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Ameaça - Rach Prochoroff (ed.22)
Que foi, o gato comeu sua língua?
Era a terceira vez que ele perguntava. Em outras ocasiões, ela havia inventado respostas, partículas de fantasia misturadas com gotas de imaginável. Havia funcionado. Porém, ela estava cansada destes confrontos. Preocupada com os revezes do relacionamento deles, demorava a dormir. E agora havia mais esse problema. Um deslize. Um mero descuido! Acabara de ser pega. A situação urgia uma solução e ela era provavelmente o único ser pensante nesse planeta que não conseguiria vislumbrar a saída do beco onde se enfiara, quando tomou o caminho menos aconselhável naquela bifurcação moral, havia algumas horas.
- Vamos, responde!
Não havia resposta. Pelo menos não uma plausível para tudo aquilo. Dentro de si, dragões de culpa corroíam, com seus baforejares inflamados, o aço com o qual havia sido forjada a sua coragem, desde pequenininha. Sua intrepidez a havia feito conhecida por todos. Ela era firme como uma rocha. Não titubeava. Decidia e a resposta seria peremptória, a partir do momento em que proferisse a palavra, que era, na sua concepção, a lei.
- Se vc não responder logo, eu vou ser obrigado a tomar uma atitude.
Ela estava com medo. Justamente ela, cujo epíteto, “turrona!” (sim, com o ponto de exclamação inseparável) havia se tornado nome próprio entre as vizinhas, à meia-boca. Não se deixava abater por pouco, tampouco por muito. Se fosse preciso, partia para o ataque. Físico, é preciso deixar claro. O único infeliz que havia resolvido desafiá-la acabara sem um pedaço do dedo, arrancado a mordidas, apesar da diferença de tamanho entre ela, mignon e ele, um adolescente parrudo. “Uma selvagem!”, diria a enfermeira no pronto-socorro – "só uma selvagem seria capaz de tal atitude!”
- Seu tempo está se esgotando e minha paciência, chegando ao fim. – disse ele, apoiando a mão esquerda na fivela do cinto.
Monstro! Não podia mais com as palavras e ameaças daquele que se tornara um protetor... mas também um delimitador da liberdade dela. Já havia cogitado escapar daqueles grilhões. Levaria somente o necessário, em valise pequena, quando ele estivesse fora de casa, trabalhando. Contudo, sabia que a perseguição começaria assim que ele desse por sua falta. Ele convocaria seus amigos de cerveja, churrasco e truco e todos se engajariam na busca, que não cessaria até que ela estivesse de volta, trancafiada em um quarto e devidamente punida.
- Você vai explicar por conta própria ou vou ter que fazer você falar? - tirou a mão do cinto e a apoiou na vassoura, que ficava ao lado da porta, convenientemente, para ser posta em uso sempre que necessário.
Ele chegou de sopetão na vida dela. Sem mais nem menos, ocupou os espaços do coração, da casa e do cotidiano. Todos o adoraram instantaneamente! Conquistou a mãe, que era seu esteio e diretriz, naquela vida tão cheia de anseios ainda por serem consumados. Conquistou os irmãos, os avós, os vizinhos. E até o cachorro, que por pouco não alçava vôo, tal a intensidade com a qual abanava o rabo, assim que escutava o barulho do carro entrando na garagem.
- Está bem, se é assim que você quer, é assim que vai ser - ameaçou ele.
- Não, não! "Tá" bom! – ela choramingava baixinho, tentando ganhar tempo.
- Sou todo ouvidos – no rosto dele havia um ricto que ela não soube precisar se era de sarcasmo ou de felicidade.
Ogro infeliz! Isso é o que ele era! O que mais a assustava era o tamanho dele. Um Titã em força física! Ela odiava apanhar dele! Porém o que a fazia estremecer em frenesis de indignação e ira eram esses confrontos psicológicos, verdadeiros cabos-de-força intelectuais. Ele ficaria parado, impávido, por minutos que pareceriam horas, esperando uma resposta, que deveria ser proferida a contento e esclarecer sem ser prolixa. Senão, ela pagaria caro por sua ousadia, com uma boa surra.
- É que... – ela gemeu pungentemente, a cabeça baixa, mas olhando de esguelha para ele, a fim de medir o efeito da atuação teatral. E assim permaneceu, em silêncio.
- Estou ficando impaciente... – o tom da voz dele era ameaçador – Você não quer me ver bravo, quer?
Quando apanhava dele, seu coração se contorcia de revolta, mas não derramava uma só lágrima. Ele dizia que agia assim porque a amava. A cada tapa que ela recebia, um pedacinho do seu ser se transformava. Era exatamente este o intuito dele: ensiná-la. A duras penas, ele estava conseguindo moldá-la de acordo com o que acreditava ser o certo.
-Vamos!! Fale!! - disse rispidamente, enquanto ela começava a chorar, de medo, antecipando a punição dolorosa. Decerto ele já sabia de toda a verdade. Sim, ele era tão esperto!
Ela era louca por ele no início. Ele a cumulou de presentes, sorrisos e alegrias, fazendo com que ela se sentisse o centro da vida dele. Agora, porém, alimentava, em segredo, um sentimento multifacetado que ora emergia como amor, ora como admiração e ora como raiva. Ela não entendia muito bem como essas coisas funcionavam, mas sabia que estava irresistivelmente ligada àquele que cerceava sua liberdade de modo tão veemente, mas a amava com intensidade e devoção arrebatadoras.
- Chega! Você vai ficar trancada. Estou cheio das suas manhas e atitudes. Quem sabe vc não pensa melhor e resolve esclarecer esta estória depois de ficar curtindo sua solidão dentro deste quarto.
Ele saiu, trancou a porta e ela suspirou aliviada. Ufa! Teria o tempo que precisava para articular alguma narrativa mirabolante. Afinal, ela não tinha culpa de ter chutado a bola tão desajeitadamente e quebrado o vaso caríssimo da mãe. Escondera os caquinhos com cuidado no fundo do armário da dispensa, certa de que só ela, pequenina de 5 anos, poderia se esgueirar pelas caixas e passar através de um espaço tão diminuto. O padrasto a surpreendera justamente na hora em que voltava para a cozinha e perguntara o que ela fazia dentro do armário. Ela, é claro, não soube responder e ficou olhando para ele em silêncio, sem contudo suprimir um sorrisinho maroto, que fatalmente denuciou a "arte".
Mas havia tempo até a hora do jantar. Ela pensaria em algo. Ou, ao menos, conseguiria forrar o assento da calça com algumas toalhas de rosto para que as palmadas doessem menos, quando a verdade viesse à tona. Sim, ela pensaria em algo!
Rach é coordenadora pedagógica, teacher trainer, escritora, cantora e nerd disfarçada de tatuada. http://rprochoroff.blogspot.com/
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Sem título mesmo, porque não merece - Jo Bohner (ed.21)
Ela andava pela rua cantarolando mentalmente, animada com as perspectivas que o novo emprego oferecia e pensando com carinho no namorado que estava em outra cidade. Fazia um dia agradável, com uma excelente combinação entre o sol ameno e a brisa fresca, os galhos mais altos das árvores curvando-se gentilmente a cada sopro, os passarinhos chilreando despretensiosamente e de quando em quando um latido preguiçoso mostrava que o dia realmente estava bom demais para se preocupar com qualquer coisa.
Absorta em seus alegres pensamentos, ela nem notou que vinha tendo seus passos observados enquanto caminhava com a leveza de alguém em paz consigo mesma. De fato, não eram seus passos que estavam sendo observados. Em uma casa semiconstruída mais à frente estavam quatro pares de olhos que se fixavam nas suas femininas curvas, delicadas e discretas, porém presentes.
Alguns poucos metros depois ela se sentiu observada. Retesou seus músculos e começou a caminhar sutilmente mais rápido, para poder evitar o que quer que fosse, caso houvesse necessidade. Num momentâneo desvio de foco conseguiu enxergar as oito lanças que estavam à espreita, aguardando o momento certo para...
Logo que as ondas reverberaram no seu pequeno tímpano, ela chegou a visualizar um suculento bife sendo frito. Chegou a conferir o relógio para certificar-se de que a hora do almoço já estaria próxima, porém ainda não fazia nem três horas que o sol havia despontado no horizonte. O som de fritura foi seguido por murmúrios indecifravelmente lascivos, o que a fez mirar com repulsa as quatro figuras recostadas no muro interminado e apertar ainda mais o passo. Fossem os olhos dela miras de alguma arma potencialmente letal, os quatro seres provavelmente teriam sido pulverizados. Ou, no mínimo, mutilados. No lugar certo. Esse mesmo! Não finja que não entendeu.*
Seu primeiro impulso foi de espancar um por um até a morte, pensamento esse que foi seguido por um quê de lucidez que a segurou e explicou que, além de eles serem visivelmente mais fortes, provavelmente não valeria toda a chateação de passar por todos os trâmites legais que tal ato acarretaria.
Num segundo instante, veio a vontade de lhes dar um sermão, pedir-lhes por respeito e os fazer imaginar que suas mães/irmãs/namoradas/tias/etc. poderiam estar no mesmo instante em outro ponto da cidade passando pela mesma desagradável situação. Eles não gostariam que isso acontecesse, gostariam? Novamente o seu cérebro a refreou, explicando que o entendimento deles sobre o conceito de "empatia" provavelmente era insignificante, senão nulo.
Não vendo o que podia fazer, seu dia já arruinado e plenamente irritada, ela saiu pisando duro, deixando escapar com raiva um "Bando de filhos da..." entredentes.
* O queee? Estou falando dos olhos, claro! Eu, heim...
http://joaninhalouquinha.blogspot.com/ - Jo não é "ela", mas chega muito perto disso.
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Duralex - Ana Mangeon (ed.20)
Começou então a sentir uma náusea que nunca havia sentido, algo que lhe dava a sensação de que o estomago tinha entrado em erupção, ou pior, que todas as suas vísceras se rebelavam dentro do corpo e, amotinadas, esbatiam-se contra os ossos, tentavam romper-lhe os músculos. Sentia incomensurável dor e a dor era uma dor complexa e ao mesmo tempo como que singular para cada milímetro de tecido, uma dor aguda e celular.
Caminhou cambaleante até o banheiro, respirou pela boca profundamente e mirou-se no espelho; no lugar dos olhos rubis de vermelho ardente, a lava, a lava. As veias da testa em alto relevo. Um filete marrom correndo pelas narinas como corre a regra de moça nova. Inda sou nova. Abriu a torneira de mãos em concha, borrou a maquiagem já borrada. Inda sou nova para tanto suor e para tanta lagrima.
Contraiu-se toda, achou que ia vomitar mas não vomitou. Retornou a sala acomodando-se no sofá. Tirou os sapatos e riu-se de suas unhas pintadas de preto. Sim, tem razão. É sexy.
E foi rindo que lhe vieram os engulhos. Contrações como as de um parto que errasse o caminho e decidisse sair pela boca. Algo latejava na garganta. Quis proteger o carpete novo. Vomitou nas mãos. E tateou algo macio, quente e vivo.
Como duas línguas sobressalentes, esticadas a ponto de quase romperem, pendiam-lhe as artérias boca a fora e entre suas palmas pulsava seu coração. Parecia maior. Bateu demais. Parecia mais frágil. Amou demais.
Observava. Tumtum. Tumtum. Acariciava. Tumtum.Tumtum. Alentava o pobre do seu coração. Ding dong. Era a campainha.
Alçou os olhos e busca das horas e era tanta espera que mesmo que as encontrasse essa era uma conta que já se encontrava para sempre perdida. A espera já não podia ser traduzida por números. A espera se estampava nos cabelos brancos que antes não existiam, nas rugas suaves. E nas palavras. Enfim, ele chegara.
Achou que era melhor engolir o coração de volta, ajeitar o cabelo e retocar a maquiagem. Pulso, pulso. Um pensamento recorrente: já amou demais.
Campainha.
Suspirou para tomar coragem. Campainha. Fechou os olhos. Campainha, campainha. Cravou os dentes em uma das artérias e um esguicho rubro espirrou pelos ares convertendo-se em joaninhas e borboletas multicor , e a campainha e a campainha e a primeira nota de um acordeom alegre, um ding , um tango, e dong e toda o a mobília coberta por insetos delicados e formigas doceiras que vinham das falhas no rejunte dos azulejos da cozinha. Campainha, campainha, quantos baixos tem na campainha.?
Quis dançar mas já não lhe respondiam as pernas, as células já se esqueram da dor e adormeciam. O pulsar em suas mãos, agora, um quebrar de ondas de uma maré vazante, o mar a se afastar, o mar a lhe levar para longe, longe....
A musica cessou. Teve ainda um ultimo segundo para resolver que o som dos passos que partiam era de desapontamento.
Os pulsos penderam, as mãos relaxaram e aconteceu que o coração dela escorreu delicadamente por entre seus dedos e espatifou-se pelo chão em muitos, milhares de caquinhos inócuos.
Assim, como se quebra um prato Duralex qualquer.
Ana mora em São Paulo, é viciada em jazz, coca-cola, pistaches e tem medo mortal de baratas.
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Chegadas - Regina Nadaes Marques (ed.19)
É sempre bom voltar a Brasil depois de algum tempo. Ao chegar passo dias bebendo os verdes das inúmeras plantas que crescem em qualquer lugar, o azul do mar e o cinza azulado das montanhas do Rio de Janeiro. Deixo-me levar pela música da cidade, do vendedor de pão, dos feirantes, da rádio e da tv sempre ligadas, das conversas nas lojas e nas ruas e dos cachorros, como latem os cachorros cariocas! Delicio-me com a gentileza dos “Fica com Deus”, penalizo-me com os “Valeu, meu patrão”, surpreendo-me com a diminuição do gerundismo e com a chegada do “obrigado eu”. Mergulho de cabeça nos bolinhos de bacalhau, pastéis, empadas, strogonoffs e bobós de camarão, me afogo em água de coco, caipirinha e guaraná. E assim vou, revendo amigos e parentes, ouvindo histórias novas e velhas, acompanhando a vida do país pelos jornais e pela tv, tentando compreender o mais recente escândalo por corrupção. Andando de metrô ou de ônibus a sensação é que todos os passageiros tomaram banho antes de sair de casa, no supermercado a seção de sabonetes toma um corredor inteiro. Navego de carro sem me sentir agredida pelos outros motoristas (mas de janelas fechadas e portas trancadas para não ser agredida por assaltantes), o tráfego flui como numa coreografia a som de valsa, mesmo quando está engarrafado. Passeio pela Zona Sul arrumada para receber o Pan, os quiosques de Copacabana resplandecentes, os de Ipanema ainda em reforma. Vago pelo Saara e sua confusão, seus cheiros fortes e sua miséria. Um vendedor ambulante oferece um produto de limpeza, mostrando a sua eficácia na pedra portuguesa da calçada da Rua Ouvidor – se os comerciantes usassem o produto, todo o Saara seria mais bonito! Muitos outros ambulantes anunciam dvds piratas em altos brados, catadores de latinhas de todas as idades esperam pacientemente que o freguês termine seu refrigerante. O contraste entre Zona Sul e Zona Norte é cada vez mais gritante, depois do túnel o que se vê é degrado, casas e prédios pichados, ruas e calçadas esburacadas, lixo abandonado, descaso, falta de manutenção. Depois de um mês fico achando que o Brasil não tem jeito mesmo.
É sempre bom voltar à Itália depois de algum tempo, também. Chego às 7 da noite, o ar está fresco e o sol ainda não se pôs. No caminho para casa admiro a arquitetura imponente dos prédios do século XIX, a limpeza das ruas e a elegância dos passantes. Delicio-me com o vinho branco e uma pasta al pesto fresquinho da Liguria, pois por mais que eu ame a comida brasileira, para mim a italiana será sempre a melhor do mundo. Gosto de ver como se viraram bem as minhas plantas, dizem que choveu bastante em agosto, sorte nossa! Vou ao banheiro e jogo o papel no vaso sem receio de entupir tudo, recebo meu troco sem ficar com nojo do dinheiro, estaciono meu carro sem medo de ser assaltada. Mas no caminho me sinto agredida por outros motoristas, que querem se enfiar entre meu carro e a calçada, onde mal caberia uma bicicleta. E buzinam uns aos outros, mal-humorados, e fazem gestos pela janela. No supermercado mato a saudade de queijos e molhos, mas a seção de sabonetes é ínfima, só tem três marcas! Difícil arrancar um sorriso da vendedora, muito menos um “Fica com Deus”. As notícias-sensação são as mesmas de todas as estações: crimes passionais, assassínios de prostitutas, afogamento de imigrantes clandestinos, pedofilia, guerra, guerra, guerra. Infinitas discussões entre políticos de partidos diferentes ou não. Depois de três dias fico achando que a Europa está com os dias contados, a Itália está morrendo, o mundo está para acabar.
reginamarques@maxine.it
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A cliente - Sandra Baldessin
(ed.17)
Será, doutor, que existe algum lugar ao qual possamos ir e preencher um requerimento solicitando a vida de volta? Uma repartição qualquer, com uma moça entediada atrás do balcão; você paga uma taxa e recebe o formulário que deverá ser preenchido e assinado e... pronto! Possui a própria vida novamente sob custódia.
Diga-me você, que já estudou tanto, já ouviu centenas de histórias, existe esse tal lugar? Não. É claro que não. Isso não importa, já que facilmente posso criar esse paraíso psicótico...
Gosto que me olhe assim - tão atento e agradecido – pelo simples fato de que a louca sou eu. Mas, você meu caro, não sabe o que está perdendo, afinal, “imaginamos o que desejamos; queremos o que imaginamos; e, finalmente, criamos o que queremos.” Que mal pode haver nisso?
Mas, voltando ao que me aflige, exijo que me cure, sou a cliente, aquela que sempre tem razão... Não espere que eu me comporte com suavidade, mas, por favor, invada o meu mistério, ou será que... Você também tem medo das minhas trevas?
Isso, olhe as minhas pernas. Eu gosto de perceber que você me lê como mulher até o limiar do seu controle. Controle pode ser coisa de gente normal, mas, não necessariamente de gente feliz. Chega, chega de conversa fiada; eu sei que inquieto você, que na hora do banho você pensa em mim e que a única terapia ao seu alcance é um orgasmo solitário.
Pronto, falei a palavra mágica... SOLIDÃO. Ah! Quantas concessões uma mulher pode fazer à solidão..E eu fiz todas, é claro. Naveguei solidão adentro, encontrei-a em todos os leitos, abracei-a em todos os corpos que semearam o meu.
Você está assustado, vejo nos seus olhos... O mérito é todo meu por ter despertado a consciência da sua própria solidão.
Viver é uma travessia muito longa. Eu sei que você gostaria de medir a temperatura da minha pele, aconchegar-se ao meu seio. Eu me empenho para ser a sua mais irresistível fantasia. Vista-a! Eu ordeno!
A consulta está chegando ao fim e continuo sem nenhuma certeza... Você, como eu, está agonizando. Quer, também, a sua vida de volta?
Sandra Baldessin é uma escritora paulista fantástica e um ser humano maravilhoso. http://sandraregina.multiply.com
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A dança dos amantes - Cláudia Pereira
(ed.16)
“Os dois não paravam de dançar jitterbug, nem nos intervalos. Eu me sentia encolher até virar uma manchinha preta diante de todas aquelas mantas brancas e vermelhas e os lambris de pinho. Senti-me como um buraco no chão. Há qualquer desmoralizadora em olhar duas pessoas cada vez mais doidas uma pela outra, especialmente se a gente é a única pessoa na sala. É como observar Paris de um vagão que segue na direção oposta à cidade, que vai diminuindo a cada segundo, só que na verdade é como se a gente ficasse menor e menor, e mais solitária, mais solitária, disparando para longe de todas aquelas luzes e excitação, a um milhão de quilômetros por hora”.
Este trecho de THE BELL JAR, de Sylvia Plath é algo que me faz pensar. Se você realmente olhar de perto duas pessoas apaixonadas e se estiver solitário, você se sentirá terrivelmente deslocado. É simplesmente chocante a forma como nos sentimos sem jeito quando vemos determinadas demonstrações de afeto ao vivo. Eu sempre desvio os olhos quando percebo um casal de namorados aos beijos. Fico vermelha, engasgo, e quando dou por mim, estou cantarolando alguma canção.
Quando estamos apaixonados queremos brindar a tudo. Qualquer motivo serve de desculpa para cantarmos o nosso amor. Escrevemos poemas. Criamos estórias. Mudamos o corte de cabelo. Emagrecemos. Compramos um guarda-roupa novo e ousado e até nos permitimos ouvir aquelas músicas xaropes românticas. Ah, o amor. Ele não tem explicação. Ele dói. Ele acaba. Ele começa de novo... de novo... Mas, ainda acho que certos amores doem mais do que outros. Certos amores nunca passam ou acabam, apenas dão-se tréguas...que podem durar meses ou anos, para depois retornarem mais fortes e loucos do que antes. Paixão é paixão. Amor....é muito mais. O resto? Não sei.
Não tenho respostas óbvias sobre este assunto. O que posso dizer é que a única forma de se aprender a amar...é amando....é deixando de lado tudo aquilo que se viveu e não deu certo....é perdoando quem erra...é aceitando os limites do outro...é amar sem expectativa....é dar sem esperar nada em troca.... Amar faz bem pra saúde. Faz bem ao ego. Rejuvenesce. Ressuscita. Reconstrói. Amar faz um bem danado. E mesmo que vc ame a pessoa errada...convém pensar que é melhor amar e ser amado...do que viver no vazio da sabedoria solitária.
Cláudia é mulher multifacetada, inquieta, cinéfila e cronista amadora de Manaus – AM. http://claudiapereira.multiply.com/
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5 min de pseudo-inspiração numa tarde de sol - Jo
(ed.15)
"Ela quer ser artista. Atriz, cantora, pintora, fotógrafa, contorcionista, escritora, qualquer coisa. O amor é pela arte em todas as formas de expressão e por todos aqueles que conseguem expressá-la de uma forma ou de outra. Pensa demais sobre assuntos demais. A arte funcionaria como uma punção no cérebro, aliviando a dor-de-cabeça qua a acompanha desde que aprendeu a usá-lo.
Coloca uma música alta para tentar abafar tantos pensamentos aleatórios e deixa-se embalar pelos acordes do violão que ela adoraria saber tocar. Acordes tristes e revoltados, que nem ela, mas que estão soltos e livres, ao contrário dela. Sua prisão é ela mesma. Um misto de perfeccionismo, tédio e falta de coragem. Se ela tivesse coragem, perseguiria seus sonhos até realizá-los.
Sonhos? É isso: ela não tem sonhos. No máximo umas vontadezinhas. Queria fazer teatro. Queria tocar bateria. Queria escrever um livro. Queria dublar um filme. Só para ver como é, entende? Não são projetos de vida. Queria praticar um esporte. Qualquer um. Para mexer um pouquinho o esqueleto, pelo menos em prol de si mesma. Queria não, deveria! Pelo menos para parecer menos doente.
Queria é voltar no tempo e poder mudar algumas decisões, mas não dá. Tais decisões já foram tomadas, as conseqüências já vieram e isso a tornou como é. O que não é necessariamente ruim. Nem bom. Resta-lhe viver o que ela tiver que viver. Ela não quer um futuro diferente: quer o futuro dela, do jeitinho que deve ser. Com erros, acertos, tristezas, alegrias e quaisquer outras sutilezas a que ela tiver direito. Com sonhos e projetos ou sem eles, vive-se.
A revolta dela não é com nada nem ninguém em específico... talvez com ela mesma, pelas tantas promessas que ela se faz e que tão insistentemente não cumpre. Tenta ser legal com todo mundo, mas quando chega a vez dela, é negligente. Esquece das coisas. No fundo é uma egocêntrica. Deve fazer isso para ganhar atenção e piedade dos outros. Pobrezinha, tão altruísta. Que nada.
Ela tem é medo de que alguém não goste dela. Sente vontade de trancar-se num quarto e nunca mais sair de lá. Sem espelho, pois acha sua imagem patética. E escuro também, pois não quer nem ver a sua silhueta torta. Quer trancar-se e ser esquecida. E esquecer, para que seus múltiplos pensamentos parem de atormentá-la. Tem medo que as pessoas riam de tremenda patetice.
Para tanta e tamanha esquisitice não há solução. Esquecer, curar, superar, não são opções. Há o tentar conviver, temporariamente contornar, apertar o botãozinho do snooze. Nasce-se com isso, com isso se vive e se morre. Aí é uma questão de descobrir até onde vai a compreensão alheia."
Jo não é "ela", mas chega muito perto disso. http://joaninhalouquinha.blogspot.com/
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E se fôssemos números - Roberval
(ed.14)
Você já parou pra pensar o quanto é complicado quando precisa fazer um cadastro em uma loja? Ok, então pra complicar um pouco, sua declaração de imposto de renda (para aqueles que fazem). Ah, então pra piorar de vez, você já passou pela experiência de tirar passaporte? Pois é, nesta última opção você deve informar TODOS os seus documentos: número do RG, número do CPF, número da certidão de nascimento com número do livro e número da página, número do seu título de eleitor, número da certidão de reservista (para os homens)... números, números e mais números. Tudo isso para dizer que você é você!
Você deve estar pensando agora: "Burro, isso é pra evitar os homônimos". Hum... sim... talvez, mais provável que quem sabe, certo? Se você acha que isso resolve, eu diria que não! Você conhece algum "João da Silva"? A lista telefônica conhece vários. Mas antes o problema fosse somente nacional. Você sabia que na China existem mais de 300 mil pessoas com o nome "Zhang Wei"? Isso mesmo, trezentas mil pessoas com esse nome muito louco. E agora, já começou a concordar comigo? Vamos adiante!
Numa mesa de bar, com amigos, resolvi aderir a uma idéia de um amigo (não vou roubar a idéia dizendo que fui eu que pensei, apesar de que poderia) que diz: "E se fôssemos números?" Puxa vida, como seria mais fácil. Com um único número eu poderia me identificar e evitar carregar e/ou decorar esses milhares de números que me deixam louco. Ah, como seria mais fácil apenas dizer uma seqüência única de números e tudo se resolver.
E então nasce a pergunta: "Qual deveria ser essa seqüência?". Essa parte é a mais fácil de todas. Partindo que, a seqüência deve ser um número único, pois deve valer não só para o nosso país, e sim para o mundo inteiro (principalmente por conta da globalização (eu precisava escrever essa palavra!), evitando mais uma seqüência internacional, o número coringa é o número de habitantes que já existiram na face terrestre. Não entendeu? É só contar: 1 - Adão, 2 - Eva, 3 - Abel, 4 - Caim, 5 - Sete (sim, chama sete) e assim por diante.
Eu sei que não seria uma tarefa fácil um recadastramento desde o princípio dos tempos, então vamos adotar um marco, o da população mundial, e daí pra frente, cada um tem seu número. Exemplo: eu nasci no mês nove de 1978. Em umas contas minhas com médias entre 1975 e 1980, acredito que devo ter sido o número 4.343.038. Pronto, aí cada um faz sua conta e tem seu único número.
O desfecho disso é o seguinte: você liga a televisão e escuta: "Boa noite, eu sou 3.227.874... e eu sou 3.223.561 e está começando mais um Jornal Nacional". Você vai pra uma balada e pergunta: "Qual é seu número, gata"? De duas, uma: ou até ela responder, você já bebeu toda sua cerveja, ou você vai conseguir mandar a cantada que seria a mais batida: "Você é meu número!".
Roberval é foda no design, adora viajar e pertence ao Clube do Repolho.
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Diálogo de romance I - Paulo Camelo
(ed.13)
Ela chegou perto de mim cheia de melindres…
– Você parece que não tem mesmo muito o que fazer… fica aí assistindo o Silvio Santos, “Casamento a moda antiga”!
– Pois é, é que eu sou um cara romântico…
– Se você fosse mesmo romântico casava comigo!
– Mas eu não disse que casava?
– É, disse, mas vai fazer uns 4 anos isso!
– Os românticos curtem noivar…
– Eu devia ter arrumado um pretendente mais ganancioso e menos sonhador, um cara assim, tipo do signo de leão….
– Ainda dá tempo de trocar…
– Olha como você é, nem parece que gosta de mim!
– Já falei, assim que a gente comprar os móveis nós casamos…
– Mas você nem trabalha!!
– Minha mãe sempre disse que eu fui um cara de sorte, arrisco sempre na megasena, eu vou ganhar, podes crer..
– Quer dizer que a probabilidade de casar com você é a mesma de ganhar na megasena???!!! Assim eu prefiro jogar…
– Claro que não, é que eu penso que você merece conforto…
– Não precisa ser tanto assim…
– Tá bom, vou arrircar no jogo do bicho…
– Falando assim você me entristece..
– Então vamos nos inscrever no programa. O Silvio Santos paga a festa e as despesas do primeiro ano de casamento!
– E quando acabar o primeiro ano?
– Grande parte dos casais terminam o casamento no primeiro ano!
– Chega! Depois você vem com essa conversa de que é romântico…
– Lembra aquele teste, eu não preencho todos os requisitos? Pois sim, eu sou um cara romântico, não é?
– Sim, mas aproveita e faz um “o que ela não queria”… nesse você vai ser reprovado!
– Vem aqui pertinho que eu quero falar uma coisa no seu ouvido…
– Fala…
– (…)
*…e foram felizes para sempre….
Paulo Camelo é um cara comum e de sorte, por certo. É de Fortaleza – CE e se interessa por tudo que acalma. http://onaufrago.multiply.com/
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Senhorita Margot - Ana Mangeon
(ed.12)
Primeiro eram as botas em que se tropeçar bloqueando a porta e a meia calça se equilibrando em cima da televisão. Depois pouco a pouco, um copo de refrigerante pelo meio, ainda gelado, o copo marcado de um batom escuro e um cream cracker onde se deu somente uma mordida interrompida por enjôos e flagelos. Bijuterias dentro do cinzeiro, onde um cigarro queimou até o filtro e apagou. Uma lufada de suor concentrado e álcool.
A parede vermelha ainda sem quadros e um vinil de 78 rotações tocando em 33, canções de um cabaré imaginário onde ela era melindrosa, cantora e pianista. Onde ela fumava uma cigarrilha com lábios sugestivos e destruía corações e relações estáveis. Onde se pensava que ela dava enquanto, que tontos, ela só consumia ao seu bel prazer. Onde ela despia as tetas cantando com voz grave, depois se vestia e dizia não.
As chaves de casa, do carro. Sobre a pia, algodões pretos de olhos manchados de pranto e rímel. Um vidro de perfume no final, esmalte vermelho de secagem rápida, uma calcinha de algodão cor da pele gotejando na torneira do chuveiro. Shampoo para cabelos rebeldes, e sabonete de gengibre com vanila. Toneladas de cabelos secos pelo chão atestando que aos poucos começa uma demolição.
O corpo embriagado de Margot sobre a cama, mais pálido, mais flácido roncando baixinho pra provar que ela é humana. Uma pequena poça de saliva formando-se sob seus lábios que pendem abandonados sobre fronha, empestando o ambiente com um hálito agridoce e inundando os lençóis com existência.
Margot está muito cansada de ser o que ela é, sem ter escolha. Cansada de ter sempre que ter uma frase, um gesto, um argumento, os olhos vivazes. De ter sempre atitude. De despertar curiosidade, atração, tesão e medo.
O corpo nu de Margot, seus poros arrepiados e mamilos rijos, seus braços acolhendo o tronco um pouco de frio outro tanto por instinto. Margot está sonhando o anti-sonho. Margot quer ser normal, andar de chinelos, esquecer de fazer as unhas, aprender a fazer bolo e ter um namorado meio feio com quem ela só faça sexo duas vezes por semana. Margot quer às vezes não saber as respostas. Quer ser beijada na testa. Margot quer ser protegida, mas ela, em vez de puxar o edredon, vai se encolhendo, encolhendo, defendendo o corpo com o próprio corpo tentando ignorar os pêlos eriçados pelo vento encanado da Avenida Paulista.
O arrepio da solidão que entra por uma fresta da janela, por debaixo das portas e por um furinho na sua carapaça que leva diretinho na alma. A mesma alma que ela acredita que não tem, e por isso, nunca se preocupou em selar.
Ana mora em São Paulo, é viciada em jazz, coca-cola,
pistaches e tem medo mortal de baratas.
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