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Quem seria o melhor amante? (ed.22)
Há no mundo algumas questões que não podem deixar de serem revistas sob a pena de nos causarem desconforto no leito de morte. No meu caso, tenho duas.
Primeira: Por que a água quente endurece o ovo e amolece a cenoura?
Segunda: Quem seria o melhor amante: um ator p o r n ô, um dono de s e x shop, um s e x ó l o g o ou Renato Cabral? Sei que a resposta é óbvia, mas o curioso da pergunta não é quem, mas por quê? Essa é, aliás, a grande questão que me acompanha desde a mocidade.
Pensemos um pouco nas virtudes e defeitos de meus concorrentes. Antes, deixo claros os critérios. Para evitarmos comparações que se referem a tamanho, usarei apenas metade de meu pênis, ou seja, trabalharei com uma ereção de meia-parcela, para que a isonomia esteja presente durante nossa argumentação.
Ator p o r n ô: todo homem, mesmo os seguros, tem uma postura mecânica que adota vez ou outra para não perder a ereção. Como o ator p o r n ô está sob constante pressão, ele é o que mais usa desse artifício, tornando-se, com o passar dos anos, mecânico e extremamente concentrado em seu próprio pênis. Mesmo as centenas de mulheres que foram comidas por ele não são capazes de lhe trazer paz e flexibilidade na hora do coito. Enfim, ele está se fudendo (henrra!) se a mulher está gozando ou não. O prazer não importa, nem o dele, o importante é não perder a ereção e fazer carinha “de quem ta gostando demais”.
Dono de s e x shop: adora p o r n o g r a f i a; bom de papo; desbocado (fala bobagens aos trovões, o que pode agradar muita gaja); pervertido; mas, de fato, nunca comeu ninguém. Claro, o dono de s e x shop é no fundo um administrador de empresa, um empresário, e empresários, como todos sabemos, estão mais interessados em vendas do que em s e x o.
S e x ó l o g o: atraente (veado); elegante (veado); inteligente (veado); charmoso (veado) educado (veado); usa cinto que combina com o sapato (veado); etc (veado).
Renato Cabral: estudou no Bueno Brandão.
Não entendeu? Entendo. Sentem aí porque a explicação é longa.
Bueno Brandão é um colégio estadual de periferia, mas que fica no centro, e onde passei minha puberdade. Por lá, apenas bebedouros sem filtros, chute-porrada no recreio, professoras de Português que dão aulas de Matemática e meninas vindas de bairros distantes, dispostas a tudo por um pouco mais do que apenas um pão com molho na hora da merenda. Aprendi logo as possibilidades desse mundo cru e cruel. Dividia meu tempo em tirar as boas notas que me levariam a escrever pra Cult e fazer fama fácil; mostrar masculinidade chutando a bunda de alguns frangalhos na quadra; e aprendendo lições dentro do banheiro de azulejos laranjas, onde meninas aflitas me tinham como objeto de estudos das aulas de ciências.
- Tá, mas, Cabral, ainda não entendi por que isso te faz um grande fodão?
Bem, nem eu, leitor, nem eu. Definitivamente a natureza tem um modo estranho e emblemático de fazer seus escolhidos. E a questão da fenomenologia, nos traz uma ruptura epistemológica que a longo prazo pode rooonnncccccc......
Escrito pelo endividado Renato Cabral. Aliás, qual o problema de fazer um texto com um péssimo final, hein? Cai dentro! oruminante@gmail.com
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Ah se elas fossem mudas.
Ah se eles fossem um Prada. (ed.21)
Ela, por ele:
- Você não vai acreditar nisso! A Mariazinha me ligou perguntando se o esmalte rosa combinaria com aquele vestido lilás dela, horroroso por sinal!
Eu não acreditava naquilo. Estava lá há o quê, duas horas, e nada de levantar logo daquela maldita mesa. A música ao vivo do bar me dava azia. O público do lugar merecia uma bomba de sabe-se lá quantos quilotons em suas vazias cabeças. Eu se pudesse, sacava uma 45 e acabava de vez com aquele sofrimento. Acabaria ganhando o Prêmio Nobel do Martírio, se tal existisse.
- Aham…
- Pois é. Pode uma coisa dessas?
- Não, não pode…
Não sei porque respondi aquilo. Aliás, eu não escutava nada além de blábláblá. Estava focado no par de coxas, usando da tática de fugir mentalmente para o mais longe possível, o mais rápido que qualquer coisa pode se mover.
- Sabia que você concordaria! E o pior não é isso, ela está pensando em usar aquele salto agulha cafona que ela comprou em uma ponta de estoque! Não posso deixar ela fazer isso, ela é minha amiga!
Ah, claro, muy amiga! E que diabos é um salto agulha? Meu Deus, isso não acaba nunca! Devia já chegar aqui despido, só com a minha meia preta no pé esquerdo. Se o tal do salto agulha (se veste com calça de linha para combinar?) já causou essa celeuma, uma meia preta causaria a Terceira Guerra Mundial. Por que temos de ser sociáveis? Por que?! Eu devia ter sido claro, "olha, eu só tô a fim de dar uma contigo, nada mais", mas não, eu sou o psicólogo das vazias, o maldito terapeuta das fãs de roupas roxas (fúcsias, desgraçado, fúcsias!), Mariah Carey e toda essa sorte de desgraças.
- E uma pessoa tão sem cultura, ela, tadinha. Acredita que nunca leu Paulo Coelho na vida?
Então eu levantei e fui embora.
Ele, por ela:
Meu Deus, ele é uma das coisas mais hediondas que eu já vi na vida. Não, espera, ele é a coisa mais hedionda que eu já vi na vida. Acho que eu já o vi em algum lugar. Já sei, no quinto círculo de Dante, se a memória não falha, ou em uma arara da C&A, sei lá. Bom, hora de enxotá-lo daqui:
- Você não vai acreditar nisso! A Mariazinha me ligou perguntando se o esmalte rosa dela combinaria com aquele vestido lilás dela, horroroso!
Funcionou, ele se contorceu! Tomara que ele seja um daqueles machões estilo mecânico da Dutra. Só faltava essa, além de feio igual o capeta, ele vai e gosta de moda. Se ele insistir no assunto, eu pego minhas coisas, levanto e sento no colo do primeiro homem que eu ver sozinho nesse bar. Vim atrás de macho, não de um cabeleireiro. Aliás, quem escolheu uma desgraça dessas? Isso não é um bar, isso é como um torneio de gamão na Associação Brasileira de Portadores de Alzheimer.
- Pois é. Pode uma coisa dessas?
- Não, não pode…
- Sabia que você concordaria! E o pior não é isso, ela está pensando em usar aquele salto agulha cafona que ela comprou em uma ponta de estoque! Não posso deixar ela fazer isso, ela é minha amiga!
Pronto, o tiro de misericórdia. Ele começa a sofrer espasmos. Aposto que se tivesse uma 45 agora, ele enfiaria o cano na boca e não pensaria duas vezes. Dá até vontade de dizer que o vermelho do sangue combinaria com a camisa dele, mas guarda esse humor negro delicioso senão ele gama e serão noites com isso. É, isso.
- E uma pessoa tão sem cultura, ela, tadinha. Acredita que nunca leu Paulo Coelho na vida?
Pronto, acabou. Ele levantou e foi embora. Meu Deus, que cara feio. Pior que isso só aquele maldito salto agulha. Puta merda.
Júlio César Soares
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Conheça o Efeito Colgate, minha querida (ed.20)
Para um homem, não há nada mais grave e trágico que... Bem, primeiro prometa que vai ler o texto com os olhos da ciência. É importante porque você pode até achar graça, mas a proposta é séria. Se pelo menos tivesse um lado fácil de entrar no assunto. A coisa toda é tão desastrosa, que a última vez que toquei no tema, estava nu, com algo adormecido nas mãos e com um estranho sorriso amarelo de: “sabe como é...”. Tudo bem, chega de embromação. Vim falar sobre quando os homens broxam. Calma, minha amiga, não passe a revista ainda pro seu companheiro. Primeiro é contigo.
Saiba: broxar é um ato restrito ao ambiente humano, que se diga logo. Só ocorre – fisicamente – com o homem e – metaforicamente – com a mulher. E mulheres bonitas; as feias não têm esse direito. E um dia a hora chega. E quando vem dói. Dói muito.
Pronto. Passe a revista pra ele agora.
O que poucos entendem: existem situações em que ainda sim é possível salvar uma transa fadada ao fracasso da vergonha e do infortúnio público de ter sua história contada em toda a faculdade e adjacências. Você, meu amigo, por inocência, acaba classificando qualquer circunstância hostil como “uma broxada”. Não é bem assim.
Apenas os fracos e os que ainda não aceitaram o verdadeiro Jesus em seus corações se entregam à derrota. Permitir ser vencido por um pinto mole e emburrado antes que a parceria esteja satisfeita é prova de má-fé e falta de caridade. Não deixemos que um pênis metido a besta e cheio de excentricidades ponha à prova a autenticidade de nossos colhões (por alguma estranha convenção esta palavra significa saco). A situação, não nego, é difícil e exige rapidez de raciocínio para uma saída pertinaz. E aí está a diferença entre o bom amante e o frangote.
Por incrível que parece, a “meia-bomba” é a solução. Aliás, não precisa nem ser meia, já lhe digo orgulhoso. Um terço basta; o suficiente para dar consistência à glande. E tente não pensar em coisas negativas: que monte de celulite, por Deus!; ela vai contar pra todo mundo; hum, como este pêlo foi nascer aqui?; será que ela achou a minha depilação do escroto legal?... Pare! Escute, filho. Concentração.
Chegou o momento. É hora do Efeito Colgate (patente minha). Funciona assim, anote. Imagine que seu pênis, ou o que deveria ser, é uma pasta dental quase vazia. O conteúdo do creme é o pouco e valente sangue que conseguiu entrar nos corpos cavernosos. Agora, faça uma argola com os dedos polegar e indicador bem na base do pequenino e empurre vigorosamente o sangue para a ponta, igual você já faz para aproveitar a pasta dental, seu pão-duro – ops, foi mal.
Pronto. Você já tem pelo menos uma cabeça ereta. Agora vem a parte difícil: introduzir o material. Com calma e jeito – se é que isso é possível – ponha essa verruga pra dentro. Ela vai estranhar, mas não se intimide com sua cara de desaprovação, você está indo bem. Ajude com os dedos a empurrar o resto das pelancas do moribundo pro interior. Bom. Não a olhe nos olhos, pode estragar tudo. Mulheres jamais entenderão o quanto isso é importante pra nós.
Agora com "tudo" lá dentro, comece a bombar. Espere! Bombar significa mexer os quadris num movimento sexy e ritmado de sobe-e-desce (não de vai-e-vem, senão sai e não entra mais), uma espécie de esfrega-esfrega. O segredo agora não é mais o pênis (que se tornou apenas um artífice retórico-cultural para fins de engodo), mas a barriga. E aí, os afortunados, e barrigudos, beberrões estão na frente. Com seu novo órgão sexual esfregando e espremendo o clitóris, ela chegará ao orgasmo aos berros – a falta de oxigênio também ajuda muito – e você terá ganhado o dia. Bem, pelo menos não terá perdido.
Para os mais experientes, há alguns detalhes que enriquecem a trama. Quando a parceira estiver chegando lá, grite junto e comece a tremer. Simule um orgasmo simultâneo, coisa de gente chique, o que o deixará com a fama de bom amante perpetuada. É isso: o verdadeiro sucesso sexual não se restringe a ter um artefato duro e viril, mas saber satisfazer uma mulher mesmo com uma muxiba entre as pernas. Perder a ereção, tudo bem; a dignidade, jamais!
Escrito pelo abominável Renato Cabral, que não quer mais falar sobre o assunto. Mas, se você quer, então digite: oruminante@gmail.com
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Coisas que as mulheres andam dizendo depois do “pega-pra-capá” (ed.19)
O assunto de hoje não é fácil e, de fato, é dedicado aos homens que (eu sei que fazem isso e não adianta negar) acessar o Livinrooom ora ou outra para descobrir mais sobre o universo feminino.
A mulherada não anda certa, isso é certo. Mas elas chegaram a um ponto que está difícil permanecer na cama após aquele amorzinho sem vergonha. Difícil e perigoso. Elas deram pra falar coisas estranhas pra “ele”, a olhá-lo de um jeito esquisito, enquanto mexem com o maxilar de forma ameaçadora.
Tenho minha teoria a respeito. É o nosso bom desempenho que vem causando esse fenômeno. Ok, falo por mim; você não deve estar com essa bola toda. E se você nunca passou por isso é porque sua namorada deve estar bastante infeliz. Mas, quer saber, você é um cara de sorte, pode apostar.
Depois de fazê-las alcançar o prometido orgasmo (clitoriano, vaginal, simultâneo e um plus/bônus de algumas seqüências de um múltiplo), elas são arrebatadas por um estranho sentimento de amor pelo mundo e, infelizmente, esse mundo se resume ao nosso pinto.
Você está lá, jogadão, começando a entrar naquele limiar que separa o mundo real do onírico e elas começam:
- Ai ai ai ai, que coisinha mais murchinha da mamãe! Eu vou pegar, eu vou pegar...
Você finge que não escutou e tenta um bocejo.
- Tadinho! Por que ele tá tão tristinho? Hum, já sei, ele quer mais beijinhos, né?
Você parte para a cara de dor e desânimo.
- Ai, tadinho, a mamãe machucou o periquitinho dela, ãh? Coitadinho, o passarinho bonitinho não vai mais voar, não? Que tal então ficar aqui dentro da gaiolinha quentinha da mamãe? Hum, que gostosinho, tão quentinha, tão apertadinha, tão aconchegante...
Você acha que é o fim? Pode ficar pior.
E quando a voz dela ganha um tom obscuro, de desespero até, fica grossa e suplicante e, então, ela começa a balançá-lo de um lado pro outro, chocoalhando o coitado já sem vida como um moribundo e gritando:
- Viva! Ressuscite! Eu ordeno!
Pra não piorar as coisas você sorri, meio sem graça, querendo não contrariar. O melhor é ser submisso, pedir forças pra nosso senhor Jesus Cristo e tentar mais uma pra ver se desse modo elas se acalmem. É o que eu sempre digo, amigos. Cuidado ao dar prazer a suas namoradas de acordo com o que a legislação exige. Isso traz mais problemas do que benefícios. Lembrem-se, parcimônia nunca é demais. É por isso que eu ando mancando, mas deixa pra lá, ninguém acreditaria na minha história...
Escrito pelo dolorido Renato Cabral.
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Horizonte roubado (ed.18)
Dez da noite. “Moçomedáumtroco?” “Vai trabalhar, vagabundo!” “Moçamedáumtrocopelamordideus?” “Tenho não, menino! Me deixa” “Mossumtroquinhosópreucompráumpão?” “Tenho aqui, menino, toma esse vale-bóia!” “Brigadumossu!” “Nada. Toma juízo e não cheira cola”.
Compra um pão na graxa, coca-cola. Sobra um troco. Compra bala. Na padaria fazem uma quentinha com o frango que tava sobrando no forno e com um pouco de farofa. Vai até a calçada, perto da igreja e escuta uma música que sai, quase calada, de um apartamento do segundo andar do prédio.
“Oh, pedaço de mim/Oh, metade arrancada de mim/Leva o vulto teu/Que a saudade é o revés de um parto/A saudade é arrumar o quarto/Do filho que já morreu”
Sem entender bem, o menino se encosta na parede, não briga mais pela comida que os outros moradores de rua teimam em comer. Passa por ele o carinha que lhe deu o tíquete para comer. Ele passa olhando o chão, desviando do olhar daquele menino magro que não reconhecia mais. O menino não mais tinha fome de bala, pão e cola, mas tinha um vazio dentro de si que não cabia mais em alma alguma.
Entra na portaria com pressa, preocupado com a segurança, cumprimenta automaticamente o porteiro que mal o nota, chama o elevador, aperta o quarto andar, depara-se frente ao 403. Respira fundo. Abre a porta. A casa, vazia, cheirava a ar fechado. Fazia um ano desde que os planos ficaram sem pé nem cabeça, que o sentido das coisas perdera-se num arroubo, num desejo desenfreado. Num querer mais que um poder fazer. Olhou para tudo aquilo que planejara para dois e olhava para si só no espelho do corredor.
Abriu as janelas, e escutou a música que vinha do vizinho de baixo. Chorou baixinho, humilhado pela vida que o atropelara.
Levantou-se, verificou se o gás estava ainda desligado, se o telefone, a luz não. Abriu o chuveiro, tomou banho frio após da água turva de cano parado cair por dois minutos. “Que filho da puta tá ouvindo Chico a essa hora?” pensou um tanto quanto alto. Mas não tinha importância.
A cama estava lá, os lençóis, os travesseiros. Empoeirados, mas arrumados. “Ela vem aqui uma ou duas vezes por mês” falou para si. Sentou à beira da cama, levou as mãos à face e anoiteceu. Antes, porém, ligou para ela do seu celular e desligou antes que ouvisse a sua voz.
“Idiota! Ele não sabe que existe bina?” falou para o atual namorado. Era o oitavo desde que saíra do apartamento. “Esse babaca ainda te procura? Já disse que eu cuido disso para você! Eu dou uma coça nele que nunca mais ele vai pensar no teu nome!” “Não precisa.” “Precisa sim.” “Deixa. É passado para mim. Ele que quer que vire presente de novo.” “Não te entendo.” “Nem precisa. Deixa.” “Tá bem. Vamos na Bunker hoje?” “Não. Tem hip-hop hoje e tô fora dessa.” “Ok. Pra onde então?” “Sua casa.” “Ok.”
“Esse não dura nem mais uma hora! Cara chato!” Pensou calada e subiram devagar a República do Peru no Omega Preto com vidro fumê e neon nos faróis. “Odisséia? Que tal?” “Olha, se você não me quer hoje, ok, pode falar!” “Que isso, amor, e eu sou de negar fogo?” “Não tô falando disso.” “Tá falando do quê?” “Nada, deixa.” “Se você não falar, não vou saber o que fazer, né? Não tenho como adivinhar.” “Não é você, sou eu. É comigo.” “Ok. Quer que eu te deixe em casa?” “Não. Me deixa aqui na esquina com a Barata Ribeiro.” “Uai. Você não mora no Leme?” “Me deixa aqui, Anda!” “Tá bom. Se cuida. Juízo!” “Tchau! Te ligo, tá? Não me liga!” “Ok. Você é quem sabe.”
Ela saiu andando em direção ao prédio quando o menino virou-se para ela. “Moçaquimúsicaéessaaíassim?” “Música? Acho que é o Chico. Chico Buarque.” “bunitaamúsicanuncaouvisabia?” Ela sorriu e caçou um dinheiro na bolsa. Quando viu, ele tinha partido.
Abriu a porta da portaria, cumprimentou o porteiro que acenou enquanto resmungava alguma coisa e cruzou com o casal do 201. Apaixonados, via-se de longe. Não desgrudavam um segundo e faziam cena o tempo inteiro. Uma vez, surpreendeu os dois no elevador num amasso só. Vira e mexe, tinham marcas nos pescoços, braços e sabe-se-lá-mais-onde. Isso ela, que só ia no apartamento duas ou três vezes ao mês.
Saltou no quarto andar. Andou até o 403. Viu a luz por debaixo da porta. Tremeu de cima a baixo. Ouvia uma música que vinha de dentro do apê. “Ai meu Deus. Ele tá tocando o Chico...” pensou.
Lentamente colocou a chave na porta. Abriu-a. E o viu com o violão no colo. Desabou ali mesmo. Já não era mais dona de si.
Zander Catta Preta
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A meia idade e o sentido da vida (ed.17)
Dizem que a crise da meia-idade não poupa homem algum. Eu não chegarei aos 40. Uma porque não ando comendo muito brócolis, deixei de fazer natação e abandonei os exercícios tântricos que evitavam que eu desperdiçasse minha energia vital numa ejaculação melequenta e espalhafatosa. Outra porque incontinência urinária, flacidez muscular e queda de cabelo (ou cabelo branco; ou os dois; ou, o que é pior: cabelo nas orelhas!) já me pegaram bem antes disso.
Dizem que é como um clique. Numa noite você é o máximo e ao acordar nem tem mais o velho tesão de mijo. A situação não é como um corredor claro, cheio de portas e de oportunidades em que você vai passando esperançoso. Não há transição. É como um tapa, uma linha bem marcada, que ao passá-la você acabou de se dar mal.
A resposta a esse miserável destino é a amarga consciência de que é preciso voltar ao que éramos: a auto-afirmação a qualquer preço de quando tínhamos 17 e ainda não tínhamos primas tão gordas. Se lê Darwin, sabe; homens têm dois instintos: sobreviver e procriar, com uma tendência avassaladora pelo segundo item, o que é bom, mas perigoso. Na busca da próxima geração, você pode ficar sem a atual, lembre-se disso.
Nessa idade a gente passa a entender que mulheres não nos paqueram mais e para onde você olha está a consagração da juventude e dos vegetais folhosos. Por isso, você está decidido a chamar a atenção (ou deixar de chamar; quem sabe uma peruca para disfarçar?) com a mesma disposição que esconde a barriga.
Para alcançar seu objetivo na meia-idade (aplacar a memória avassaladora de que você desperdiçou toda sua existência em um casamento sem-graça, em um emprego idiota e tendo como máxima aventura ir ao McDonalds aos fins de semana) o mundo te oferece algumas opções: piercing, tatuagem, largar o emprego, comprar o carrão esportivo e arrumar garotas de 18, mas com corpinho de 18 (malditos carboidratos!).
Crises da meia-idade são nossa chance de se rebelar, de voltar à juventude perdida, só que com mais dinheiro. Troca-se as espinhas por brincos no mamilo. E, no caso do carrão, há benefícios. Por terem bancos baixos, as meninas oferecidas olham primeiro o carro e só depois o topo de sua careca reluzente. Pronto, a equação perfeita: poder, dinheiro, “juventude” e uma careca fálica a refletir o seu velho companheiro. Tudo o que uma mulher precisa para abrir as pernas antes que o sinal abra.
O pior, confesso ainda aos 27, é que na meia-idade as generosas doses de testosterona são trocadas pelo repugnante estrógeno. Resultado: o cara tem um carrão, uma careca de mau, tatuagem, se veste igual ao Lenny Kravitz, mas fala manso, é gentil e sensível. Ou seja, está a um passo de virar veado. Exatamente o oposto da mulher, que aos 40 está mais durona, objetiva e com a energia sexual no auge. Ah, e o pior: passou a dirigir melhor que você.
E se não bastasse, o sujeito chega aos quarenta na mesma época em que precisa ir aos médicos. É... o primeiro para tirar coisas do seu corpo (colesterol, pedras nos rins); o segundo para pôr (alguém aí pensou em um dedo? Eu não falei nada). Coincidência ou sacanagem? E ainda tem cara que consegue achar sentido em continuar vivendo.
Escrito mal e porcamente por Renato Cabral, ruminante inveterado, que volta a escrever só para fazer amigos e influenciar pessoas. Elogios e esculhambações para oruminante@gmail.com
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A saga do busão (ed.16)
Eu ando de ônibus! É um meio de transporte prático, ecologicamente responsável, onde se interage com uma gama esplêndida de pessoas e vivem-se situações inusitadas. Em suma, é uma merda! E nem estou falando dos ônibus urbanos-coletivos-circulares ou seja-lá-como são conhecidas essas máquinas infernais pelo Brasil afora, em que se é obrigado a passar a viagem toda debaixo do sovaco do pedreiro que trabalhou o dia todo e nunca ouviu falar das maravilhas boticárias da Avon. Refiro-me aos ônibus de linha para viagens interestaduais, intermunicipais e inter-qualquer-coisa. Eles têm banheiro (oohhh!!) e poltronas macias e reclináveis (oooohhh!!!), mas nem por isso trazem menos transtornos.
Viajar para o interior do estado, passando por diversas cidadezinhas (todas menos populosas que jogo do "curíntia" no brasileirão) mais do que qualquer coisa, é uma aventura que deixa lembranças (nem sempre muito agradáveis) para a vida toda.
Na rodoviária tudo começa razoavelmente bem, o que leva a pensar que será uma bela viagem, com paisagens naturais, sem o barulho e poluição das grandes metrópoles, sem funk, Sandy e Jr, rap. Ledo engano... As surpresas logo começam a aparecer. Na primeira parada o ônibus já está lotado, você lá do fundo percebe a entrada daquela morenaça! Só sobraram dois bancos vagos, um deles ao seu lado. Ela vem andando, que beleza de coxas, que olhos, que gogó... ops gogó? Naããããããaoooooo!!!! Ufa! Ela (ou ele, ou os dois, ou nenhum, sei lá) passou direto e sentou-se na outra poltrona.
Aliviado né? Eis que o piso da jardineira estremece, você olha para frente e vê que o futuro lhe reservou um presente não menos especial. Ela é enorme, mais parece uma Kombi vestindo viscose. E adivinha qual banco está vago? Ela se espalha no banco, comprimindo suas pernas e sua paciência. ”É hora de abstrair-se dessa maldita existência observando a paisagem. ”Que maravilha, uma vaquinha pastando! Olha lá outra...e outra, e outra... (35 minutos depois...) ...Malditos animais idiotas não sabem fazer mais nada?
Paramos então numa rodoviária (ou pelo menos algo que parece ser uma rodoviária). A “fofinha” que estava ao seu lado desce. Que bom, vai dar até pra relaxar, deitar o banco e tentar esquecer. Eis que surge o clássico do terror em viagens: as crianças mal educadas! Criadas por pais bananas, em geral psicólogos e ex-hippies, que consideram uma chinelada uma violência imperdoável e um bloqueio à liberdade de expressão e formação do ego infantil. Essas pestes pulam, cutucam, brigam e choram, tudo ao mesmo tempo. Enquanto isso os pais ficam com aqueles gritinhos patéticos: “Pára Renatinho! Senta Reginaldinho!”.
E a estrada? Deus do céu, quantos buracos, um sacolejar sem fim. Você começa a perceber que não foi uma boa idéia ter comido aquela coxinha com tubaína na lanchonete da rodoviária. Mas também, seu burro! Até a sua avó sabe que esse tipo de comida gera tragédias. Então controle-se! Não falta muito tempo, logo você estará em casa, na sua privadinha almofada, escutando um CD dos Beatles enquanto obra! O asfalto melhora e seu corpo vai perdendo a tonalidade esverdeada. Ufa. Mas é cedo pro alívio. É hora das armas químicas. Algum lazarento dentro dessa lata de loucos abre um milhopã, o salgadinho que consegue unir o cheiro de cheetos, chulé e peido num único produto.
É... seus intestinos dão mostras de que não vão suportar mais esse revés do destino, começam as cólicas e você sente que tem algo vivo, correndo por dentro de suas tripas, algo vivo e que promete ser muito, muito desagradável... O jeito é ir para a prova final, o teste definitivo para a sua sanidade: o banheiro do busão! Confie, homem que é homem não foge de nada! Força... Argh! Que cheiro horrível Quando sair daqui, vou tomar um litro de creolina, devo estar podre por dentro! Ah! Agora é só pegar o papel e... Droga! acabou... Quer saber?!? Vai a passagem mesmo...
Enfim, você chega ao seu destino. Estressado, humilhado e com uma cueca que insiste em ficar presa no rego. Não vê nada nem ninguém, só quer entrar em casa e tomar um banho, chorar um pouco, tomar muita cerveja e, se possível, morrer.
Capitão Fabão – que se apesar do choque se recupera bem.
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Velório (ed. 14/15)
Eu tenho uns sonhos recorrentes. Não me recorrem-nos à noite, quando se espera sonhar, mas durante o dia, nos momentos em que a vida nos hipnotiza e conseguimos nos tornar presas ideais para os leões, hienas e demais predadores da savana original de onde todos vieram. Acho que é algum tipo de programação genética como a dos cervos que congelam ante a luz forte. Muito me impressiona que nenhum predador na América do Norte tenha desenvolvido uma estratégia de caça que se aproveite disso.
Digressiono. Falava eu de sonhos diurnos recorrentes e não das estratégias evolutivas dos alimentos dos grandes felinos.
Dos sonhos, tem aquele que me recorre lá pelo dia vinte de cada mês, antes do pagamento e das contas, depois que o boleto da Mega Sena vence, sempre pela manhã. Eu acordo e, no percursso entre a briga com o relógio despertador e a última volta da chave para trancar a porta da cozinha, a história me é contada inteirinha.
Eu, ou um eu projetado idealisticamente, me vejo conferindo os números da loteria e verifico que foram cinco os certos. Quina! O dinheiro certo para quitar as minhas dívidas, comprar um laptop novo e fazer alguma esbórnia. Quando chego na agência da Caixa Econômica, me informam que acertei a sena e eu tenho que de me virar com dezenas de milhões que subitamente afluem para a minha conta corrente. Obviamente eu salvo a vida dos familiares e dos amigos falidos, quando o elevador chega ao térreo e passo a me ocupar do dia-a-dia.
Tem aquele de quando estou num evento chato e não imagino a hora de acabar, ou quando estou no coletivo a caminho do trabalho e tento não emborcar no sono que o sacoleio estimula, e entra a menina morena de pele branca e olhos azuis (ou verdes, ou mel) e a boca vermelha e a saia rodada. Ela me olha, eu a encaro, ela senta-se ao meu lado, eu finjo desinteresse, ela puxa um assunto - que é parte variável do sonho - eu dou trela e me revelo exímio conhecedor do assunto que provavelmente ignoro na vida real, ela fala que gostou de mim, eu idem, ela me dá o telefone, email, msn e outras formas de contato moderno e vivemos felizes para sempre.
Normalmente esse sonho acaba no segundo seguinte que inicia. Ela senta em outra mesa ou eu vejo o meu reflexo no espelho e me lembro que o mundo não é nem um filme p.o.r.n.ô e nem uma fita água com açúcar italiana.
O último não tem hora certa e é o único que me assombrava - e assombra - de fato.
Entro num determinado local. Uma boate, um bar, uma casa de amigos, por vezes um supermercado e uma única vez no banco. Lá, encontro um rosto conhecido. Normalmente uma ex-namorada, rolo, caso, amante. Nisto vem outro amigo e outra pessoa conhecida e subitamente o local está infestado de fantasmas das minhas memórias. Todos querendo a minha atenção, amor, sexo. Aí eu me dou conta que, apesar de popular, não sou Orfeu entre as bacantes e a fome que esses fantasmas sentem é apenas reflexo do meu próprio vazio interior.
Disse que esse não tem data? Minto. Tem sim. Ocorre sempre que descubro que sou um poço de desejo de afeto e atenção e que o mundo não tem a menor obrigação de devolver a paixão que entrego a ele.
Zander Catta Preta
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Mais dúvidas com Capitão Fabão (ed. 13)
Caro Capitão, estou pensando em comprar um cachorro
bravo para que as pessoas me respeitem mais pela rua.
Que raça você recomenda? Pitbull? Rotweiller?
Caro amigo, a raça do cão pouco importa, desde que ele
beba cerveja. Cães são bichos divertidos (bêbados então...)
que servem para nos alegrar durante as ressacas e aprender
truques como pegar cerveja na geladeira. Macho quem tem
que ser é você meu amigo! Vamos lá, coce esse saco no meio
da rua! Cuspa no chão! E caso te maltratem na rua, no trabalho
ou qualquer lugar, feche a cara, olhe nos olhos de quem
te maltratou e diga a plenos pulmões: Vai tomar no... (censurado
pelo editor)
Sendo um homem culto e consciente de seu papel
na sociedade, qual suas visões políticas, ideologias
e opiniões sobre o rumo da atual sociedade capitalista
neoliberal?
Puta que pariu, um sociólogo! Entenda uma coisa, meu caro
amigo emaconhado, machões não ligam para ideologias ou
coisa parecida. Não vou vender meu V8 para combater o aquecimento
global, não vou parar de beber independente do que digam
sobre o estado esponjoso do meu fígado, e, definitivamente,
não vou parar de gostar de mulher nem virar metrossexual,
não importa o que o David Beckham, Paulo Coelho ou qualquer
outro desses frescos digam.
Falando em frescura, não seria esse seu jeito
machão de criticar as pessoas e o mundo um traço de homofobia?
Primeiramente, quero deixar bem claro que não tenho nada
contra os gays, até os admiro, pois quem consegue tirar
prazer de onde eu só tiro bosta, no mínimo merece respeito.
Em segundo lugar é uma questão de estatística, economia
e psicologia. Explicarei:
Estatística: menos homens no mercado significa um aumento
da proporção de mulheres para cada homem. E todo mundo
sabe que mulher nunca é demais.
Economia: sendo a procura maior que a oferta, o produto
homem torna-se mais cobiçado que banheiro em fim de festa.
Prepare-se para ser bolinado na fila do banco.
Psicologia: mulheres a perigo tendem a cometer mais loucuras
para conseguir 200g de prazer. Significa mais possibilidades
de orgias, menages e putarias afim.
Sendo assim, mais viados significa que nós machões tendemos
a virar sultões, com direito a bibas para cuidarem do cabelo
de nossas dezenas de esposas.
Capitão, virei seu fã! Me dá um autografo?
Autografo pra macho? Ta pensando que eu sou o que? Já me
viu usando cueca de crochê? Se liga rapá!!
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Solucionando dúvidas com Capitão Fabão (ed.12)
Esta coluna tem como objetivo solucionar as dúvidas que você, menino criado pela avó, que cresceu assistindo ursinhos carinhosos e agora quer resgatar o machão que existe dentro de você. É pra quem quer saber o momento certo de coçar o saco, cuspir no chão e/ou utilizar a força física para resolver situações do seu dia-a-dia.
Caro Capitão Fabão, tenho uma dúvida. Ao usar calças de linho devo usar uma cueca tipo sunga ou posso usar meu samba-canção de todo dia?
Inicialmente meu amigo, saiba que cuecas são para os fracos. Não há mal algum em ostentar os pertences que a natureza lhe deu. Em caso de emergência, das duas uma, olhe bem na cara de quem está reparando e diga: Qual é? Nunca viu um car.....? ou então pense na campanha do Corinthians no brasileirão. Ou você chora ou caga de rir, mas com certeza não há ereção que agüente.
Olá Capitão, seguindo a sua doutrina, seria uma boa eu fazer uma arte marcial? Algo como um kung fu ou até mesmo treinar pro vale-tudo?
Caro colega carente de abraços, fique sabendo que luta de homem é esgrima, pois fica um longe do outro batendo com uma espada, ou no máximo um boxe. Essa putaria de vestir sunguinha e ficar agarrando macho no chão é coisa de quem dorme com urso de pelúcia. Aprenda uma coisa filho, briga de macho é assim: Xingou, coçou o saco, cuspiu no chão e... Bang!!! Ta lá um corpo estendido no chão...
Capitão, fui num bar recentemente com minha namorada e uns caras de uma mesa mexeram com ela. Sou franzino e eram 5 bombadões de academia. Qual seria a atitude de um macho nessa situação?
Bom, nessa situação um macho de verdade teria um canivete ou uma arma de fogo, mas acho que esse não é o seu caso. Sendo assim a solução mais prática seria sair do bar com sua namorada, quieto, cabisbaixo, sem dizer nada... .... pegar seu carro, acelerar e entrar com tudo dentro dessa biboca e atropelar esses 5 otários. Também não tem carro? Então chegue na mesa deles, tire o pau pra fora e mije em todo mundo. A chance de te espancarem é enorme, mas nem mesmo a morte apaga uma humilhação dessas.
Fazer musculação é um requisito para um machão?
Na verdade músculos são uma última solução, geralmente quando o 38 engasga ou a faca do adversário é maior que o seu canivete. Nesse caso um bom soco resolve muita coisa. Porém academias são locais ideais para a transição para o lado rosa da força. O cara começa a olhar o quadríceps (seja lá o que for essa porra) dele e comparar com o do cara ao lado, tem as ajudinhas pra fazer as séries, os alongamentos e daí pra queimação de rosca é coisa de 20kg a mais no supino.
Capitão Fabão, jacaré no seco anda?
Punch, soc, trash! Isso responde a sua pergunta? A próxima é se eu conheço algum bom dentista?
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