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Baú do Ponto de Fuga

bárbara cunhalívia santanarodrigo novaes de almeidaalice albuquerqueandréa paespaulo salernoluiz carlos carvalhoroberta de felippezander catta preta
fábio reoli

- A eterna busca do não sei o quê
- Não pense em Lívia III
- Aos pés da bailarina
- A aula
- Não pense em Lívia II
- Fusão
- A porta
- Observatório
- Pé na estrada
- Não pense em Lívia
- Amanhece

A eterna busca do não sei o quê (ed.22)



Bárbara Cunha (texto) e
Igor Alecsander (foto)



Ela chegou no bar, como era de costume, sorrindo. E seus olhos buscavam não sei o quê. E piscavam velozmente quando ela sorria. De novo. Os homens olhavam para ela em sua redoma quase inatingível e ela buscava não sei o quê, sem dar muita atenção aos olhares, aos acenos, às conversas superficiais que se ouvem nos bares.

Uns amigos chegaram, outros se despediram. Mas ela, ainda no mesmo lugar, ainda com o mesmo sorriso, parecia buscar não sei o quê.

Levantou-se para acender um cigarro ou para cumprimentar um conhecido ali na esquina e então a busca se justificou. Foi naquele exato momento, naquele breve instante, que ela parou de piscar e sempre tão falante, perdeu a voz.

Ela fingiu não notar o momento fugaz, a fração de segundo, aquele segmento de tempo, imóvel, que iniciaria toda a cadeia de acontecimentos e a tornaria tão lúcida.

Mas sentiu. Não pode negar que sentiu aquele estranho no outro extremo do bar que, incansavelmente, a encarava e lutava com seu olhar. Viu os olhos verdes, vivos, famintos, mas preferiu relevar, afinal, não existe lugar melhor que um bar para se iniciar um romance de uma noite apenas. E desse tipo de romances, ela já estava farta.

Apesar do pouco caso, ele insistiu e juntou-se aos amigos dela na mesa em que ela costumava sentar. E se apresentou, e puxou conversa, e admirou-a enquanto dançava.

E como ela dançou naquela noite! E como suou para se cansar!

Então, exausta, foi embora deixando no ar um cheiro de mistério, sabendo que amanhã, tudo permaneceria igual.

Ao acordar percebeu assustada que sonhara com os olhos verdes. ‘Droga!’, detestava sonhar! Mas logo se esqueceu do sonho e esqueceu-se de tudo, na velocidade do cotidiano, no ritmo pulsante do seu dia-dia. Uma semana se passou entre ônibus, reuniões, cigarros, fotografias, realizações e desilusões.

A noite caiu e ela, novamente maquiada, se preparou para mais uma busca. A eterna busca do não sei o quê. Saiu meio sem rumo e foi parar numa festa intimista, quase arrependida de tão perdida, naquele lugar onde uma dúzia de amigos conversava enquanto ela atravessava o salão. Pegou uma cerveja, acendeu um cigarro. A música em volta acelerava ainda mais as batidas do seu coração. Logo, logo, se desesperou com tantos estranhos e se preparou para sair correndo quando ele, com seus olhos verdes, sorriu e disse:

- Que bom que você veio...

Mesmo com uma inegável timidez, ele falava e falava e falava e ‘sem querer’ roçava seu braço no dela. E quando o assunto acabou, ele chamou-a para dançar. E ela dançou. E ele beijou a pontinha do seu nariz. E ela se assustou. Mas, desarmada, sorriu, deixando que aquela noite a levasse para qualquer lugar.

O óbvio se tornou supremo, e o beijo, longo e ansiado, pareceu eterno. E foi. Eterno como um filme que permanece na memória. O beijo que selou o romance de noites e mais noites a fio. Esses romances com os quais ela sonhava, que cansam os corpos e revigoram a alma.

De repente, sem muita explicação, os dias passaram a fazer sentido e os sorrisos nervosos se transformaram em longas gargalhadas sob os lençóis. Ela não pediu nada, não o escolheu. Deixou a vida tomar seu rumo e por carência, loucura ou admiração, percebeu-se apaixonada.

Entre idas e vindas, a estória foi sobrevivendo, frágil e calejada, às constantes ausências. E ela, que já não era mais ela - ou talvez outra ela, entre tantas elas que coexistiam dentro dela mesma, uma ela que ela não reconhecia - o esperava e o acolhia cada vez que ele voltava. E a cada volta, um encontro ardente, uma tentativa de se construir algo além do belo.

A paixão se transformou em amor, tão puro e tão constante, tão grande e tão perene, que nem ao menos pôde notar quando ele começou a não voltar. Sim, ele voltava para sua cama, mas uma parte dele estava ausente, sabe-se lá onde.

Com a mesma rapidez com que ele surgiu em sua vida, ele se foi e fechou as janelas que abriu com tanta insensatez. E novamente ela caiu, e novamente ela chorou, e novamente ela começou a buscar o que nem ao menos ela sabe o que pode ser...”

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Não pense em Lívia III (ed.21)



Rodrigo Novaes de Almeida (texto) e
Igor Alecsander (foto)



A sua ausência dilacera.

A dor permaneceu durante todos aqueles dias de setembro. Não era uma dor física, embora o seu corpo sofresse espasmos recorrentes. Lívia não dava notícias há dois meses e ele não conseguia mais ultrapassar o estádio de eras para contemplá-la. A forma de Lívia dar notícias era o pensamento dela nele. A forma de ele contemplá-la era seguir o rastro do pensamento nele dela.
Veio outubro, em marcha orgânica das terras do mundo, e a dor transformou-se em estuante desejo de possuí-la de acordo com a brutalidade da sua essência decaída. Mas Lívia parou de pensar nele. Ele perdera o contato, o rastro. Perguntava-se se novembro chegaria e teve um novo espasmo. Deitou-se.

- Estamos em guerra, porra! Eles voltaram. Desta vez trouxeram o Filho do Homem que há de ser crucificado um dia. O filho-da-puta é arrogante. Tomou para si o trono. Diz que é o novo rei; gritou Miguel, entrando na tenda ainda com a espada em punho e o rosto cheio do sangue daqueles que tombaram em batalha.

- Rei? Ele se diz rei? Eu sou o Príncipe Absoluto. Eu sou o Primeiro.

- Sim, meu senhor! E jamais se proclamou rei...

Lucifere levantou-se. Os espasmos aumentaram. Cambaleou.

- O que foi?; perguntou Miguel.

- Nada.

- É ela, não? Lívia? Ela desapareceu...

- Não quero falar dela.

- Ela faz isso de propósito. Quando chegar o dia, eu mesmo a matarei.

- Miguel, se você fizer isso eu cuidarei que você sofra todo o mal que você cometeu nessas terras.

- Eu não a matarei, você sabe, mas não suporto vê-lo assim.

- Você é um babaca mesmo. Lambia o rabo d’Aquele todo tempo e agora quer lamber o meu também. Chega! Vamos à guerra. Onde está o reizinho arrogante? Quero falar com ele.

Saíram os dois. A noite estava clara. Eram milhares de fogueiras humanas. As legiões de Lucifere queimavam a terra novamente. O céu estava aberto. Uma fratura que saía de Sirius, cortava Aldebaran e terminava nas Plêiades. Arcanjos atravessavam a fenda na direção da torre. Tinham ordens para destruí-la.

- É ele, senhor. O da direita. Mata como o pai, mas é apenas um bastardo.

- Ele não é apenas um bastardo, Miguel. Você se engana.

- Sim. Como a sua Lívia? São humanos...

- Estou cansado de você. Lembre-se disso. Posso arrumar outros generais como você ou melhores.

- Duvido.

- Vou até lá.

- Vou com o senhor.

De repente um estrondo. A torre caiu por terra. Milhares dos bastardos foram soterrados. Miguel sorriu.

- Filho do Homem?!, bradou Lucifere.

- Irmão, há muito espero... disse o Filho do Homem.

- Não somos irmãos; cortou Lucifere.

- Ora, ora. Porque sou um bastardo? Porque sou o deus humanado?!

- Você não nasceu ainda.

- Não nasci, de fato, ainda.

- E veio então sentir o gosto de sangue; ironizou Miguel.

- Caro Miguel, o traidor. Como está?

- O que você quer? Vieram me contar que você se autoproclamou rei; cortou outra vez Lucifere.

- Eu sou uma das três pessoas...

- A velha história da trindade; interrompeu Miguel.

- Não reconheço o pai no filho, muito menos o filho no pai; declarou Lucifere.

- E eu não acredito em fantasmas, muito menos santo, como esse tal de espírito santo outorgado... Lutaremos, enfim?; disse Miguel impaciente.

Silêncio. A fenda se fechou sem o soar dos clamores. Então Lívia pensou em Lucifere. E Lucifere tombou. O Filho do Homem sorriu.

Miguel colocou-se entre os dois e perguntou:

- O que aconteceu?

- Leva seu senhor daqui e diga a ele que temos Lívia. Diga também para ele se preparar, porque o Filho do Homem nascerá um dia. Até breve, meu pobre Miguel.

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Aos pés da bailarina (ed.20)



Alice Albuquerque (texto) e
Fábio Reoli (foto)



O que ha nos pés de uma bailarina que não circule pelo seu corpo?
São flores que vejo brotar de seus poros?
Não se vire assim tão distante de mim,
pois a dor aflita me lembra a falta que você me faz.
Em uma posição de vencido eu me esforço para não me lembrar de você.
Pela minha boca meu chamado escorre ate descansar sobre as minhas próprias mãos.

Faminta!... continua a amar o palco.
Devora cada centímetro ate se deparar com o meu lugar .
A entrega não tem face, abusa da minha índole, me chama para te odiar.

Despautério de mulher!!
Usa de um quê de ousadia para permear por entre as pessoas.
Movimentos redondos, sentimentos antagônicos.
Despautério esta mulher!
Que diz que me ama.
Que diz que me quer, sem fazer uma força qualquer.
Que enxergo nesse teto de espelho.
Que respiro neste lençol marcado.
Ah! Mas que provocante este seu olhar, me traz uma luz que não vem a mim iluminar.
Sucumbe meu desejo a um fio por arrebentar.
Quebra-me ao meio e me pede para ficar.
Te odeio, te renego, me esquivo para não te matar.
Despautério de mulher, por que?
Por que o maldito destino veio permitir te encontrar??
Por que tenho que ser eu a morrer por te amar?
Despautério de amor por ti mulher.

São olhos fechados estes seus.
Respiração quase nula essa minha.
Meus cabelos cobrem pouco a nuca.
Seus dedos percorrem as curvas.
Da sua boca não sai um chamado e dos meus ombros não caí nenhum cansaço.
Minhas pernas conversam.
E seus dentes buscam.
No seu corpo há ternura e nas minhas costas só doçura.
E assim não cabe final, nem espaço.
Há de haver cravado no Éden um registro findado proclamando qual é cura.
Pois não é verdade que entrega é vergonha e amor loucura.
....perdido aqui entre cadeiras, no frio escuro da platéia, esquecido, espero poder descalçar-lhes as sapatilhas hoje.

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A aula (ed.19)



Barbara Cunha (texto) e
Zander Catta Preta (foto)



“Estavam encostados em um canto do quarto. Todos experimentavam um misto de delírio e torpor. Drogas, bebidas. O que mais poderiam fazer a não ser isso? Serem loucos, fortes e unidos. Contra todos, contra o mundo injusto, contra aquela dor e todas as mentiras, contra tanta doença, tanta podridão. Eram cinco. Ela, três amigas e o amigo gay. Todas as mulheres têm um amigo gay. São os preferidos, os melhores e mais queridos.

Era inverno e ela estava deitada numa colcha. Tinha os pés frios. Não sabia ao certo onde acabava seu corpo e onde começava o mundo. Era uma coisa só. Inteira. Essa esquizofrenia da solidão. A solidão maior, aquela solidão que se faz perceber quando se está rodeado de tanta gente... Começa a prestar atenção e ver que mesmo estando tão amarga e triste, conseguia ver a beleza da cor púrpura da rosa no vaso. E via o azul cristalino dos olhos do amigo gay. E do azul ela também via o verde-azul do mar, nas remotas lembranças... Zumbidos e gargalhadas. Começa a prestar atenção nas conversas. Lembra de alguma coisa, não tudo, mas lembra quando uma delas perguntou ao cara:

Preciso que você me ajude.

Eu?!

É... Preciso que me ensine a dar o cu...

Silêncio. Uma outra não agüenta e cai na gargalhada. Surreal demais aquela pergunta...

- Ahahahahahahah !!!!!! Tá louca!? Oxe, menina, essas coisas a gente num ensina não...

Mas claro que ensina! Ele faz isso sempre! E gosta, né? Eu tento, tento e nada. Dói pra caralho... se me permitem o trocadalho do carilho... Eu sei que tem que ter um jeitinho certo porque senão, se não fosse tão bom, não tinha tanto frango no mundo.

Mas você quer saber o que?

Quero que seja bom.

Mas bom pra quem? Tem que ser de quatro. Quer dizer... Bom pra quem?

Pros dois... Mais pra mim, na verdade... Não, pra ele também, pros dois! Olha, eu tentei uma vez e não gostei muito. Foi tipo um presente que dei, sabe? Mas depois, uma amiga disse pra tentar de ladinho, com o cara mexendo na gente, masturbando, devagar..., sugeriu a quarta menina.

É mesmo? Nunca tinha pensado nisso... Tá vendo como é bom conversar! Vocês ficam aí cheias de queijo, cheias de frescuras, com vergonha dos papos, mas eu bem sei que se eu não aprender a dar o cu, outra vem e dá! E quem dança sou eu que perco o meu homem!

Minha nossa... Num to acreditando nessa conversa...

Mas olha, de quatro, é bom pra quem come. Mas num tem jeito, se o pau é grande e grosso, vai doer um pouquinho... Num tem conversa!

Que merda, quer dizer que pra segurar o namorado, tem que dar o cu e pra dar o cu, tem que arrumar macho de pau pequeno?! Que merda complicada...

Pelo amor de Deus, não espalha por aí que tô te ensinando essas coisas, bibi...

Que frescura... Deixa comigo, tu num ensinou quase nada mesmo. Meu marido tem rola grande, num deu em nada essa conversa...

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Não pense em Lívia II (ed.18)



Rodrigo Novaes de Almeida (texto) e
Autor Desconhecido (foto)



Henrique nada disse. Beijou Rosário, deu-lhe um tapa na face esquerda, virou-a e penetrou seu rabo com violência. Em poucos minutos, tirou o pau fervendo daquele cu, puxou a cabeça de Rosário pelos cabelos, forçou com uma das mãos que abrisse a boca e despejou seu e s p e r m a lá dentro. Depois acendeu um cigarro, enquanto o corpo de Rosário jazia saciado no chão.

Lívia tocava-se, deitada em sua cama. Lucifere observava aquele ser sem metafísica. Ela sabia que ele estava ali, embora não pudesse vê-lo. Estavam separados pelo tempo, cada qual numa dimensão que distavam eras. A impossibilidade de possuir aquela mulher aumentava a cólera de Lucifere. Lívia era o seu objeto de desejo primevo. Os bastardos ainda levariam séculos para reconstruir a torre. Haveria uma nova guerra. Miguel continuaria a carnificina e os estupros de corpos. E Lívia, bem... Lívia gozava, gozava sabendo-se encarada pelo famigerado de muitos nomes. Mantinha-se na castidade m a s t u r b a t ó r i a, pura como a Virgem Santa, puta como uma Rosário de seus delírios noturnos, em sua pulsão de martírio diante do olhar vermelho de Lucifere.

- Vejo que a contempla outra vez; é a voz de Miguel atravessando as eras.

- O que faz aqui? Veio me perturbar?

- Não, senhor. É urgente. Está para nascer um profeta, um tal de Jeremias. O que devo fazer?

- O que deve fazer? Ora, Miguel, o que deve fazer?

- Sim. Veio mensagem d’Aquele. Ordenou que o senhor tentasse o pobre diabo de todas as formas. Vai desobedecer a ordem?

- Aquele filho-da-puta não presta. Verme maldito!; vociferou Lucifere.

- O que faremos?

- Faça o trabalho!

- Matar os filhos, estuprar as esposas e filhas; disse Miguel com escárnio nos lábios.

- O que mais você faz nessas terras imundas?

- Tudo bem. Farei o serviço...

- Fará o serviço com enorme prazer, sabemos muito bem. Agora vá!

- Vou. Mas não demore. Lembre-se de que é preciso retornar ao sentido da ação. Não pode, logo o prior do mundo, perder-se em devaneios; disse, desta vez soturnamente, Miguel, e completou, antes de ir embora, como se dissesse apenas para si: esta mulher será, um dia, a ruína de todos nós.

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Fusão (ed.17)



Roberta de Felippe (texto) e
Luiz Carlos Carvalho (foto)



Cada vez que ele tentava beijá-la, ela recuava e depois provocava ainda mais, olhando fixamente em seus olhos enquanto contornava a boca entreaberta com a língua. Ele sorriu, encostou no batente da porta e deixou que ela caminhasse até a cama, para depois se deitar de costas, fazendo com que o corpo dele todo tremesse ao reparar em cada curva do dela ali, à mostra. Não demorou muito para que ela começasse a se tocar, agora mantinha os olhos fechados enquanto acariciava com calma o próprio pescoço, descendo a mão para o colo e logo em seguida para o meio dos seios firmes e de bicos duros que pareciam convidá-lo para tocá-los também. Sentiu-se tentado, mas não se mexeu, continuou observando cada movimento do corpo dela, que agora se contorcia todo enquanto ela levava a outra mão para entre as coxas, soltando um leve gemido ao encontrar a carne úmida e ao mesmo tempo quente. Abriu os olhos devagar, encarou-o de um modo tão sexy que dessa vez ele não resistiu.

Colocando-se sobre ela, pôde sentir seu coração batendo acelerado próximo ao dele. Sentiu também o perfume discreto em sua pele, que combinava perfeitamente com o cheiro de seus cabelos, confundindo-se com os pêlos do peito dele. Afastou então seus cabelos com o nariz, para poder roçar os lábios na orelha dela, sussurrando confissões de excitação. Beijou-a na boca. Foi um beijo molhado, com vontade e demorado, que depois percorreu todo o caminho do queixo até o umbigo, entre mordidinhas, lambidas e gemidos. Chegou a uma das coxas e a apertou com força, o que fez com que ela afastasse a outra com um movimento automático. Com a boca entre as pernas dela, sentiu seu gosto doce e explorou-a com a língua firme. Ela segurou sua cabeça e, apoiando as duas pernas na cama, forçou-a contra seu corpo, fazendo com que o dele latejasse de desejo ao senti-la molhada. Voltou à sua boca, para beijá-la dessa vez com serenidade. Sentiu seu abraço forte, depois apenas as pontas de seus dedos percorrendo-lhe toda as costas, então segurou seus pulsos e repousou seus braços ao lado do corpo, forçando o seu contra o dela, encaixando-os naturalmente. Segurou a ponta da orelha dela com os dentes, deixando escapar um gemido a cada vez em que ambos mexiam as cinturas, um sentindo o corpo do outro: o dele latejava, rijo, enquanto o dela quente e molhado sugava-o cada vez mais. Soltando suas mãos das dele, segurou-o pelo cabelo e fez com que descesse a boca até um dos seios, sentiu sua língua contornando o bico e isso fez com que ela aumentasse a velocidade dos movimentos, agora cruzando as pernas e se entregando ainda mais. Envolvido naquele clima de desejo incontrolável, ele tentou se segurar para prolongar o momento, mas só conseguiu até que ela estremeceu e gemeu alto - então sentiu que ia explodir dentro dela. Os corpos encaixados, movimentando-se até então incessantemente, aos poucos foram se acalmando. Com a respiração mais amena, ele a encarou sorrindo e voltou a beijá-la, desatento ao tempo. Ela, por sua vez, acariciou seus cabelos com ternura e assim adormeceram, ainda como se fossem um só.

O dia amanheceu quente, ela tentou encontrá-lo na cama sem sucesso. Talvez estivesse no banho. Pela fresta da janela, pôde ver os pássaros que se reuniam nos galhos da laranjeira no jardim. Pensou em depois comentar com ele como tudo parecia tão perfeito, mas poderia estar sendo boba demais e ele provavelmente não acharia graça em seu romantismo. Levantou-se na intenção de preparar-lhe o café, mas foi surpreendida pela bandeja já ao lado da cama. Ele entrou no quarto com uma timidez que ela desconhecia, ajoelhou-se aos seus pés e ficou observando-a se deparar com o objeto entre a xícara de leite e uma rosa. Quase sem acreditar, ela sentiu uma lágrima rolando quando ele abriu com cuidado a caixinha e lhe ofereceu a aliança. Descobriu, então, que não apenas seus corpos formavam a combinação perfeita - suas almas também.

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A porta (ed.16)



Rodrigo Novaes de Almeida (texto) e
Paulo Salerno (foto)



O meu nome é Augusto e eu já tive relações sexuais com a minha irmã, pelo menos penso que sim.

Não sou um desmemoriado. Acontece que a memória é pródiga em nos pregar peças, grande enganadora que é. Pensando bem, nunca tive algo de incestuoso com a minha irmã, embora a lembrança daquelas horas de gozo intenso seja bastante real.

O leitor não deve ficar impressionado comigo. Saiba que eu sou um bom cristão, enamorado de Nosso Senhor Jesus Cristo e temente a Nosso Pai Misericordioso. Não faço aqui uma confissão, como muitos acreditariam em suas primeiras impressões a meu respeito, ou mesmo mais tarde. O que eu busco é a compreensão daquele si mesmo em permanente elaboração, necessidade pétrea de homens a quem a superfície não basta.

Há mais de mim muito além do que eu penso ser, o que eu sou é processo iminente de descobrimento, diz o tipo de humanidade que se reconhece em mim, ainda que inacabada.

Não. Não era a porta da casa, seria simples demais. Era a porta do imponderado. Atravessá-la e desvelar a lógica guardada naquele anfiteatro seria um risco enorme à pequena razão, significaria o estilhaçamento do indivíduo, caso tivesse uma mente fraca. Não era o caso. Sabia.

Na folha do recado em minhas mãos havia figuras geométricas complexas, resquícios da primeira infância, formas em papel cortado colocadas sobre a incubadora para distrair o recém-nascido. Mal sabiam, porém, tratar-se de uma técnica experimental para injungir equações plexo-mnemônicas intuitivas, responsáveis pela cognosciência de totalidade. Ou, de forma mais simples, essas figuras foram gravadas no inconsciente e são responsáveis por tornar-me capaz de apreender a totalidade da existência através de uma intuição sofisticada, intuição que é apenas um outro nome para uma inteligência que escapa à razão comezinha da nossa consciência.

Essas figuras ficaram conservadas naquele anfiteatro e, atualmente, percorrem os mais remotos estádios da mente potencializando-a. Agora, o aviso. Cuidado com a porta.

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Observatório (ed.15)



Bárbara Cunha (texto) e Andréa Paes (foto)


”Na casa dela, quando ela ainda era menina, as janelas eram amplas e se via uma cidade inteira. Uma cidade quase tímida, sem exorbitantes construções e sem o caos das vias expressas com seus automóveis apressados. Só a cidade clara, sem sombras, rachando com o sol.

Ela lembra da imagem daquele mar verde azul. Olhava para o oceano para matar o tempo animal. Veneno. Para explicar como, ao lado de tanto azul, tanto sol, um monstro tão feroz sobrevive e a devora. Ela, animal também, como esse tempo que não existe.

No outro lado da rua, morava uma menina que tinha uma imagem colada na janela e que ela não conseguia ver. Parecia uma fotografia antiga, em preto e branco. Mas ela não conseguia ver. Ela via aquela moça estranha e linda, deitada na cama, lendo um livro e chorando copiosamente. Durante muito tempo, essa menina lia livros e mais livros e chorava a cada leitura. E ela olhava pela janela e via a menina e queria saber que livros eram aqueles e por que tamanho lamento. A menina lia até cansar de chorar e deixava acesa uma luz quase vermelha a noite inteira. Pesadelos? Menina que chora na outra janela. Todas as noites, ela via a menina que parecia com ela mesma, como que refletindo em um espelho as mesmas angústias.

Através da janela, ela se perguntava se a menina também não olhava para ela, nos momentos em que ela se maquiava em frente ao espelho, ou quando trocava de roupas e passava perfume nos punhos, cheirando aquele elixir com doçura e espalhando aromas pelos ares. Ela que queria tanto saber por que a menina, tão bonita estava sempre chorando. Como ela. Sempre chorando. Triste e silenciosamente. Naquela idade ela já podia sentir em seu coração o princípio do que seriam suas dores futuras.

Tanto tempo passou e ela acredita que a menina, ainda lendo com a mesma fome, séculos de jejum, continua em sua cama, sob o vermelho quase vermelho da luz, lendo e chorando sem saber por que. Como naquela metade de tarde quando o crepúsculo se encontrava obtuso e pálido... As meninas são tristes. Mesmo quando felizes, continuam chorando, escondidas em quartos com luzes de todas as cores ou na frente das pessoas que passam sem perceber.

O mar agora é de lágrimas. Como a menina, como ela, como outras milhares de meninas, que se deixam tomar por uma explosão de dor e simplesmente deixam de acreditar. Perdem os sonhos e deixaram os olhos no reflexo dos rios, onde lágrimas escapam, gotejando nas águas sujas daquele lugar. O que essas meninas procuram? Dentro de si, no âmago da alma? Ela não faz idéia. Não se sabe muito bem o quê ela mesma procura. Mulheres e meninas de chuva e sal, todas, qualquer uma, por perto, ao lado dela.

Chega a pensar, ela, mera delirante, no destino das coisas móveis. É assim, é bem assim, como se o vento - mágica que move o ar - esfriasse seu corpo cansado e ela visse de óculos escuros na noite negra, uma resposta ao que não foi indagado. Ele, o homem, o mundo, as banalidades da vida, as perdas, até mesmo os ganhos. Ela procura por algo, elixir, que é a soma concreta do prazer com o desespero.

Mais velha, em outra janela, percebe pequeninas cenas corriqueiras e desinteressantes. Ao lado, um cachorro dorme enquanto seu dono assiste a tv. Mais acima, um casal de velhinhos abraçados conversa. Quanto mais ela observa, mais ela percebe as lágrimas dos outros e este luto por algo ou alguém que ainda vive. Quase cru, quase carne, em carne viva.

Ela é capaz de compreender e de ver a tristeza arrebatadora, mesmo quando as pessoas fingem uma efêmera felicidade, uma felicidade induzida por sorrisos amarelos, drogas, álcool, bolinhas alucinógenas... Pode perceber a expressão aflita. Ombros pesando toneladas. E para as perguntas não que ainda não aprendeu a fazer, não existem respostas. No nada há tudo. O que restava a ela era descrever o rosário de lágrimas encoberto pelos sintomas de desconforto subtraído das íngremes tragédias. Talvez devesse encobrir em terror sólido este manancial de venturas... Ou desventuras...”

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Pé na estrada (ed.14)



Alice Albuquerque (texto) e Igor Alecsander (foto)


E foi assim quando fechei os olhos, vi a nossa estrada sem fim, algum...sem direção ou local de chegada. Ela parava ate aonde a vista alcançava, não era engano não, mas ela só seguia se arriscássemos ir adiante.

Não havia muita chance, como em um deserto... não havia chance para uma vida. As placas nos negando qualquer informação. Miragens fabricadas no auge do desejo de nos deitarmos escondidos nos oásis sobre as sombras, velados pela brisa e protegidos pelo silêncio quente.

Mas o céu tão justo e azul sobre nós, não bastaria para nos confortar?...talvez um pouco mesmo sendo o infinito. E mesmo assim eu quis.

Quanta coisa pra dizer, tanto para viver...e me faz pensar de novo, se chegar perto seria suficiente ou se deixar seria algo bem mais coerente.

Mas a vontade não mente, vem de uma forma que bate forte ensurdece.

Sufoco, transpiro e não consigo segurar essa minha ventania. Me entrego a esta estrada descalça suportando o asfalto quente, e estendo a minha mão para você. Num aperto forte você me convida a acreditar ser tudo possível, enfrentar a dor e as mazelas do mundo.

Seguir confiante de cabeça erguida sem titubear diante tantos gritos de “insana”. Tinha seus dedos entrelaçados aos meus, o céu azul e justo sobre minha cabeça, tinha esperanças. Uma guerra louca travada me perturbava e em flashes os planos futuros vinham refrescar a sede que um sorriso contém. Surgia ai a disponibilidade de matar se necessário o que me impedisse, experimentei o lugar do réu porque não lhe via sentado ao júri. Mas você tropeçou e chamou com um olhar para os lados a insegurança. Pediu socorro para julgamentos alheios e se esqueceu de me perguntar mesmo eu estando tão perto.

E de olhos abertos vi a mesma paisagem, sem retoques e era real. O caminho era duro.

...mas você já não estava mais de mãos dadas comigo. Seguia sem despedidas já distante, na proteção do seu carro. Rápido, mas do que veloz, confortável e sem acenar. Me deixou no silêncio lembra?...o corpo na chama da solidão, com bolhas que não estouravam mais somente na sola dos pés...mas na parte mais profunda aonde a dor saía no torpor da fraqueza. Um caminho longo mesmo que sem continuidade à vista. Mãos vazias e o decreto da indiferença.

Mas ainda restava o céu azul e justo sobre a minha cabeça, fielmente.

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Não pense em Lívia (ed.13)



Rodrigo Novaes de Almeida (texto) e Géssica Hellmann (foto)


Tornou-se Lívia no primeiro dia. Olho-d’água dentro de grota. Farejar incessante. O diabo das coisas. Suas asas. Aquele olhar repousado em mim. Eram dela. Ela dentro de mim. Eu dentro do olho-d’água de dentro de grota. O seu olhar repousado. Eram dela as asas desde o primeiro dia, desde o primeiro dia de Lívia quando Lívia tornou-se o diabo das coisas, o diabo carnal das coisas. Porque fora o próprio Satã quem definira o certo e o errado das coisas. Repousado ali, o próprio Satã, naquele diabo carnal das coisas, agora prisioneiro de Lívia, desde que Lívia tornou-se Lívia no primeiro dia.

Uma vez, em Babel, eu escavava meus ídolos e conspirava contra a baixa e sórdida obra magna da criação. Contudo, eram os homens incapazes de serem transformados. Não puderam voar. Construímos a torre, mas nem os sábios puderam convencê-los de que a torre também deveria ser elevada dentro dos homens, de que também o vôo se daria dentro e não unicamente fora. Então tomamos as suas mulheres e fizemos filhos nelas. Veio a guerra. E a terra fora a nossa casa durante tantas eras e a conhecíamos tão bem que não foi difícil expulsarmos os mensageiros d’Aquele para além do véu negro celeste. O bombardeio em Dresden, ciclos de séculos no porvir, parecerá pouco. Multiplicava-se o efeito de milhares de bombas atômicas, assim eram os nossos escombros. Nossas armas, as Fúrias. Éramos deuses naquele interfluxo na aurora dos homens. Devotávamos nossas preces a deuses ainda mais antigos e poderosos. Quanto mais percorrermos o caminho à origem, mais e mais poderosos serão os deuses, até a singularidade titânica, centelha primordial de todas as coisas, do diabo carnal das coisas investido em tudo de concebível em todos esses escoamentos de mundos, a derradeira piada.

- Que tal? Divertiu-se?

- Bebi todo o sangue que pude tomar como meu. Ainda tenho o gosto dele na boca. Estamos nos acostumando depressa. A carne investe seus poderes sem trégua. Só um deus perverso seria capaz de criá-la. Miséria. Será a nossa ruína, Gabriel.

- Pára com isso! Você começou a guerra. Você começou tudo, esqueceu? Violou as mulheres dos homens. Tentará o filho do homem um dia. Salvará a humanidade inteira quando Aquele se cansar de toda a perversidade. Pára já com isso! Não esqueça o seu nome santo. Você é Lucifere.

- Porra, Gabriel! Ela nascerá um dia também. Eu já farejo a sua presença. Ela me aprisionará e...

- Sabemos de tudo, e daí? Devemos nos divertir até lá. A matança hoje foi boa. Pratiquei atos dignos dos velhos deuses. Corrompi uma menina de oito anos...

- Basta, Gabriel! Não quero saber. Não quero saber coisa alguma. Estou cansado. Você é um filho-da-puta miserável. É mais pervertido do que Aquele. Agora eu vou deitar este corpo em algum lugar. Manda os bastardos reconstruírem a torre, nem que levem mais cinco mil anos, quero a torre reconstruída.

- Sim, senhor! Bom descanso. E não pense em Lívia.

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Amanhece (ed.12)



Bárbara Cunha (texto) e Lívia Santana (foto)


"Ela, só. A música, cubana. Transeuntes, fanáticos, loucos, amigos, perdidos. Ela, só. Ainda. Pede uma cerveja. Pouca grana, desemprego. Bebe rápido. Outra. Bebe rápido. Acende mais um cigarros. Mãos desajeitadas não sabem aonde parar e levam automaticamente o vai e vem dos tragos ansiosos. Ela, ainda só.

Levanta e avista um grupo de amigos. Cambaleia um pouco em meios aos bailarinos que floriam a iluminada Igreja barroca. O palco com seus personagens nus e dançantes contrasta com a pureza casta do catolicismo... O som contagia e ela quer dançar. Ela dança tão bem. Um amigo a leva rodopiando pela praça reluzente.

Acaba o show. Ela não quer voltar pra a solidão escura do quarto estrelado. Estrelinhas fluorescentes na luz sem luz, como sempre. Medo de não conseguir dormir. Medo de tomar todos os ansiolíticos e conseguir dormir. Depressão, carência, procura... Desde que seus sonhos afundaram, lentamente, machucando lentamente, homeopático, lentamente, cicatrizes abertas, lentamente.

Resolvem continuar madrugada adentro e tomar mais cervejas. Foram parar num apartamento de um dos amigos, no sétimo andar de um prédio numa dessas madrugadas iguais às outras. Bebem, fumam, fumam de tudo. Três mulheres, três homens. Seis amigos perdidos. Ela olha o rio que atravessa a cidade sem deixar rastros de uma possível devastação. Ela vê a lua gigante refletida e transformada pelo balanço da poluição. Chora na janela escondida e deixa o vento secar as lágrimas. Tem vergonha de sua fraqueza e de demonstrar a sua dor. Pobre menina triste, igual a todas as demais meninas, todas tristes. Ela se volta para os amigos e percebe que coisas sem nexo decoram a pós-moderna e demasiadamente colorida casa, meio mangue, meio pop, meio louca.

Lembra dele. Ela dá um gole no vinho pra disfarçar. Pensando bem, há uma dor igual à paz de espírito que a ausência dele traz. Um amigo massageia os pés da menina no sofá. A outra, dorme na rede, enquanto o orvalho revigora a terra. Friozinho agradável. O dono do apartamento é gentil e recebe a todos como um perfeito anfitrião. O terceiro amigo olha para ela sem muito saber o que fazer. Um ano, talvez mais, e ela não decide se o deixa consumar seu desejo ou se aposta na sincera amizade. Ele a chama discretamente e saem à francesa.

Todos percebem e calam tamanha insensatez, como quem nunca esteve presente no momento do sim. Momentos em que se esquiva do real. Ele dirige devagar, toma conta dela e de seu sono torpe. Ele erra o caminho. De propósito? Provavelmente.

Ele a leva para ver as primeiras pinceladas rosadas da manhã que nasce depois de mais uma noite desregrada. Ele a olha com voracidade e ansiedade. Ela não o ama. Talvez o ame agora. Naquele momento, o amor se torna necessário como o ar. Ele a abraça com força e suspira delicadezas em seu ouvido. Ela se deixa beijar. Ele é feroz e apressado. Ela fecha os olhos e entrelaça seus dedos nos dele, para que ele tenha a certeza, de que naquela madrugada, naquele instante de segundos aglomerados sem cronômetro, ele era bem vindo.

Ele abre os olhos; ela permanece com os olhos fechados. Eles se beijam mais uma vez. A luz do sol. Ele sorri, enquanto treme de medo e desejo, de calma e de embriagues. Ela sente uma lagrima descer, enfim, quando ele sussurra:

- Menina, quando eu te beijo, o dia amanhece..."

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