não vá embora, pois ninguém nunca ficou com ela por tanto tempo e com ele ela consegue lembrar das coisas. Enfim, é em vão.

Nemo encontra Dori, agora perdida, nadando em círculos, pois, é claro, esqueceu de tudo. “Oi, sou Dori”. “Sou Nemo”. “Nemo? Nossa, que nome legal!”. Dori agora ajuda Nemo a procurar o pai que, até então, ela “nunca vira” e só se lembra ao ler na tubulação do esgoto a palavra Sidney. Aí o endereço P. Sherman 42 Wallaby Way Sidney (que vocês também nunca vão esquecer) traz de volta a memória da peixinha que parte desenfreada junto a Nemo em busca de Marlin (ê, confusão).

Marlin e Nemo se reencontram e conseguem escapar de uma rede de arrasto que pega um cardume e leva Dori junto (ê, laia, isso não vai acabar nunca?). Nemo consegue mostrar ao pai que pode fazer muitas coisas e este lhe dá um voto de confiança. A hora da reconciliação, hora de lágrimas nos olhos (ao menos para quem é manteiga como eu que choro ao ver qualquer abraço, mesmo sem saber o motivo).

Então tudo volta ao normal. Marlin agora acorda o filho para ir à escola, mas o importante, é que também passa a confiar nele, não vendo necessidade da superproteção de antes, afinal, perigo sempre vai existir, mas é correndo riscos que os filhotes vão aprender a enfrentar os perigos que a vida (sempre) oferece.

Obs 1: Acho importante ressaltar que no caso de superproteção familiar, os pais da criança muitas vezes são bem educados; o abuso, neste caso, é a superproteção dada à criança, que é isolada da sociedade. Os motivos são vários, como alta criminalidade na região ou outro medo irracional dos pais.

Obs 2: Musiquinhas do filme que você não vai esquecer: “Quando a vida decepciona continue a nadar, continue a nadar, nadar...” (Dori), “Já era, já era, pois é. Ninguém virou jantar u-hu” (Marlin), “Ninguém virou jantar tô de dieta” (Dori) e, claro, como dito anteriormente, o endereço P. Sherman 42 Wallaby Way Sidney

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Dehynha
Prrrrrrrrrrrrrrrrrooooooooooooooooooooooocccccccuuuuuuuuuu
uuuuuuuuuuuurrrrrrraaaaaaaaaaaaaaannnnnnnnnnnnnnnnnnn
nnnnnnnnddddoooooooooooooooo Neeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeem
mmmmmmmmmmmmmoooooooooooooooooooooo

Continuuuuuuuuuuuuuuuuuuueeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee
eeeeeee aaaaaaaaaaaaaaaa naaaaaaaaaaaaaadaaaaaa
aaaaaaaaaaaaaaarrrrrrrrrrrrrrrrrrrr...

Peeeeeeeeeeeeeeeeeeeiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiixxxx
xxxxeeeeeeeeeeeeeeeeee éééééééééééééé
aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaammiiiiiiiiiiiiiiiiiiii
iiiiiiigooooooooooooooooooooooooooo,
nnnnnnnnnnnnnnnãaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa
aaaaooooooooooooooooooo ccccccooooooooooooooo
ooooooooommmmmmiiiiiiiiiiiiiiiiidaaaaaaaaaaaa
aaaaaaaaaaaaaaaaaaaa...

Cooooooooooooooooooontinuuuuuuuuuuuuuuuuuuueee
eeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee aaaaaaaaaaaaaaaa
naaaaaaaaaaaaaadaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaarrrrrrrrrrrrrrrrrrrr...

Neeeeeeeeeeeeemmmmmmmmooooooooooooooooooo????????
Queeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee nnnnooooooooooo
ooooooommmmeeeeeeeeeeeeeee lleeeeeeeeeeeeeeeeeeee
eeeeeeegaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaalllllllllllllllllll

Eeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeuuuuuuuuuuuuuuuu nãaaaaaaaaaaaa
aaaaaaaaaaaaaaaooooooooooooooooo vvvvvvvvvvvvvvviiiiiii
iiiiiiiiireeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii
jjaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaannnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnn
taaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaarrrrrrrrrrrrrrr...

Cooooooooooooooooooontinuuuuuuuuuuuuuuuuuuueeeeeeee
eeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee aaaaaaaaaaaaaaaa naaaaaaaaaa
aaaadaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaarrrrrrrrrrrrrrrrrrrr...
Cooooooooooooooooooontinuuuuuuuuuuuuuuuuuuueeeeeeeee
eeeeeeeeeeeeeeeeeeeee aaaaaaaaaaaaaaaa naaaaaaaaaaaa
aadaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaarrrrrrrrrrrrrrrrrrrr...
Cooooooooooooooooooontinuuuuuuuuuuuuuuuuuuueeeeeeeee
eeeeeeeeeeeeeeeeeeeee aaaaaaaaaaaaaaaa naaaaaaaaaaaaa
adaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaarrrrrrrrrrrrrrrrrrrr...

* nota da editora-chefa: Dehynha, após assistir o filme Procurando Nemo pela milésima vez, está pensando que é a Dori. Tá até com a característica perda de memória recente e nem sabe mais que botão apertar pra fotografar. E pior ainda, desandou a falar e escrever em baleiês ininterruptamente. Como não achamos um antídoto ainda, preferimos deixar as impressões dela na revista. Até serve como alerta: assistir Procurando Nemo pela milésima pode ser prejudicial à saúde.

* nota do marido da Dehynha: Por favor! Alguém tem um aquário... mais ou menos 3x3m?

*nota da filha da Dehynha: Minha mâmi é uma sereia! Que legal!

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Adaptação (ed.16)

dogville



Visão da Lívia

Visão da Dehynha



Livia
Certamente a maioria das pessoas já travou diálogos internos semelhantes ao que abre Adaptação, em fade out. Preciso mudar a minha vida, emagrecer, praticar esporte, ter idéias, me apaixonar, ler mais, aprender um idioma novo, tocar algum instrumento musical, cortar o cabelo, deixar de ser patético, ser mais seguro, mais confiante. Ah, cara, quem nunca se disse nada disso?

Pra começar a falar de Adaptação, esqueçam o verdadeiro Charlie Kaufman. Li ontem uma resenha que eu realmente detestei porque fazia referência ao roteirista do filme o tempo inteiro. Sabe, na verdade eu não entendo porque pessoas se dão ao trabalho de assistir a películas se não pretendem entrar na história, deixar o mundo real, se transportar para a pele e o universo dos personagens. Que graça tem o cinema desse jeito? Se não é pra sofrer, rir, se emocionar, sofrer catarse, pra que será, então? Dito isso, que estava entalado na minha garganta, passemos ao filme.

Charlie Kaufman, o personagem, é uma fantástica composição de Nicolas Cage. Com olhos azuis perdidos, suor em profusão, pensamentos autodepreciativos torturantes, coceira pelo corpo por não saber onde colocar as mãos, ombros pendurados ao caminhar, pedindo desculpas por existir. E, em total contraposição a Charlie, temos Donald, também uma ótima encarnação de Cage. Aliás, tenho que dizer: mesmo sendo um ator subestimado e muitas vezes alvo de críticas ferrenhas – críticos de cinema são umas bestas! – sou apaixonada pelo Nicolas Cage e afirmo categoricamente que, fosse outro em seu lugar fazendo o antológico Castor Troy em “A Outra Face”, o personagem não seria tão carregado de lubricidade. Ou, fosse outro Seth, o anjo atormentado em “Cidade dos Anjos” e eu não odiaria tanto a Meg Ryan por morrer no final e deixá-lo sozinho – impensável! Ou, um outro “Senhor das Armas” não faria a platéia torcer pelo êxito do traficante de armas. Ah, não. Nicolas Cage é foda.

Donald exala uma vitalidade inexistente em Charlie. É um sujeito normal, bem resolvido consigo mesmo, esperançoso, alegre, otimista e confiante. Enquanto o outro é um ser estranho sem corte de cabelo enfiado em asquerosas camisas de flanela e cheio de idéias de como as coisas não devem ser. É um homem que olha pra garota, sente um impulso louco de beijá-la e tem tão pouca confiança em si mesmo que não se sente merecedor. Fica paralisado de medo, deixa o momento passar, e se desculpa consigo mesmo: “tenho que acordar cedo amanhã pra trabalhar no roteiro”. Aqui me ocorreu que é engraçado como os homens nos decepcionam sistematicamente em diversos níveis em diversas circunstâncias. E é impressionante como sempre damos um jeito – como a Amelia – de sorrir e dizer: “ah, claro, tudo bem, eu entendo. Espero que dê tudo certo com seja-lá-o-que-for”.

Em tudo o que acontece a Charlie existe o estranho hiato: em off, a mente está lá, ditando o roteiro certo a ser seguido, mas o corpo não acompanha, como um ator ruim escalado prum papel do qual não sabe as falas e marcações. O que vemos quando Charlie tenta adaptar o livro “Ladrão de Orquídeas”. Mas ainda aí consegui me apiedar dele: não há nada pior que um papel em branco encarando um escritor que não sabe por onde começar, porque ainda não tem a verdadeira noção da história que quer contar.

A história do livro traz ao filme dois outros personagens interpretados por dois monstros, Meryl Streep e Chris Cooper, impecáveis em cena. Ela, como a escritora do livro. Ele, como um personagem insólito do livro a ser adaptado.

Nesse momento somos engolfados por algo muito palpável: frustração e tristeza. Susan Orlean é uma mulher triste, que luta para encobrir essa realidade. Também em fade out, ouvimos a personagem narrar como gostaria de amar alguma coisa com intensidade. Neste momento os olhos dela parecem tão vazios que chega a doer. E ela termina de cravar a faca ao arrematar: “tenho de fato uma paixão – sou apaixonada por saber como é amar algo tão apaixonadamente”.

Ao lado de Susan, há Laroche. Um homem que se empenha profundamente em tudo de que se ocupa, que se apaixona por cada pequena coisa que lhe desperta a atenção. A oposição dos dois personagens é gritante, um enfatiza o outro de forma quase brutal. Uma mulher sem motivos e um homem que se entrega por inteiro a tudo. E que, diferente da maioria de nós, abandona suas paixões completamente no momento seguinte, sem se lamentar. Além de se apaixonar infinitas vezes mais que Susan, ele ainda, invejavelmente, consegue finalizar as coisas e seguir adiante. E se reinventa, se adapta constantemente. Só assim pôde sobreviver à catástrofe que sobreveio em sua vida e encontrar outro rumo. Interessante notar que mesmo seguindo em frente, ele optou por não consertar os dentes da frente, perdidos no acidente que provocou tanto estrago em sua vida. Como se a ferida não tivesse fechado. Ou, mesmo fechada, precisasse de uma elegia.

Laroche está à procura da orquídea fantasma e esta passa a ser emblematicamente a busca da jornalista também. Quem sabe ela descobrisse naquilo a fonte da paixão por que tanto ansiava? Algo capaz de seduzir a ponto de tudo o mais perder a importância? Fiquei pensativa quando Susan diz: “acho que o motivo de nos apaixonarmos é reduzirmos a enormidade que é o mundo a um tamanho manejável”. Seria esse um fator relevante no processo?

Enquanto isso, presenciamos Charlie insone, desesperado por não conseguir progredir com o roteiro, se masturbando vezes infinitas – o máximo que chega perto do sexo – enquanto fantasia com admiração e aprovação. E Donald atormentando-o, porque escreve ao mesmo tempo, um outro roteiro carregado de todos os clichês possíveis no cinema, que se desenvolve rapidamente, ao contrário do seu.

Percebemos Susan se apaixonar por Laroche, embriagada pela vivacidade que ele emana. É como se a paixão dele pudesse suprir a imensa necessidade dela por estímulo e encantamento. Em meio a isso, ela se deixa levar pela aura de mistério da orquídea fantasma. Precisa descobrir por que ela é tão fascinante. Mas se decepciona enormemente quando finalmente a vê: é apenas uma flor. E considera que “a vida parece estar cheia de coisas como a orquídea fantasma – maravilhosas de se imaginar e fáceis de se apaixonar por elas, mas que são fantásticas, fugazes e fora de alcance”. É o início do romance regado a mentiras e drogas, afinal era este o segredo da orquídea fantasma: realmente provocava fascinação e...alucinação. Um jeito torto e triste de conferir graça à vida.

Charlie está arrasado a esta altura, sem dormir e sem conseguir terminar o roteiro. Desesperado, até mesmo comparece a um seminário para escritores e descobre que seu maior problema é julgar que nada deveria acontecer no filme porque assim é no mundo real. Vivendo num mundo destituído de emoções, variáveis, alegrias, ele é forçado a perceber sua inabilidade em viver, assim como em se adaptar. Donald, por outro lado, termina seu roteiro, que é considerado maravilhoso pelos componentes da indústria cinematográfica, o que parece despertar Charlie de sua letargia: alguma coisa devia estar errada. Havia um outro ser cujo DNA era idêntico ao seu, que era muito mais bem sucedido e mais feliz que ele, logo, tinha algo a aprender com o irmão.

Todos passamos por evolução e adaptação, saídos de um ponto comum qualquer. A viagem que fazemos desde o princípio até aqui onde estamos é o que faz com que sejamos como somos e os gêmeos são dois exemplos pungentes de que nos diferencia o caminho que percorremos e as experiências que tivemos até então.

Quando os irmãos descobrem o segredo do casal, o filme sofre uma grande mudança de ritmo e atmosfera. Tudo acontece muito rápido e de repente se vêem encurralados no pântano com a escritora tentando matá-los. O estereótipo de Hollywood, nas palavras de Kaufman, contém personagens se apaixonando, sexo, armas, perseguições de carro, personagens aprendendo lições profundas sobre a vida, crescendo e superando obstáculos para terem êxito no final. É tudo o que ele não quer para o roteiro e a graça da coisa é que acaba acontecendo, como uma grande piada estrutural, como se Charlie – o roteirista – estivesse gozando de si mesmo.

E, sobre o pano de fundo dos acontecimentos finais, vemos claramente: os dois irmãos, diametralmente díspares, que são duas metades de uma coisa só e combinados fazem um só homem completo. A parceria finalmente dá certo, não há por que continuarem a ser dois e, por isso, se fundem num só. Charlie, remanescente, se sente melhor consigo mesmo. Esperançoso, pela primeira vez. Como se o que faltasse fosse recuperar a sua metade que animava o corpo de Donald e que voltou pra si quando o outro morreu.

Terminei o filme como sempre ao assistir Adaptação: pensativa. Sobre as minhas escolhas, medos, solidão, capacidade de adaptação pra vida. As flores ao final, ao som de Happy Together, acompanhando o nascer e o pôr-do-sol, sobrepondo-se ao movimento da cidade frenética ao fundo me dão sempre a sensação de possibilidades infinitas, de esperança, renovação. Suspirei, sorri, olhei pra tevê na sala ao lado, e vi um lindo sorriso do Nicolas Cage em Sessenta Segundos, quase respondendo ao meu. Que cara mais foda.

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Dehynha
Adaptando-me (quem não viu o filme, não leia. Há SPOILERS)

Entendi!

Primeiramente adaptar-me ao início do filme – tela preta e uma voz monótono-patética em off falando de depressão e problemas de autoaceitação. Nem reconheci a voz do Cage. Nicolas Cage. Incrível a mutação desse ator nesse filme! Incrível o poder de persuasão que a Lívia tem em me fazer ver esse filme. Tentei cinco vezes! E não conseguia sair dos primeiros segundos de autocrítica em off.

Roteiro. E vamos falar de roteiro. Porque esse é o assunto. Um roteiro de adaptação de um livro sobre orquídeas. Nesse momento, no momento em que o filme começa a contar a si mesmo, sua história, que é a adaptação do livro “Ladrão de Orquídeas”, eu gostei! E me adaptei ao ritmo e ao formato. Aliás, a Meryl Streep (Susan Orlean, a autora do livro a ser adaptado) me enlevou. Sua tristeza, sua busca por apaixonar-se por algo ou alguém pra fazer valer a pena viver me trouxe alívio. Algo interessante no filme. Aliás, quero ler o livro. E uma pergunta que ela fez no filme e que não quer calar: “Se realmente ama algo... não prolongaria esse momento por mais tempo?” E isso é uma metáfora. Mais uma das tantas usadas em tantos filmes. Kaufman, o roteirista de si mesmo, vomitou sua falsa modéstia dizendo ser criativo, e usou metáforas no filme o tempo todo. A pergunta de Susan cai no seguinte ponto: Eu adoraria ver prolongar a história do ladrão de orquídeas... Tão linda, tão profunda... Eu, não o Kaufman. O próprio Kaufman critica o livro como impossível de ser adaptado. Disse ele: “todos os personagens são vazios, pois não há personagens interessantes e nem história pra roteirizar”. E justamente, o ponto crucial pra mim é quando eu me apaixono pelo filme, que é quando a história do livro é contada. Quando há amor, uma intensa e profunda história sobre um apaixonado estudioso por orquídeas, John Laroche, e sua adaptação às mudanças da vida. Ele mesmo diz: “A adaptação é um processo tão profundo. O que quero dizer é que se adaptar é saber sobreviver no mundo”. E ele sobrevive. E eu também. Porque essa história foi o único motivo que me fez chegar ao fim do filme.

Fim? E quem disse que esse filme tem fim? O roteirista mata o irmão gêmeo fictício, que quase rouba seu trabalho de roteirista. Depois mata a personagem que me impulsionou a ver o filme, e seguidamente acaba com a reputação da autora do livro, para aí, sim, ver que há esperança, pois resolve escrever uma adaptação do livro que conta sobre si mesmo, e... Bingo! O roteiro tá pronto!

Narcisista e egocêntrico. É o que achei desse filme. Um filme onde o próprio roteirista fala de si mesmo e sua genialidade. Charlie Kaufman. Ele, o roteirista, o protagonista do filme, o gênio. E pra aumentar sua importância e genialidade, cria um irmão gêmeo fictício também roteirista, mas não tanto genial Donald Kaufman. Só pro expectador poder comparar. E quando o inútil, mas promissor futuro roteirista Donald começa a ganhar espaço... Charlie o mata. Assim... Simples.

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100 Movies, 100 Quotes, 100 Numbers (ed.15)

  1. A noite dos Mortos Vivos - 1968
  2. Laura - 1944
  3. Sociedade dos Poetas Mortos - 1989
  4. Blade Runner - 1980
  5. Farrapo Humano - 1945
  6. Onze homens e um Segredo - 2001
  7. Star Wars
  8. Fuga à meia-noite - 1988
  9. Veio do Espaço - 1953
  10. Os Eleitos - 1983
  11. O Fugitivo - 1993
  12. Operação França - 1971
  13. De volta para o Futuro II
  14. Náufrago - 2000
  15. Quiz Show - 1994
  16. O silêncio dos Inocentes - 1991
  17. Titanic - 1997
  18. Sete homens e um Destino - 1960
  19. Rain Man - 1988
  20. Galaxy Quest - 1999
  21. Ensina-me a viver - 1971
  22. Rosencrantz & Guildenstern estão mortos - 1967
  23. O Dia em que a Terra Parou - 1951
  24. O Apartamento
  25. Fugindo do Inferno - 1963
  26. Desafio à Corrupção - 1961
  27. Ed Wood - 1994
  28. O Panaca - 1979
  29. Os Caçadores da Arca Perdida (- 1981
  30. Feitos um para o Outro - 1989
  31. Jornada nas Estrelas II: A Ira de Kahn - 1982
  32. M.A.S.H – 1970
  33. Clube dos cinco - 1985
  34. O Rei e Eu - 1956
  35. A Luz é para todos - 1948
  36. The Princess Bride - 1987
  37. Yellow Submarine - 1968
  38. Rede de Intrigas - 1976
  39. Mr. Roberts - 1955
  40. Vida de Solteiro - 1992
  41. ... E o vento levou - 1939
  42. Cupido é moleque teimoso - 1937
  43. 007 Contra Goldfinger - 1964
  44. Sob o Domínio do Mal - 2004
  45. A Felicidade não se Compra - 1946
  46. Os Irmãos Cara-de-Pau - 1980
  47. Vestígios do Dia - 1993
  48. O Expresso da Meia-Noite - 1978
  49. A Fortuna de Ned - 1998
  50. A Princesa e o Plebeu - 1953
  51. Rebeldia Indomável - 1967
  52. O Seqüestro do Metrô - 1974
  53. As aventuras de Robin Hood - 1938
  54. À Beira do Abismo - 1946
  55. Sindicato de Ladrões - 1945
  56. O Grande Salto - 1994
  57. Na lista Negra - 1988
  58. Monty Python e o Cálice Sagrado - 1975
  59. Procurando Nemo - 1997
  60. Ben Hur - 1959
  61. Superman – 1978
  62. 39 Degraus - 1935
  63. Aliens, O Resgate - 1986
  64. Homens de Preto - 1997
  65. O Balconista - 1994
  66. Harvey - 1950
  67. Marty - 1955
  68. Roy Bean - O Homem da Lei - 1972
  69. A Malvada - 1950
  70. Curtindo a Vida Adoidado - 1986
  71. Meu Ódio Será Sua Herança - 1969
  72. O Jovem Frankenstein - 1974
  73. A Ponte do Rio Kwai - 1957
  74. Os Suspeitos - 1995
  75. Intriga Internacional - 1959
  76. Crepúsculo dos Deuses - 1950
  77. Fuga de Nova York - 1981
  78. O Mágico de Oz - 1939
  79. Casablanca - 1942
  80. O Leão no Inverno - 1968
  81. Prazer sem Limites - 1997
  82. Um Sonho de Liberdade - 1994
  83. Quase Famosos - 2001
  84. O Falcão Maltês - 1941
  85. Um Homem Fora de Série - 1984
  86. Quero Ser John Malkovich - 1999
  87. Os Profissionais - 1966
  88. Lawrence da Arábia ia) - 1962
  89. Os Caça-Fantasmas - 1984
  90. Spinal Tap (- 1984
  91. Cidadão Kane – 1941
  92. 12 Homens e uma Sentençã - 1957
  93. Como Enlouquecer seu Chefe - 1998
  94. O Sol é Para Todos - 1962
  95. Jogos, Trapaças e Dois CAnos Fumegantes - 2003
  96. O Poderoso Chefão - 1972
  97. Fargo - 1996
  98. Los Angeles – Cidade Proibida - 1997
  99. Era uma vez na América - 1984
  100. O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel – 2001
Desvendado por Lívia, Dehynha e Carla.



Não tá abrindo?
http://www.youtube.com/watch?v=FExqG6LdWHU

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Letra e música (ed.14)



Visão da Lívia | Visão da Dehynha



Livia
Antes de começar a falar do filme em si, preciso fazer uma observação: Eu gosto do Hugh Grant. Putz, eu gosto pra caramba do Hugh Grant! E não é porque o cara é lindo e tem sotaque inglês, mas porque ele é capaz de colocar uma peruquinha com topete e mullets ridículos, rebolar de calça branca apertadinha enquanto canta “POP! Goes my heart” e encena um dos clipes MAIS digno dOs Piores Clipes do Mundo que eu já vi. Sem noção, quase deixa o Supla e a “Japa Girl” no chinelo! Quem não viu, precisa. Vou repetir: PRECISA ver! (pausa pra mais gargalhadas e alguns minutos pra me recompor...) Ahan...então.

Interessante notar, já de saída em “Letra e Música”, como o Hugh Grant assumiu definitivamente o papel do cara bonitão em derrocada, intercalado com o do crápula gentil e bonitão. Isso em “Diário de Bridget Jones”, no horroroso “Um grande garoto”, em “Amor à Segunda Vista” e tantos outros. É, acho que agora é montanha abaixo pro Hugh. No entanto este tipo de homem se mostra atraente por mais de uma razão, o que parece não ser opinião isolada, já que o ator anda mais do que nunca prestigiado por Hollywood. E dá pra pensar em duas razões pra isso: 1. o bonitão decadente desperta os famigerados instintos maternais das mulheres; e 2. toda mulher é prepotente o suficiente pra achar que o que falta na vida do cara é ela mesma, e que o fato de amá-lo poderá mudá-lo e melhorá-lo. Tsc. Já reparou que toda comédia romântica tem isso? Arre.

Além do Hugh e da Drew, duas figurinhas com carisma invejável, o elenco do filme sobe ainda mais no meu conceito, porque conta com um ator que adoro – Brad Garret, o gigante de dois metros, voz tonitruante e senso de humor impecável, que faz o papel do empresário. E de repente, aparece uma lourinha bonitinha, sem sal nenhum, falando um monte de besteiras e eu me pergunto: Who hell is this? Toca entrar no google pra procurar...e eis que encontro o nome da dita cuja: Haley Bennet. WHO?

Anyway. A filosofia e a produção da garota de cara insossa são críticas deliciosas à indústria fonográfica e sua mídia alienada e absurda. Dá vontade mesmo de sair tocando fogo em todas as Britney Spears com cabelo e sem cabelo, loiras e morenas, que têm às dúzias por aí. Que nojo. Aliás, fosse eu budista um pouco mais radical, tramava um atentado na festa de lançamento do filme e matava a bonequinha loura pra ensinar a Hollywood que uma coisa daquelas não se faz. O show da lourinha sem expressão no final é um horror sem tamanho. As letras são um acinte e as coreografias deprimiriam a Madonna. Pelamordedeus, pra onde estamos indo?

A dobradinha entre Hugh e Brad é impecável, hilariante. Da mesma forma que a combinação Hugh e Drew, o que me faz pensar que realmente gosto desse roteirista e tenho que lembrar de procurar o nome dele depois. (um adendo: o nome do moço, diretor e roteirista, é Marc Lawrence).

Algo impressivo no filme é a indignidade da coisa toda! Afinal, temos um quarentão, vivendo de passado, se apresentando pra mulherada de meia idade que delira lembrando dos tempos de adolescente. E a dancinha! O que é aquela dancinha do Hugh Grant? De fazer qualquer Dominó, Polegar, Menudo ou similar corar de vergonha! Ele sobe no palco, rebola e ainda manda uma dessas no microfone: “Garotas, digam a verdade. Essa calça está muito apertada?”. Literalmente de cobrir o rosto de constrangimento. Triste.

E quando o casal começa a compor a tal música, finalmente eu vejo do que se trata. Letra e Melodia. Alma e Ritmo. Amor e paixão. Um casamento, uma composição, algo que se entremeia, se completa, se combina. Que faz música, magia, enlevo. O filme então deslancha.

A narração do cara sobre o que houve com a vida dele que o fez chegar naquele ponto deprimente, é assustadora. Afinal, e se acontecer comigo? E se eu for jovem, promissora, talentosa e tomar um golpe tamanho que me faça desistir? Que me faça encontrar um meio de subsistir em vez de realizar alguma coisa? Que me abale a respeito de mim mesma a ponto de duvidar da minha capacidade pras coisas mais elementares? Porra, isso bateu forte.

Por outro lado, a moça é tão sensível, inspirada, divertida e... nada. Escreve uns poemas e uns contos num site que ninguém lê e cria slogans pra empresa de emagrecimento da irmã. E se esconde, pra não realizar nada de verdade. Mais que isso: ficou tão severamente abalada com o fiasco da relação com um escritor calhorda, que tem bloqueio sempre que pega numa caneta pra escrever. Socorro, catarse à vista!

O cara é absolutamente maníaco. Desespera-se com a mudança dos móveis na sala, o que dá uma luz sobre como se transformou numa relíquia vivendo de passado. E ela é absolutamente patética. O modo como se encolhe ante o imbecil que a seduziu e transformou num personagem grotesco é deplorável! Sim, um rompimento é traumatizante – eu sei disso muito bem. Mas tem limite no quanto alguém pode se aviltar em função de outra pessoa.

Mas então me ocorreu algo quando os dois começaram o romance, propriamente dito: é tão raro poder dizer “essa pessoa me faz bem”. Tão raro! E acho que o mais comovente da coisa toda é como um reflete no outro, como a parceria é real, palpável, gostosa. Eles se encorajam, de diferentes maneiras, e fazem com que o outro se sinta melhor consigo mesmo. Fazem música. E isso é algo realmente ímpar. Consegue até mesmo fugir um pouco do lugar comum.

Mas, claro, como em toda comédia romântica, dá tudo errado e eles rompem. A cena dele tentando colocar os móveis de volta no lugar é emblemática. E reatam no final, com direito a música de “perdão, não me abandone”. Conclusão: apesar das ressalvas, um bom filme que oscila intrigantemente entre o clichê brega e o divertido inusitado. Vale a pena.

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Dehynha
“Eis aqui duas almas perdidas que se unem para compor uma canção, e um ajuda o outro a se abrir para o fato de terem alguma coisa a oferecer ao mundo, a eles mesmos, e um ao outro”. Palavras de Drew Barrymore sobre o filme Letra e Música. Faço minhas as suas palavras. Aliás, sou fanzoca da Drew!

“Uma melodia é como ver alguém pela primeira vez. A atração física. Sexo. Mas então, à medida que você vai conhecendo a pessoa, isso é a letra. A história deles. Quem eles são no interior. É a combinação dos dois que torna isso em algo mágico”.

Este é um trecho de um diálogo entre Sophie e Alex. E... Também concordo perfeitamente! Aliás, Marc Lawrence, diretor e roteirista desse filme, já entrou pra minha lista de “roteiristas a considerar” na hora de escolher um filme. Esse trecho que mencionei resume, eu acho, todo o contexto do roteiro. Porque é exatamente assim que a história do casal se desenrola.

Um cantor pop dos anos 80 tentando voltar ao sucesso – fato que se vê no mundo inteiro! Acho piegas esse tema e desnecessário levar às telonas, visto que a imprensa marrom e os programas televisivos maçantes, tipo TV FAMA, nos bombardeiam com gente à procura de sucesso a qualquer preço. Ou seja, de cara, pela sinopse, desconsiderei assistir. Uma pseudo-escritora vai coincidentemente regar plantas na casa do cantor nem tão pop quanto outrora, e acaba escrevendo a letra para a música que vai levá-lo de volta ao sucesso, já que será cantada por uma cantora suuuuuuper pop da atualidade – e voltamos ao lado marrom da busca pelo estrelato. Mais um motivo para eu não ver o filme.

Maaaaaaaaassssss... lutei contra minha primeira impressão e quis olhar os primeiros segundos do filme. Gargalhadas de cair da cadeira, me rendi! O clipe deve ser o primeiro da lista de “os pEores vídeos do mundo!” Hilário! Lawrence, que roteirizou e dirigiu este filme, mostra toda essa busca pela fama, exatamente da forma que encaro. A diva pop que vai levantar a carreira do cantor é uma Britney Spears meio Shakira meio Madonna com um toque de Budismo-erótico-maníaco-rebolante (que Buda perdoe a heresia!). Uma forma cômica de criticar, muito bem explorada por ele!

Voltando a mágica... o casal! A busca pela letra e melodia perfeita para o produto que já tem nome: UM CAMINHO DE VOLTA AO AMOR. Um curto prazo e duas pessoas que nunca se viram têm de juntar talentos para fazer a mágica acontecer. Lawrence soube mostrar toda a energia, amor e dedicação dispensada na composição de uma música. E o entrosamento, o charme, a sedução leve e gostosa do casal Sophie e Alex durante todo o filme nos deixa magicamente leves! A química deles contagia. Com doses de um humor refinado que só o Hugh Grant sabe fazer, e o charme e talento da Drew, Letra e música é o filme perfeito para uma tarde feliz! As músicas em si nem têm tanto valor no filme. A não ser no final, quando a letra de uma das músicas tem mesmo a ver com “a história deles”.

Uma mulher e um homem sem estímulo para continuarem a criar. Sem paixão pela vida. Sem “alguma coisa a oferecer ao mundo”. A canção que os une é uma metáfora da mágica que acontece frente aos nossos olhos. Quem não tem uma trilha sonora de sua vida? Uma música que te faz feliz, ou te lembra algo triste? Alguém já pensou de que forma essa música foi feita? Que história realmente ela conta? Com certeza você tem uma música especial que mudou a sua vida e sua maneira de ver o mundo.

Lawrence nos leva à viagem mágica da combinação de letra e música. Um casal que não sabe nada por si mesmos, mas juntos têm muito a oferecer ao mundo... A mim... E a você!

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Dogville (ed.13)

dogville



Visão da Lívia

Visão da Dehynha



Livia
Você já se perguntou por que Dogville é um filme de três horas que se desenrola num palco preto riscado de giz no chão? Cujo cenário é apenas um banco de madeira, um sino, umas correntes e tem ao fundo a voz monótona de um narrador onisciente? Eu acabei de fazer isso. E a resposta que encontrei é: que jeito melhor de enfatizar o tédio do que este? A falta de sentido da vida vazia daquela dúzia de pessoas reunidas num fim de mundo? Aquele palco preto, a música ambiente e a iluminação dão a sensação nítida de que aquele lugar é tão nada, tão apartado do mundo, que parece uma caixa de papelão ou um buraco. Isolado. Coisa de mito da caverna, sabe? Quando o nosso mundo não tem perspectivas, nem acontecimentos, nem nada que nos estimule ou faça pensar, é muito fácil achar que apenas aquilo ali existe.

Dá pra perceber que o isolamento repercute não só no comportamento da cidade, como em seus sonhos e na visão – distorcida – de si mesmos e dos outros. Uma vida cheia de ilusões inúteis sobre quem realmente se é e o que realmente o move. Tom, por exemplo, que é um notório vagabundo pseudo-intelectualóide, se tem em tão alta conta que se julga um escritor e um filósofo, prestes a escrever algo que revolucionará o pensamento da humanidade. Como se o cérebro tacanho permitisse mesmo que quebrasse a modorra e elaborasse algo sequer original, quiçá revolucionário.

E isso eu pensei nos primeiro onze minutos de filme. No décimo segundo surge a dona de uma das peles mais fantásticas do mundo, sedutora e maravilhosa até em propaganda de perfume. O que não justifica que tenham lhe dado um Oscar pelo tenebroso “As Horas”, mas o que se vai fazer, né? Depois que a Julia Roberts ganhou o dela com aquela Erin Brockovich (sem comentários), como reclamar que a Nicole Kidman tenha ganhado um porque deformou o nariz perfeito dela pra fazer a Virgínia Wolf? Bah. Isso agora já virou festa.

Mas voltando. Ela, Grace, vem caminhando pela rua escura e encontra Tom. Eu não sei você, mas um dos meus maiores medos no mundo todo é me achar à mercê – seja pelo motivo que for – de um tipo obtuso, recalcado e insidioso que nem aquele. Ao observador desavisado, o rapaz nutre intenções românticas em relação à moça. Mas é mais provável que ele tenha calculado imediatamente o quanto seria vantajoso ter alguém tão linda e vulnerável sob sua guarda. E o que acontece é ainda pior. Não bastasse Tom, ela ainda precisa contar com a boa vontade de toda a Dogville. Gente boa, desde que não seja contrariada. Ou gente horrorosa, bastando que tenham a oportunidade de se mostrar assim.

Existe coisa pior que gente que se julga muito boa, conscienciosa, diligente? A cidade é uma súcia, apresentada justamente assim a Grace pelo afetado e arrogante Tom. E é ainda melhor qualificada pelo morador mais intragável, ao avisar a moça que a cidade apodreceu de dentro pra fora. “As pessoas são gananciosas como animais. Dê-lhes de comer e comerão até explodir”. Mal sabe ela que nada é mais acertado.

Grace é aceita na cidade sob a condição de prestar trabalhos aos moradores, o que faz de boa vontade. Quando a polícia aparece procurando-a pela primeira vez, ela ainda é o bibelô de pele alva, olhos claros e voz doce, que todos estimam e lutam pra preservar. Afinal ela é tão linda, suave, agradável. Nada vê de ruim neles, é tão receptiva, alegre, e se doa inteiramente. O clima da cidade se torna tão leve que até parece um daqueles filmes em que a mocinha chega na cidade pequena, revoluciona a vida de todos e vivem todos felizes para sempre. Mas esta é Dogville.

Mas a polícia insiste e o clima feliz se transforma em opressão e tirania. Os cães enfiam as garras na moça desprotegida. Ela começa a ser esmagada, sofrendo ameaças veladas. Ou os deixa felizes, ou eles a entregam.

(Aqui se nota a corroboração da minha teoria: filme em cidade pequena, lá está a Nicole Kidman colhendo maçãs. As famigeradas).

É então que entra o sexo. Que, aliás, demora até demais pra despontar. Você olha pra Nicole Kidman e pensa em que? A atriz de Malícia, Moulin Rouge, De Olhos Bem Fechados... Sexo. Ela passa a ser chantageada abertamente. E é estuprada. É bizarra a cena do homem montando nela no chão, enquanto os outros em volta nada vêm porque faz de conta que tem uma parede ali no meio. Uma bunda branca de homem se contraindo ao lado de crianças brincando e senhoras conversando. Surreal.

Eles sucedem-se no abuso. A cidade se torna uma estranha prisão. Ninguém a quer por ali, mas não a deixarão partir tão facilmente. Tanto, que ela tenta fugir escondida no caminhão de maçãs, o que lhe rende mais abuso sexual, acusação de roubo e a fúria da matilha. A situação dela se deteriora absurdamente: é acorrentada, carrega um sino no pescoço, faz trabalho escravo e se torna a vaca de que todo e qualquer caipira pode se servir normalmente.

Afinal, por que Grace passa por tudo isso? Burrice, estoicismo, medo? Mas a explicação dada pelo pai da moça, o chefe dos gângsteres, afinal, é maravilhosa: arrogância. Ela não julga que as pessoas possam ter seus elevados padrões morais e por isso não espera nada delas. Mais que isso, ela as perdoa. Diz o pai: “Você não julga ninguém porque tem pena deles”. E ela responde: “Cães só obedecem à própria natureza, então por que não merecem perdão?”. Ao que ele retruca, grandioso: “Podemos ensinar muitas coisas úteis aos cães, mas não se os perdoarmos sempre que obedecem à sua natureza”.

E, na verdade, tudo se resume nisso: até que ponto de pode perdoar atrocidades porque fraquezas são inerentes do seres humanos? Um filme FODA. Vale a pena demais.

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Dehynha
Como você reagiria, leitor, se as casas de sua rua, inclusive a sua casa, não tivessem paredes? Se você pudesse observar todos em sua privacidade? Julgaria seus atos? E você, sabendo ser observado, mudaria suas atitudes?

O mais interessante de Dogville é a multiplicidade de leituras que se permite. Há o aspecto religioso – o único cão se chama Moisés, que só aparece no fim do filme e é perdoado. Grace, a mocinha – chega na cidade como uma graça recebida e muda a vida pacata dos moradores. Misericordiosamente os perdoa por todas as atrocidades cometidas contra ela... até o juízo final, claro! As maçãs, sempre mencionadas e fazendo parte de um cenário sem produção - o pecado, claro, também sendo relacionado pelos 7 bonecos que a Grace tanto se sacrificou pra comprar! Os sete pecados... Todos cometidos claramente no filme. Dog – God?

Há o aspecto político. Provavelmente o intuito do diretor. Uma cidade sem leis, no fim de uma estrada, com o nome de cão, mas este nem é mencionado no filme. Uma igreja sem padre, onde todos obedecem ao tocar do sino a lhes dizer hora disso ou daquilo. Um filósofo, com nome de Thomas Edson – uma luz? - que manipula a todos, usando-os para seus estudos inúteis. A família estelionatária que compra copos baratos para poli-los e revenderem como copos caros e finos. O homem cego, que acha que engana a todos fingindo enxergar. A dona da única loja da pobre e miserável cidade vende seus produtos a preços altíssimos. Vários estupros no filme figuram que politicamente somos todos violentados pelo sistema, que nos impõe o que devemos fazer e de que forma deve ser feito... Resumindo, vivemos na base de trocas, que nunca são justas...

Vivemos numa sociedade onde reina um cristianismo hipócrita. Pessoas escravizando seus semelhantes, matando em nome de Deus, exigindo favores em troca de perdão, enganando, traindo, manipulando...

Quem é você pra ter o poder de julgar? Que arrogância é essa de achar que pode punir alguém por achar que ele merece? Quem é você pra saber distinguir o que é certo ou errado? Em mesma situação você não faria as mesmas coisas? Perdoaria-se? Também usa máscaras pra esconder seus erros? Até mesmo tendo compaixão você está sendo arrogante, pois se considera maior e melhor que o outro. Temas explorados claramente durante todo o filme.

O mais duro do filme pra mim foi não ter tido pena das pessoas que foram assassinadas. Desejei vingança o filme inteiro! Principalmente do Thomas, pois agiu o tempo todo dizendo ajudar, quando na verdade manipulou todos em prol de suas idéias. Ele pensou sair ileso, mas a justiça foi feita pelas mãos da própria injustiçada. Não senti pena nem das crianças. Elas representavam o futuro de uma geração podre, hipócrita, e claro, futuramente, vingativa.

Já ouvi diversas vezes: “Quanto mais conheço os homens, mais adoro o meu cachorro”.“O cão é o melhor e mais fiel amigo do homem”. “Você pode deixar o seu cão sozinho por dias! E mesmo assim, serás recebido com festa pelo seu cachorro”.“Todos os cães merecem o céu”.

“Os cães obedecem à sua própria natureza. Então, devemos perdoá-los” – diz Grace ao seu pai. E completa: “Deixe Moisés, o cão, vivo. Ele só está bravo comigo porque roubei seu osso”.

E o filme termina com o expectador chocado com a humanidade. Ficamos sem esperança. A civilização é a maçã podre da humanidade. Deveríamos ser selvagens. Agir por instinto. Ser humilde e bom demais nos torna arrogantes. Mas não devemos deixar de sê-lo. Várias dúvidas sobre nossa natureza... de ser, de agir...

No fim o expectador deseja ser um cão.

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Sob o sol da Toscana (ed.12)

sob o sol da toscana



Visão da Lívia

Visão da Dehynha



Livia
Devo dizer que o primeiro sentimento que experimentei aoapertar stop depois de assistir a Sob o Sol da Toscana, foi de decepção. Não que eu esperasse algo do filme, longe disso. É que o começo da história foi absolutamente catártico pra mim. Afinal, temos uma mulher bonita, escritora e crítica literária, casada com um cara infiel que não gosta dela e que, quando é descoberto, pede o divórcio e fica com a casa valiosa do casal pra morar lá com a amante que está grávida. Genial, né? O tipo de coisa que dá vontade de fritar testículos em óleo quente.

Você provavelmente se perguntará: o que essa história tem a ver comigo? Eu nunca sequer fui casada! Sim, é verdade. Mas a identificação não é com os detalhes da história, é com o ultraje, com a mágoa, o abandono, a decepção. É o pensamento: “não dá pra confiar mesmo em ninguém”. É pensar que nunca mais nenhum plano compartilhado ou jura de amor ouvida poderá soar verdadeira. Não depois de tudo o que aconteceu. Ou do que não aconteceu.

Bem, adiante. A mulher, depois do chute, morta por dentro, vai parar numa excursão de gays na Toscana, Itália. O filme tem locações absolutamente lindas. E lá no meio daquele sol e daquele verde absurdos, bate o olho numa casa antiga afogada em vegetação e resolve comprar. Ah, o isolamento! Tão necessário, ainda mais quando o resto do mundo está revoltantemente feliz, como quase sempre acontece quando estamos na merda. No caso dela é ainda mais ultrajante a felicidade alheia, porque a melhor amiga – lésbica – e a companheira estão esperando um bebê e espargindo risos e suspiros pra todo o lado.

Aliás, aqui cabe um parêntese. Se a melhor amiga não fosse a Sandra Oh, eu sentaria a lenha nela, mas convenhamos, né? Como é que dá pra sentar a lenha na Sandra Oh? Ta certo, mesmo fazendo papel de desprotegida ela ta longe de chegar aos pés da Diane Lane em termos de “adorabilidade”. Mas a mulher é boa atriz demais! Do tipo que te convence de qualquer coisa que ela queira, sabe? Quem já a viu não só em Sob o Sol da Toscana, mas também em Sideways, Guinevere, O Violino Vermelho, Amor Maior que a Vida, O Diário da Princesa, Menina má.com e, atualmente, em Grey’s Anatomy, sabe do que eu estou falando. Não é à toa que ganhou um Cannes FIPA d'Or, dois Genies de Melhor Atriz (o equivalente ao Oscar no Canadá), um Cable Ace e o Globo de Ouro como Melhor Atriz Coadjuvante em TV ou Minissérie em 2006. A mulher é foda. Vou até procurar uma comunidade no orkut sobre ela pra eu entrar.

Bom, voltemos ao filme. A linda e alquebrada Diane Lane se refugia na Toscana e se lança à reforma da casa antiga e gigantesca pra uma mulher sozinha. Solidão que é acentuada pelas condições climáticas do lugar: é recebida por ventos furiosos e tempestades homéricas, logo depois da mudança, como se a estivessem desafiando a manter a decisão de continuar no meio do nada. Mas ela insiste, assim mesmo. Acho que menos por coragem de enfrentar a situação desconhecida e adversa, do que por medo de voltar. Afinal, voltar pra onde, pra que? Não, é melhor ficar na Toscana mesmo.

Decidido isso, ela passa a explorar os lugares e as pessoas do lugar. Conhece o corretor de imóveis que intermediou a compra – um gentleman, nem é bonito, mas a delicadeza do homem é literalmente de babar, a família de um vizinho que a insere na colheita de maçãs e uma atriz decadente – embora ainda linda – que vive falando que Felini disse isso e aquilo.

Permitam-me uma observação: já repararam que em tudo que é filme passado em ambiente bucólico as pessoas acabam colhendo alguma coisa? Uvas e maçãs são as frutas mais recorrentes, mas se pararmos pra observar, até mandioca e chuchu (na cerca) deve ter! Duvida? Pensa só. Além da Diane Lane colhendo maçãs sob o sol da Toscana, temos a Diane Keaton em Presente de Grego, o Tobey McGuire em Regras da Vida, a Nicole Kidman em Dogville e, pra variar um pouco, o Paul Giamatti às voltas com uvas em Sideways. E esses são apenas os que me ocorrem agora.

Anyway. Já repararam como os homens italianos são todos lindos? Não sei se os reais são, o fato é que pelo menos os atores são, maravilhosos. E a Francesca – personagem da Diane Lane – não deixa de conhecer a sua cota deles. E quando está às voltas com um dos homens mais afrontosamente sensuais e bonitos que eu já vi, eis que a amiga lésbica grávida – Sandra Oh, salve, salve! – cai de pára quedas na Toscana, dessa vez chorosa, por sua vez abandonada pela amante. E isso acaba com as chances do romance da coitada da Francesca, porque um moço de outro mundo daqueles não ia esperar por ela, né? Não, não ia. E depois de cuidar uns dias da amiga, ela vai à procura dele toda produzida e cheia de amor pra dar, mas encontra o cara na cama com uma outra mulher mais nova e mais bronzeada que ela. Ah, a vida é de uma constância encantadora, não?

Depois do golpe, ela pega a si mesma e guarda na gaveta. E dedica-se em tempo integral a cuidar da amiga grávida e posteriormente do bebê que nasce, a cozinhar pro batalhão de pedreiros poloneses que estão trabalhando na reforma da casa e até mesmo a servir de alcoviteira e defensora do amor de um jovem casalzinho, cujo pai da moça desaprova. Agora fala sério: você teria todo esse altruísmo depois de ser traída pelo marido e ser chutada pelo amante italiano lindão? Duvido! Pode parar de mentir.

Por fim, num daqueles grandes clichês: “o amor é que nem borboleta, que vem sentar no nosso colo quando não corremos atrás dele”, o filme acaba em final feliz. Durante a festa de casamento do casalzinho, Francesca é abordada pelo bonitinho David Sutcliffe, um jornalista que está à procura dela para entrevista-la, colocado ali pra evidentemente tampar o buracão deixado no final.

Mas o que me deu mais vontade de quebrar a tela foi o seguinte: na sala da casa da Francesca tem uma torneira velha e seca presa bem alto na parede, da onde não saía nada. Parecia um inusitado detalhe de decoração. Durante o período em que ela se dedica a cuidar da vida alheia, a torneira começa a pingar, milagrosamente se desentupindo. E, por fim, no dia do final feliz, ela jorra água suficiente pra sair nadando toda a turma de Procurando Nemo de dentro dela. Ou seja, pra encerrar: se você procura um filme coerente, sem traços de auto-ajuda e com boas metáforas, não veja Sob o Sol da Toscana.

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Dehynha
Quando eu me mudei para um apartamento de frente pro mar, coloquei 2 bebedouros para beija-flores na varanda. Disseram-me que por ali não viriam beija-flores... nunca os viram. E respondi que provavelmente não vieram porque não havia nada à espera deles.

Quando eu me mudei para um apartamento de frente pro mar, coloquei 2 bebedouros para beija-flores na varanda. Disseram-me que por ali não viriam beija-flores... nunca os viram. E respondi que provavelmente não vieram porque não havia nada à espera deles.

Três dias... três dias e veio um... pequeno, brilhante e feliz. Perdido? Não sei. Mas trouxe amigos, pois viu que o “rango” era de primeira e bem farto. Logo vieram também as “chiquititas”, aqueles passarinhos pequenos de peito amarelo e que amam bebedouros com água doce. À noite me visitava o Mog, um morceguinho lindo, parecendo coberto de veludo negro... intrometido, invadia sala, quarto... não se contentava apenas com a varanda.

Quantas vezes você (é... você!) deixou um prato a mais na mesa para uma visita que nem marcou horário? Se arrumou todo(a) e foi passear pensando alguém especial encontrar? Ok... aposto que já comprou uma bicicleta ou esteira eletrônica pensando se exercitar todos os dias. E não cumpriu a promessa!

Hoje me peguei pensando em tudo que planejei, mas não aconteceu. E tudo que fiz apenas por prazer e fui agraciada pelo destino. O sol não entraria no meu lar se eu não deixasse as janelas abertas. E quantas vezes não as fechei achando que ia ventar, chover, e não aconteceu... Quantos guarda-chuvas perdi por levá-los esperando uma tempestade... e larguei-os em algum lugar por falta de uso.

Desejei tantas coisas que achei que me fariam feliz. Imagine! Achar que algo que nem tenho, possa me fazer feliz! Quando pequena me imaginava executiva de uma grande empresa... morando sozinha com meu gato (de 4 patas... peludo...). E pensava nessa felicidade suprema de ser emancipada, dona do meu nariz, com liberdade de ir pra qualquer lugar sem ter que pedir permissão ou ter de avisar a alguém. Papai do céu quis me fazer mãe aos 18 anos. E eu aposto minha vida inteira que carreira, gato, apartamento, liberdade, emancipação nenhuma me faria mais feliz do que olhar pela primeira vez aqueles pequenos e indefesos olhos azuis. E lembrar disso, com certeza me emociona mais do que qualquer possível lembrança de entrar num apartamento vazio, cansada de um dia inteiro de reuniões.

Estou escrevendo isso porque nesse mundão tem tanta gente triste porque não conseguiu o que queria. Outros que choram porque perderam o que achavam de mais importante. E tem aqueles que têm saudade de coisas que não viveram... e sofrem por isso.

Não, não-não! Não é um texto de auto-ajuda! Ahahahahah É só porque ao ver o filme SOB O SOL DA TOSCANA, quis escrever sobre o que senti. Talvez seja uma pré-TPM emotiva! Rs Ou talvez porque alguém leia isso e se identifique, sei lá...

Eu vou deixar esse texto sem final. Vou dar uma de diretor de cinema chic, sabe? Tipo o Fyncher... deixar vc leitor, pensar!

Enquanto vc pensa, eu vou pendurar uns bebedouros na minha nova varanda. É porque nunca vi um beija-flor por aqui. E estou com saudade deles....

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