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Comportamento geral (ed.20) - Albert Salgado
Há alguns meses tive o prazer de acompanhar um período da gravação do novo trabalho de Daniel Gonzaga, que deixa seus versos fortes de lado para homenagear o pai, Gonzaguinha. "Comportamento Geral" reúne alguns clássicos que ficaram conhecidos na voz do pai e de outros grandes nomes da MPB.
Em 2002, no disco "Um banquinho, Um violão", homenageou o avô, Gonzagão. Ousou, deu a sua cara, rearmonizou clássicos transpondo do universo da sanfona para um violão influenciado pelo blues. Agora em 2007, Daniel construiu um trabalho de bom tom, em que sem dúvida vai satisfazer os velhos fãs do Luisinho do São Carlos e conseguirá conquistar novos seguidores devido à verdade com que consegue transmitir as palavras do pai. Um trabalho limpo e contagiante com um toque que somente o portador do legado Gonzaga poderia ter.
Pelo menos foi isso que senti quando cheguei ao Estúdio Verde naquele sábado à tarde, bem no intervalo do segundo dia de gravação. Clima tranqüilo, descontraído, além dos músicos alguns familiares. Quando começaram a gravar a seriedade tomou conta do lugar, tudo ficou intenso, a clareza e a amplitude que os versos de Gonzaguinha ganharam com a interpretação fizeram com que eu começasse a entender o porquê daquele disco estar sendo gravado. Aquela necessidade não cabia mais no Daniel. Ouvi a gravação das faixas Comportamento Geral, que dá nome ao trabalho, Gás Neon e Sangrando. Foi nesta última que senti a verdade do trabalho. Eu estava de cabeça baixa, parecia colado à cadeira. Silêncio absoluto de todos que estavam acompanhando na técnica. Ouvia a canção de maneira como nunca tinha ouvido antes, o clima ficou tenso. Quando levantei a cabeça vi que não era privilégio meu aquela sensação, todos que ali estavam tentando entender o que acontecia.
O disco será lançado em dezembro juntamente com o DVD. Um trabalho que, com certeza, vai fazer quem ouvir em casa, em um momento único, darem toda atenção que o poeta merece, e sem duvida, ter a mesma emoção que tive dentro do estúdio.
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Pra ninar? (ed.18/19)
O cinema foi a expressão artística que
teve uma rápida evolução num curto espaço de tempo. Pudera, a sétima arte foi
criada no olho do furacão de todos os acontecimentos que marcaram a passagem
do século XIX para o XX! Na Europa, ou mais precisamente na França, a pluralidade
de tendências filosóficas, científicas, sociais e artísticas, com suas boemias
literárias nos famosos cafés (onde se podia ouvir músicos como Erik Satie) propunha
um campo fértil de discussão cultural. E foi na França, dentro de um café (o
‘Grand Café’, em Paris) que em 28 de dezembro de 1895 aconteceu a primeira exibição
cinematográfica. O cinema cresceu de uma forma tão rápida que no ano seguinte
(1896), aqui no Rio de Janeiro, na Rua do Ouvidor, é inaugurado o ‘Salão Paris’, a primeira sala de cinema regular do país.
Nossa cinematografia começa a partir de 1997, onde Cunha Salles registra o primeiro filme nacional na seção de Privilégios Industriais do Ministério da Agricultura, no Rio de Janeiro, seguido pelo filme de Afonso Segreto chamado "Fortaleza e Navios de Guerra na Baía da Guanabara" em 1998.
Vocês acreditam que no Brasil já aconteciam filmes cantados e falados no início da década de 1910? Em pleno período do cinema mudo, Cristóvão Guilherme Auler e Francisco Serrador, escondiam artistas atrás das telas que acompanhavam com a voz a movimentação das imagens.
Outros artifícios eram criados para que os espectadores não cochilassem durante a seção: como o filme era mudo, músicos eram convidados a tocar durante as exibições. E um deles era Ernesto Nazareth. Esse grande compositor e pianista, conhecido por seus famosos “tangos brasileiros”. Ele tocou durante algum tempo no “Cine Odeon” – cinema localizado na Cinelândia, no Rio de Janeiro, inaugurado em 3 de abril de 1926 – e a ele dedicou uma composição: um tango brasileiro chamado “Odeon” (esse mesmo que você está ouvindo em seu computador, em um arranjo escrito por mim, que também executo o violão, e da flauta e clarinete de Sérgio Cleto).
Como o século XX foi o século da velocidade, essa profissão se extinguiu com o advento do cinema falado, mas a música de Ernesto continua por aí... soando... seja nas salas de concertos ou em rodas de chorinho...
odeon.mp3
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O som do cinema mudo
(ed.16/17)
O cinema foi a expressão artística que
teve uma rápida evolução num curto espaço de tempo. Pudera, a sétima arte foi
criada no olho do furacão de todos os acontecimentos que marcaram a passagem
do século XIX para o XX! Na Europa, ou mais precisamente na França, a pluralidade
de tendências filosóficas, científicas, sociais e artísticas, com suas boemias
literárias nos famosos cafés (onde se podia ouvir músicos como Erik Satie) propunha
um campo fértil de discussão cultural. E foi na França, dentro de um café (o
‘Grand Café’, em Paris) que em 28 de dezembro de 1895 aconteceu a primeira exibição
cinematográfica. O cinema cresceu de uma forma tão rápida que no ano seguinte
(1896), aqui no Rio de Janeiro, na Rua do Ouvidor, é inaugurado o ‘Salão Paris’, a primeira sala de cinema regular do país.
Nossa cinematografia começa a partir de 1997, onde Cunha Salles registra o primeiro filme nacional na seção de Privilégios Industriais do Ministério da Agricultura, no Rio de Janeiro, seguido pelo filme de Afonso Segreto chamado "Fortaleza e Navios de Guerra na Baía da Guanabara" em 1998.
Vocês acreditam que no Brasil já aconteciam filmes cantados e falados no início da década de 1910? Em pleno período do cinema mudo, Cristóvão Guilherme Auler e Francisco Serrador, escondiam artistas atrás das telas que acompanhavam com a voz a movimentação das imagens.
Outros artifícios eram criados para que os espectadores não cochilassem durante a seção: como o filme era mudo, músicos eram convidados a tocar durante as exibições. E um deles era Ernesto Nazareth. Esse grande compositor e pianista, conhecido por seus famosos “tangos brasileiros”. Ele tocou durante algum tempo no “Cine Odeon” – cinema localizado na Cinelândia, no Rio de Janeiro, inaugurado em 3 de abril de 1926 – e a ele dedicou uma composição: um tango brasileiro chamado “Odeon” (esse mesmo que você está ouvindo em seu computador, em um arranjo escrito por mim, que também executo o violão, e da flauta e clarinete de Sérgio Cleto).
Como o século XX foi o século da velocidade, essa profissão se extinguiu com o advento do cinema falado, mas a música de Ernesto continua por aí... soando... seja nas salas de concertos ou em rodas de chorinho...
odeon.mp3
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Tirando a cartola
(ed.14/15)Bate outra vez
Com esperanças o meu coração
Pois já vai terminando o verão enfim
Volto ao jardim
Com a certeza que devo chorar
Pois bem sei que não queres voltar para mim
Queixo-me às rosas, que bobagem
As rosas não falam
Simplesmente as rosas exalam
O perfume que roubam de ti, ai
Devias vir para ver os meus olhos tristonhos
E quem sabe sonhavas meus sonhos por fim...
Você já ouviu falar do compositor Angenor de Oliveira? Não? E de Cartola?
Angenor de Oliveira (ou Cartola, como ficou mais conhecido) nasceu no Rio em 1908 e aos três anos foi morar no morro da Mangueira. Embora tenha estudado até a quarta série primária, Cartola é um dos mais importantes compositores de sambas do Brasil!
O primeiro desfile da Escola de Samba Estação Primeira da Mangueira, em 1928, foi sobre um samba de sua autoria chamado “Chega de Demanda”, composta aos 16 anos. Suas composições juntavam lirismo poético – para Carlos Drummond Andrade “Cartola sabe sentir com a suavidade dos que amam pela vocação de amar, e se renovam amando" – e uma belíssima construção melódica que chamava a atenção de mestres como Heitor Villa-Lobos (“A música, a melodia, o arranjo está tudo errado! Mas tudo é tão lindo”, dizia) e do Maestro inglês Leopold Stokowiski (você assistiu o desenho da Disney chamado “Fantasia”? Foi Stokowiski quem regeu a orquestra e contracenou com Mickey Mouse!).
Canções como “Acontece”, “O mundo é um moinho” e “As rosas não falam” (que você escuta em seu computador), gravada por Beth Carvalho nos anos 70 são algumas das criações de nosso compositor. Este é um verso de Cartola tirado da canção "Fiz Por Você o Que Pude" que celebra a vida de um homem que fez do samba e da música sua razão de viver:
"Continuam nossas lutas
Podam-se os galhos, colhem-se as frutas
E outra vez se semeia
E no fim deste labor
Surge outro compositor
Com o mesmo sangue na veia".
Porém, Cartola não foi bem sucedido economicamente. Em 1956, completamente no ostracismo, o jornalista Sergio Porto (ou Stanislaw Ponte Preta) encontrou-o lavando carros no bairro de Ipanema num botequim em frente à garagem Oceânica da Visconde de Pirajá. E só gravou seu primeiro disco em 1974 aos 65 anos de idade, com suas grandes obras. Em 1976 lançou seu segundo LP onde a faixa "As Rosas Não Falam" foi incluída na trilha sonora de uma novela da Rede Globo.
O compositor faleceu em novembro de 1980, mas sua obra continua viva e disponível pro nosso deleite. Sua vida foi eternizada no filme “Cartola – Música para os olhos”, dos cineastas Lírio Ferreira e Hilton Lacerda e suas canções continuam sendo gravadas pelos grandes nomes da nossa música.
Ah, pessoal, uma dica! Está disponível no “Porta Curtas” o curta metragem “O BRILHO”, em cuja trilha sonora está a música que eu compus “Brilho dos Seus Olhos”. Essa trilha ganhou o prêmio de Melhor Trilha Adaptada no Guarnicê de Cine e Vídeo 2007, no Maranhão e o filme concorre ao prêmio Porta Curtas. Assistam! Votem! Comentem! Espalhem!
as rosas não falam.mp3
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Primaveras A Valsa
(ed.12/13)
Eu freqüento há muitos anos, no mínimo uns 20, uma pequena cidade na região dos lagos do estado do Rio de Janeiro, chamada Barra de São João. Lá, o nosso poeta, Casimiro de Abreu, nasceu. A poesia de Casimiro reflete a sua infância. E eu também desfruto do "mar sereno", vejo o mesmo "céu bordado de estrelas" que o ele eternizou em sua poesia “Meus oito anos”. E entre ele e eu já se passaram quase 150 anos! No fim de uma noite maravilhosa que passei nesta cidade tive a idéia de fazer o filme “Primaveras”. Logo, levei a idéia ao meu amigo cineasta Bernardo Belfort, que escreveu um belíssimo roteiro, baseado no livro "As Primaveras", de autoria do Casimiro. Nosso filme é isso: a união da imagem da minha música à música das imagens do Bernardo. É claro que sem o apoio da Fundação Cultural de Casimiro de Abreu, representada pela secretária de cultura Soninha - que possui um compromisso profundo com a cultura e mergulhou na nossa viagem viabilizando financeiramente o projeto - e do povo de Barra de São João, nosso filme não seria realizado.
Esta canção, "A Valsa", serve de trilha sonora para uma cena em que o poeta (interpretado por Danton Melo) e sua musa (Claudia Lira) dançam.
Tocaram nessa canção:
Sérgio Cleto: Flauta
Fabiano Malafaia: Tenor
Ana Maura: Soprano
E eu, Rodrigo Marconi: teclados e programações.
Musicar “A VALSA” e outros poemas de Casimiro não foi difícil, mas foi bastante trabalhoso. O trabalho de um compositor, como o de um escritor, é bastante solitário. Mas vocês não imaginam a minha emoção quando um grupo de músicos de extrema sensibilidade transforma a partitura, até então um papel com um monte de bolinhas, em som. A música toma forma, cor, e uma interpretação verdadeira. Para um compositor não há nada mais gratificante do que a possibilidade de ouvir a sua criação.
Falar da cultura brasileira, dos nossos grandes criadores, de pessoas que se imortalizaram com a sua produção artística é uma forma de mantermos viva a NOSSA história. Que país tem um Vinicius de Moraes? Um Drummond? Um Pixinguinha? Um Tom Jobim? Temos o dever de valorizar e divulgar nossos artistas! Eles são a nossa história! Na minha opinião, o “Primaveras” foi a forma que nós encontramos de fazer isso..
Espero que gostem!
a valsa.mp3
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