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Baú dos Quatro

livia santana

- Em branco

- Ruído ao redor

- Vermelho

- Língua, lábios e dentes

Em Branco (ed.18/19)

diego
Diego Pale

Infiltrações

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mariana

Mariana Amaral
Camisa em branco

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pedro
Pedro Curi
Backspace

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renata


Renata Moraes
Cinza

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diegoDiego Pale
Infiltrações


sobre a minha sombra um corpo

eu não peço pra você sair porque eu te amo. Mas não consigo entrar no meu quarto e respirar – há um vazio pesado gasto muito mais do que eu posso

sobre o meu nome, fissura

...e se todas as paredes da sala estão manchadas de infiltração você que não repara pra deixar de pensar em branco tudo branco branco demais há uma espécie de veneno em tudo isso e não me force a engolir porque o cheiro de umidade

sobre a minha carne:

excesso.

aqui onde eu deito o universo se desfaz em lanhos coagulados; aqui onde eu deito o mundo é denso; aqui nessa cama de lençóis sujos, manchados, há uma vaga idéia de tudo que já foi – antes eu era um rei, um deus, eu não sangrava.

sobre o meu passado um quase

não há como repetir cada linha; os pedaços das paredes caem como mortos numa guerra; revela-se o interior manchado, destruído, comido... não há mais nada aqui /eu não vou me levantar da cama – resta apenas um ruído de água devorando o meu corpo por dentro.

sobre um branco desistido eu

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mariana Mariana Amaral
Camisa em branco


Eu quero uma camisa em branco, sem dizeres, sem emblemas. Uma camisa livre de estampas. Uma camisa livre de idéias.

Eu quero uma camisa que não me cobre coerência. Nem consistência. Nem compromisso.

Eu quero uma camisa isenta de opinião.

Eu quero uma camisa que se renove a cada lavagem.
Que não me faça repetir palavras de ordem cada vez mais encardidas e gastas.

Eu quero uma camisa que cale.

Eu quero uma camisa que brade silêncio.

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pedroPedro Curi
Backspace


linda,

bel,

isabel,

para mim é muito difíc

para mim é complicado escr

não é fácil esc

não sei como começar.

minha intenção não é te fazer chor

você sabe que eu te am

eu te

já são dois an

como eu posso começar?

não sei se deveria estar fazendo isso dessa form

não sei se deveria estar fazendo isso.

pode parecer covard

pode até ser cov

pode ser c

é muita covard

não sei como te dizer isso, então resol

antes de tudo, eu queria que você soubesse o quanto

você sabe que eu te amo.

nunca quiz t

nunca quis te amgoar

nunca quis te magoar.

mas magoei e sou um filho da p

nunca quis te magoar.

espero que um dia você possa me perd

eu te amo!

***
no fim, ficou apenas a página em branco a encará-lo.

julgando-o.

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renata Renata Moraes
Cinza



- O que que eu boto no de/para?

A pergunta o deixou meio surpreso. Primeiro porque sua cabeça estava em outro lugar. Nela, ele já tinha saído da loja, já tinha voltado para casa, já estava fumando o quinto cigarro à espera do telefonema.

- Perdão, o que foi?

- O senhor não quer cartão, mas não vai botar nem um de/para?

Ele não viu muita utilidade naquilo tudo. Podia ter embrulhado o presente num jornal que a reação que provocaria ía ser a mesma. Estava presenteando, provavelmente, a única mulher que não acharia o que estava fazendo nem bonito, nem fofo, nem qualquer um desses adjetivos que mulheres usam para falar sobre coisas românticas.

Ele não ía receber um sorriso e um olhar comovido.

Respirou fundo, olhou para a vendedora e -

- Moço, me desculpa a grosseria, mas é tão difícil assim inventar um nome para o "de" e me dizer o nome do "para"?

- Deixa em branco, por favor.

- Tudo?

- Sim.

- Inclusive o "para"?

Aquele presente não poderia ser para outra pessoa. Só ela poderia querer aquilo. E só ele poderia dá-lo. Só ela entenderia o recado. E ligaria para terminar tudo.

- Precisa ter mesmo essa etiqueta?

- Ela segura o laço...

- Não pode ser só com durex?

- Vai ficar feio.

- Deixa tudo em branco.

- Tem certeza?

Isso era a última coisa que poderia lhe bater no momento. Passou a semana inteira buscando alguma pista de que seria bem recebido (ou não). Sabia que o presente era a revelação de um segredo guardado quase sem querer. O que seria entendido com esse presente era a única coisa que estava muito clara e certa.

Mas, por trás de tudo, depois da revelação, certeza era um conceito que estava muito distante daquela história.

- Tenho. Tudo em branco.

- Ok. Então a entrega está programada para daqui a 40 minutos. Mais alguma coisa?

- Não, muito obrigada.

O telefonema não veio. Ficou a noite inteira fumando muito mais que cinco cigarros, esperando por uma resposta que ficou tão em branco quanto a etiqueta que prendia o laço.

Não era dessa vez que os dois se entenderiam.

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Ruído ao redor (ed.16/17)

carolina
Carolina Santoro

Quase noite

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mariana

Mariana Amaral
Rio de QUÊ?

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pedro
Pedro Curi


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renata


Renata Moraes
Nem tudo é ruído

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carolinaCarolina Santoro
Quase noite


Deito, mas não consigo dormir. Esses ruídos que vêm da sala não me deixam em paz, não me deixam descansar. Na verdade, são ruídos que vêm toda parte. Mas não adianta eu levantar, acender a luz e bancar a valentona. Os ruídos não cessam. E eu ainda tenho medo de desafiá-los, e eles crescerem ainda mais.

São barulhos leves, mas incômodos. Barulho de xícaras batendo, antecipando o horário do café-da-manhã, o barulho de alguém limpando a agulha da vitrola para o som sair melhor, de alguém batendo o barbeador na pia enquanto faz a barba no banheiro ao lado e do acendedor automático do fogão da cozinha.

Ruídos de saudades, ruídos dessas lembranças de tempos que não voltam mais. Eu poderia ficar na cama, e mesmo sem ter um relógio por perto, saberia exatamente que horas eram. Mas agora, esses ruídos me maltratam e me fazem chorar muitas vezes. E somente quando me fazem chorar, sinto que me dão uma trégua e parecem desaparecer por alguns instantes.

As torradas saltando da torradeira, uma forma cheia de massa correndo sobre a grade do forno. É quase a hora do lanche e as xícaras voltam a bater.

Esses pequenos ruídos estão em toda parte, e hoje eu não quero chorar, então fecho os olhos e tento não pensar em nada. E com os pensamentos em branco, fecho os olhos, faço força e durmo. Durmo mesmo sabendo que esses ruídos estão dentro de mim.

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mariana Mariana Amaral
Rio de QUÊ?


Vivo em uma cidade que desconhece o silêncio.

O Carnaval do Rio de Janeiro parece se diluir ao longo do ano, pulverizando em cada esquina um pouquinho - ou não tão pouquinho - de barulho. Em frente aos bares, cavaquinhos e violões, palmas, vozes. Os pandeiros só emudecem quando viram de cabeça para baixo para pedir, por gentileza, alguns trocados para o artista de rua.

* * *

"Deixa a vida me levar, vida leeeeeeeva eu..."

- Alguém LEVA de vez esse homem daí debaixo!
- Hã? Mas o quê...
- Não é possível que você não esteja ouvindo.
- Eu estava dormindo, amor. Você deveria estar fazendo o mesmo.
- Sim, deveria, mas esse cantor de boteco não deixa.
- São 9 da manhã, a essa hora o boteco nem abriu ainda...
- É, não abriu, mas o expediente do cantor pelo visto começa cedo!
- Volta a dormir, volta, meu bem...

* * *

Um casal senta em um banco em frente a um prédio. Ele chega com um ar grave; diz que precisam conversar. Ela chama para subir. Ele não quer, se desculpa. Ela não escuta. Num carro estacionado em frente alguém ouve pagode às alturas.

- Fala mais alto.
- Desculpa.

"Tô fazendo amor com outra pessoaaaaaaaaaa"...

Ela chora.

* * *

Quando penso em uma cidade maravilhosa, penso em calmaria, silêncio, paz e tranqüilidade. Mas a melodia da velha marchinha já me traz de volta ao real, a esse caos carioca de carnavalescos decibéis.

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pedroPedro Curi



Enquanto caminhava pelo longo corredor em direção a porta, podia ouvir o barulho das pessoas que gritavam, cantavam e riam. Sem ele. Decidiu ir embora sem se despedir.

Não queria interromper nada. Ninguém sentiria a sua falta, mas ele queria que sentissem. Tinha certeza de que nem notariam que havia ido embora.

Há muito tempo estava sozinho. Sempre estivera sozinho. A solidão não o incomodava mais. Às vezes.

Durante toda sua vida esteve cercado por um enorme número de pessoas. Ao fechar os olhos, no entanto, não restava nada além do ruído ao redor. Um barulho que tentava esquecer, o ar circulando entre os corpos que se movimentavam e que tocava seu rosto. Sozinho.

E se afastava. Como naquele momento, se afastava.

Não era a primeira vez que andava por aquele longo corredor sozinho. Até mesmo nos dias mais movimentados esteve sozinho. Sempre estivera sozinho. Mesmo com as pessoas passando por ele.

Enquanto se afastava dos gritos, das músicas e dos risos, enquanto caminhava mais uma vez por aquele corredor, pensava por que era tão sozinho. Pensava por que, mesmo com tanto barulho, sempre estivera só.

Com os olhos fechados, tentando esquecer o ruído ao redor, não se permitia ouvir as pessoas que gritavam seu nome. Sem ele.

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renata Renata Moraes
Nem tudo é ruído



Às vezes se impressionava com a própria capacidade de fugir de si mesma. Conseguia sentar em qualquer lugar e simplesmente não estar ali.

Bastava um pensamento forte o suficiente que todo o ruído ao seu redor era simplesmente sugado para um buraco negro que ficava entre a sua mente e o mundo exterior.

Costumava brincar consigo mesma que era um buraco com tampa, daquelas que navios a vapor ou trens tinham em cima da chaminé - ou pelo menos que ela tinha visto assim em desenhos animados. Aquela tampa que quando os motores eram alimentados para acelerarem, a fumaça saía com força suficiente para abri-la.

Era assim que funcionava seu buraco negro mental. Quando queria - e, freqüentemente, quando não queria tanto assim - a tampa se abria e tudo virava um filme mudo, como que uma paisagem para seus pensamentos irem para muito longe, mas continuarem presentes no ponto do espaço-tempo universal em que eles estavam na realidade.

Levaram-se muitos anos até descobrir que isso não acontecia com todo mundo. Que não era uma prática natural. Sua imaginação viajava um pouco além e um pouco mais freqüentemente do que era comum.

E daí para ser percebida como diferente foi um pulo.

Paciência. Ser normal não lhe parecia atrativo.

O ruído não voltava aos poucos, voltava como uma onda forte em dia de ressaca, assustando um pouco todas as vezes. Aprendera a controlar essa volta com reações controladas. Hoje em dia, ninguém percebia isso muito bem.

Era o tipo de coisa que só seria detectada por quem a tivesse muito perto. E eram poucos os que ela deixava chegar nesse ponto (embora todo mundo achasse que soubesse de sua intimidade).

Poucos escapavam ao buraco negro e ali, naquele mundo atual, começara a se convencer de que não esses poucos todos já tinham ido embora.

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Vermelho (ed.14/15)

carolina
Carolina Santoro

Vermelhices

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mariana

Mariana Amaral
Apfel

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pedro
Pedro Curi
das pequenas coisas

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renata
Renata Moraes
Jacuípe

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carolinaCarolina Santoro
Vermelhices


Vermelho.

Sobre vermelho, penso em sangue. Sangue, Cildo Meireles, touradas e bandeira da China. Mas posso pensar em amor e todos aqueles acessórios vermelhinhos que existem quando estamos apaixonados. Corações, rosas vermelhas, espumante e pôr do sol avermelhados.

A infância, com balões de gás, pirulitos e picolés de morango. Joelhos ralados, cor primária e giz de cera. O lápis vermelho é sempre o mais bonito de toda a caixa e a Chapeuzinho Vermelho foi devorada pelo lobo.

Muita dança sob as luzes vermelhas da festa, freio diante do sinal vermelho e o medo do botão vermelho que pode destruir tudo, ou que pode te libertar, no caso da emergência do elevador.

O fogo, os desejos, os lábios, morangos, cerejas, rubis, muitos rubis e muito vinho. O prazer, o luto, um coração esquerdo e o natal com o seu jingle bells. O vestido da Jessica Rabbit, penas de uma arara e as carnes dependuradas nas vitrines do açougue.

Mas quando nos cortamos, muitas vezes antes mesmo da dor, um instante antes da dor, vem o vermelho. O vermelho legítimo. O vermelho do sangue. E isso nos lembra que somos humanos, e que mesmo pertencendo a essa mesma espécie, somos diferenciados. Muitas vezes não nos comunicamos bem, mas apesar das diferenças, todos temos essa carne e sangue vermelhos que nos mantêm vivos.

Vermelho e viscoso.

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mariana Mariana Amaral
Apfel


Traveste-se fatal com o óbvio tecido encarnado, e sobe ao palco para outra noite sussurrando “standards” no piano bar. You give me fever, o colo arfante, os olhos semicerrados.

Diva.

Terminado o primeiro ato, o pianista acende um cigarro e ela segue para o bar. Tão logo escolhe o assento, um cavalheiro lhe oferece um drink. O martini chega com duas cerejas, e Mr. Whoever se perde na visão daqueles lábios rubros, daquela língua que percorre a taça, lascivamente perseguindo as cintilantes contas vermelhas.

- You're good at this.
- I can be bad at so much more, honey.

Volta para o segundo ato ajeitando uma nota de cem entre os seios.

* * *

Ne me quitte pas, o colo sôfrego, os olhos fechados em fúria. Interpretações tão intensas que os colarinhos se afrouxam para que se consiga respirar. Ela também tenta.

Sufocada de mentiras.

Não é diva. Não é puta.

Odeia vermelho.

* * *

Travestem-se fatais as maçãs, com a óbvia casca encarnada, embalando de rubi amargo o doce de sua polpa.

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pedroPedro Curi
das pequenas coisas


das pequenas balas embrulhadas em papel celofane escarlate abertas com cuidado para não fazer barulho e colocadas na boca bem devagar para não perder o momento em que a língua detecta o açúcar e as papilas gustativas se dilatam em um prazer quase infantil.

do caldo da melancia que escorre da boca de quem come com pressa como se quisesse saciar a sede para correr livre por um dia de verão.

do rubor no rosto da menina que encontrou o amor e sente o sangue percorrer seu corpo, aquecendo-o.

dos corações desenhados com caneta bic nos cantos das folhas de fichário durante as explicações do professor.

do batom de morango passado com o dedo sobre os lábios já vermelhos da menina que se faz moça para chamar a atenção.

do tecido manchado por quem não espera uma nova era que começou para muitas vidas que agora têm vez.

do semblante irado, em tom encarnado, gritos que pedem respeito e compreensão com braços frenéticos clamando um abraço - ou qualquer afago - que consiga mantê-los parados outra vez.

dos olhos molhados, inchados, de quem chora a falta, a desesperança e a mágoa típicas às desilusões.

do blush que cobre as bochechas daquela que um dia teve o rosto naturalmente corado pelo amor e inocência e que hoje se pinta para esquecer a dor e mostrar-se livre das tristezas que encontrou pelo caminho.

da rosa, da rosa entregue pela mão amada que deixa no braço a prova da força de quem não a deixa ir embora, mas, com muito carinho, aquece seu corpo e enche sua vida de cor.

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renata Renata Moraes
Jacuípe



O despertador tocou às 5h20 da manhã, mas seus olhos já estavam bem abertos. Gostava quando o despertador não era o responsável por acabar com seu descanso. Estar acordado antes da hora era só um sintoma das fases felizes de sua vida.

Significava que o dia que o esperava era melhor do que seus sonhos tinham sido.

Levantou com uma felicidade reforçada pelo alívio de estar se sentindo assim de novo. Tudo parecia gostoso naquela manhã. O amanhecer vermelho que ardia aos olhos de um pescador desacostumado; o cheirinho de café que aos pouco invadia a cozinha; os brinquedos das crianças largados na sala depois de uma noite de brincadeiras.

O sol tava forte. O vento também. O dia estava ácido, mas sua felicidade era suave como o laranja que aparecia só na pontinha dos raios no horizonte.

A felicidade comum era possível mesmo depois dos piores dias.

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livia Lívia Santana
Mosaico



Às quatro da madrugada, pubs podem ser extremamente melancólicos, em especial se é uma daquelas noites em que quantidades absurdas de álcool simplesmente resvalam e você se descobre ali, horas depois, dolorosamente sóbrio. É quando olha pros lados e percebe que além de você mesmo, há poucos desgarrados ainda sentados por ali, bebendo do gargalo da garrafa, aparentando não ter aonde ir.

Mas o bar não fechava mesmo e acabava sendo um refúgio natural pra seres insones e aturdidos como eu. O inesperado é que alguém destoante aparecesse por ali. Como ela. Enquanto todos nós éramos opacos e compartilhávamos a mesma cor indistinta e obscura, ela resplandecia. Os cabelos multicoloridos contrastavam imensamente com a pele iridescente de tão clara. Os olhos imensos, escuros e a boca muito vermelha que parecia poder provocar um vácuo, mal se abrisse, engolindo o mundo, a começar por mim mesmo.

Ela se aproximou do balcão sem se dar conta da minha presença pouco notável, ficou de pé nos estribos do banco de metal e se debruçou sobre o tampo de pedra fria. Imaginei o que sentiria a pele cálida tocada pela pedra fria e mal tive tempo de percorrer o corpo esguio por inteiro, ela apanhou a cerveja que o barman lhe estendia e saltou no chão, afastando-se agilmente.

Virei-me, desperto da minha letargia, para ver aonde ia a aparição de cabelos coloridos e surpreendi-me ao vê-la subir num palco acanhado e semi-oculto, apanhar um violão e sentar-se ante um pedestal com microfone. Achei que àquela hora apenas nós, nulos, estávamos acordados. Ela tomou um gole da cerveja, estalando a língua gostosamente. A tudo eu acompanhava de perto. Olhou pra mim e sorriu, revelando os dentes grandes como a boca, e muito, muito brancos. Por um segundo eu me imaginei num filme de Almodóvar e me vi entrando de cabeça dentro da boca abissal, sentindo os lábios muito vermelhos se fechando sobre mim, pressionando-me contra os dentes e acomodando-me sobre a língua quente.

E quando ia ser mastigado, a voz dela me despertou com os doces primeiros versos de Summertime. Eu ri comigo mesmo, sentindo a cerveja finalmente fazer efeito. E ainda tinha algumas horas antes do amanhecer.

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Língua, lábios e dentes (ed.12/13)

carolina
Carolina Santoro

Um Amor em Três Tempos

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mariana e diego

Mariana Amaral e Diego Pale
Ânsia de Vômito

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pedro
Pedro Curi
Na pista

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renata

Renata Moraes
Cais

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livia
Participação Especial de Lívia Santana
Mosaico

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carolinaCarolina Santoro
Um Amor em Três Tempos


Tempo 1: Lábios.

Olho para os seus lábios à espera de um beijo. Enquanto você fala, eu aprecio e o desejo de maneira [literalmente] encantada. As palavras ditas já não fazem mais sentido na minha cabeça e eu só penso em um beijo seu. Minha nuca quente e eis que chega o momento em que você me beija. E, nesse beijo de calor úmido e macio dos seus lábios, eu me conforto e permito querer mais. Cada vez mais. Me apoio em sua nuca, e de um beijo surgem vários e muitos outros e até hoje não consigo parar de te beijar. Beijos de despedida, reencontro, comemoração, reconciliação e de orgulho e felicidade. São beijos de lábios velozes ou lentos, ritmados, desencontrados, mas são sempre mornos. Sempre vivos. Mesmo quando os lábios secam de prazer em alguns instantes. Os beijos estão lá, sempre prontos para iniciar algo.

Tempo 2: Língua.

Após algumas taças de vinho, passo a língua nos meus lábios que estão secos. Interrompo a sua fala para tocar seus lábios. Os olhos se fixam, e você, sério, beija tranqüilamente meus dedos, enquanto eu fecho os olhos. Mantendo-os fechados, você beija meu pescoço e embaralha suavemente os meus cabelos. Silêncio. E com a sua língua sinto-me inicialmente beijada. Ah... Essas línguas que lambem os próprios lábios, os lábios do outro e que se encontram. Línguas que aumentam o desejo, que aquecem o corpo e fazem a alma pedir bis. Línguas que, com elas, parece que queremos sentir o gosto de algo que não tem gosto. Algo que se sente, mas que não se registra pelo paladar. Ou ao menos, nada de novo. Somente saliva.

Tempo 3: Dentes.

Seus dentes mordem suavemente o meu ombro, enquanto acordo. Chegando no pescoço, fazendo uso daqueles sinais que todo casal estabelece conscientemente para se aproximar. Deixo-me beijar lentamente entre lábios, línguas e carinhos. Olho nos seus olhos e mordo um dos seus lábios com força. Mordo como quem quer tirar, e guardar, um pedaço. Como quem não quer deixar a presa fugir. E, por repulsa, você se afasta me olhando, lendo cada linha do meu rosto e, depois de nos olharmos por alguns segundos. Depois você me beija bem devagar. Nesse instante pontual, meu coração acelera e você diminui a sua dor, enquanto eu saboreio o gosto do seu sangue.

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mariana e diego Mariana Amaral e Diego Pale
Ânsia de Vômito


Feira de Antigüidades, praça Benedito Calixto. Vejo um jogo de xícaras, desses que nossas avós usam. Enquanto fotografo, noto que estou sendo observada por uma senhora, provavelmente a dona da barraquinha:

- Cada xícara deste jogo guarda em si muitos segredos - ela me confidencia, em um quase sussurro.

Reajo com um sorriso; sigo em meu passeio. Depois de alguns poucos metros, contudo, decido voltar. Intrigada, compro as xícaras.

* * *
- Mas ela disse que tem segredos aqui!

- Cara, eu não posso acreditar que você gastou cinqüenta reais em xícaras velhas – revoltou-se o convidado número um.

- Não são velhas, são antigas! São xícaras que contam histórias!

- A única história que elas contam é aquela pro boi dormir – ironizou o convidado número dois.

- Ok, onde está o álcool? - objetivo, o convidado número três.

* * *
Outra noite segue. Os mesmos amigos, os mesmos assuntos, os mesmos cascos de cerveja deixados para trás. Ao fim, faço a limpeza na sala. Olho para a bandeja sobre a mesa de jantar, onde as novas velhas xícaras haviam sido arrumadas. O chá, que nem teve chance de ser servido, agora está frio. Não é mais um ritual. Os tempos mudaram.

Um instante depois que esse pensamento se formou na minha cabeça eu abro um meio sorriso e percebo que estou velha. Sim, certos rituais ficam para trás, em outros tempos – hoje é tudo mais limpo, mais claro e mais corrido. Talvez, se eu estivesse na Inglaterra... mas meus amigos não vão tomar chá.

Seguro uma xícara. É tão frágil... se eu forçasse meus dentes na borda, facilmente a louça quebraria. Talvez eu cortasse meu lábio ou minha língua.

Estou cansada. Lembro-me do que a senhora da feira me falou. Quase sem perceber, viro a xícara e vejo que, no fundo, há uma letra delicadamente pintada. Parece ser um M. Pego outra do jogo e viro: também uma letra, um P.
Em cada xícara há uma letra. Sento em frente ao jogo, um tanto intrigada – seria aquilo um jogo incompleto? Xícaras que têm como marcação as letras e... – mas então eu percebo que as letras são inicias de nomes. As xícaras eram marcadas.

* * *
Segredos.

Olho para as xícaras e penso nos meus amigos.

Há muito tempo – ou nem tanto assim – um grupo de senhoras se reunia para tomar chá. Cada uma com a sua xícara. Tomavam chá e falavam da vida. Segredos. Mas há algo de estranho nesse ritual. Enquanto meus olhos percorrem a minha sala, vejo essas senhoras contando sobre suas vidas, mas – eram outros tempos. Elas não podiam falar tudo. O chá, sempre muito quente, queimava a língua daquela que ousasse. Quando uma delas sentia a necessidade de falar que, por exemplo, sentia-se péssima com a traição do marido, virava um gole da bebida, queimando a língua, a garganta, o céu da boca. Aquelas senhoras que eu via agora – talvez alucinando ou as criando do meu cansaço – viviam em constante tensão de não falar. O chá, os cigarros, os dentes trincados, os sorrisos falsos: artifícios para não contar, para não deixar os segredos escaparem.

* * *
...mas eles escapavam. Estavam nas bordas das xícaras que eu comprei.

Olhei para as garrafas de cerveja, para os copos de vidro sem marcação alguma... eu sei que um dos meus amigos bebeu na garrafa. E aquele copo no parapeito da janela é de uma outra amiga. O quanto a gente esconde um do outro? Pra onde vão os nossos segredos? Estariam no gargalo da garrafa? Na borda de um copo...?

Sentada na sala, ainda com uma das xícaras na mão, eu penso se temos segredos. Se temos um lado mais obscuro, insatisfeito; se sabemos de algo sobre nós mesmos e temos vergonha de falar – claro que temos. Eu sei de muita coisa que não posso falar; que não ouso falar. Mas não é mais um chá que vai queimar minha língua. Não é mais um cigarro que vai me impedir de falar; eu não trinco os dentes.

Eu bebo. Mais uma cerveja. E assim meus segredos ficam distantes. Diluídos. Translúcidos. E assim eu não tenho que lidar com eles. Não preciso contar. Elas, essas senhoras do chá, queriam contar mais não podiam – algo as impedia. Eu posso contar, mas não quero.

***
A borda frágil da xícara passeia no meu lábio inferior. Esbarra nos meus dentes. Os pensamentos da noite já foram longe demais. Tudo já foi longe demais. Então, sem saber porque, eu mordo a xícara. Com força, raiva e alucinação. A louça se parte na minha boca. Corto os lábios, a língua, a gengiva... deixo o resto da xícara cair. Corro para o banheiro, para me olhar no espelho e – há sangue, dor e loucura – mas é assim que eu aprendi a não ir longe demais.

Acho que vou vomitar tudo que não falei nessa noite.

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pedroPedro Curi
Na pista


Ela chegou na balada sozinha e, na hora, despertou em muitos o desejo de mudar essa condição. Há muito tempo esperava por aquilo. Uma semana de muito trabalho e expectativas. Na fila, evitava olhares quase que sem querer. Simplesmente não prestava atenção. Seu alvo estava definido. Sua mente, determinada.

Passou direto pelo segurança, piscou para a hostess e subiu direto para o segundo andar, se esfregando nas pessoas que enchiam a pista de dança. Desviava de braços, de línguas, lábios e dentes. O ritmo da música guiava os corpos que se moviam juntos. Subiu as escadas como quem sabe o que quer. Sabia exatamente o que queria. Tinha certeza do que ia encontrar.

Casais se beijavam nas paredes, na pista, nos banheiros, pelo caminho. Centenas de braços, de línguas, lábios e dentes. Foi ao bar e pediu uma cuba libre. Gostava de ser antiquada. Mordia o canudo para controlar o fluxo da bebida. Olhava diretamente para aquela multidão de corpos. Parecia não haver espaço da pista de dança, mas ela sabia que tinha um lugar para ela.

Luz estroboscópica, globo de espelhos, laser colorido. O ar era vermelho e denso. Quente. Deixou o copo no balcão e abriu seu caminho até o centro da pista, onde estava exatamente o que queria. Eram centenas de braços, de línguas, lábios e dentes. Mas, naquela noite, ela se bastava. Pelo menos naquela noite.

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renata Renata Moraes
Cais



Joanna mordeu fundo. Forte. Como se sangue fosse escapar e salgar sua língua. As ondas despontavam do cinza do mar como se convocassem o navio a voltar. O horizonte nublado era daqueles que se formam instantes antes do temporal cair. o vento, gelado, batia no rosto - a única coisa que nunca cobrimos. o vento fazia barulho e a grama, alta, roçava.

Mas o que se escutava era silêncio.

Precisou achar um ponto fixo e focar. Trincar os dentes até doer porque senão não ia se segurar. Os olhos se apertavam com a força que Joanna fazia para se segurar ali, naquela situação.

A dor é vermelha quando se perde aquilo que mais te fez amar.

Olhava pro nada. Mas o olhar - esse maldito olhar - cismava em escapar, chupando algum detalhe que não era para ser degustado. Não podia escapar porque sabia que depois disso não teria volta. Pensaria naquela boca, naquele colo. E não conseguiria conter a ausência.

Acabaria correndo para lamber todo o vermelho que se afastava voluntariamente.

[Ele mordia o lábio inferior - do jeito que costumava morder quando não sabia como agir. Queria, mas não podia.]

Mas não seria ela. Não seria Joanna. Ela não queria mais falar.

Solidão é o que resta depois de tantos anos dando sem esperar receber de volta. Quem volta é o vento. Não é o navio.

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livia Lívia Santana
Mosaico



Às quatro da madrugada, pubs podem ser extremamente melancólicos, em especial se é uma daquelas noites em que quantidades absurdas de álcool simplesmente resvalam e você se descobre ali, horas depois, dolorosamente sóbrio. É quando olha pros lados e percebe que além de você mesmo, há poucos desgarrados ainda sentados por ali, bebendo do gargalo da garrafa, aparentando não ter aonde ir.

Mas o bar não fechava mesmo e acabava sendo um refúgio natural pra seres insones e aturdidos como eu. O inesperado é que alguém destoante aparecesse por ali. Como ela. Enquanto todos nós éramos opacos e compartilhávamos a mesma cor indistinta e obscura, ela resplandecia. Os cabelos multicoloridos contrastavam imensamente com a pele iridescente de tão clara. Os olhos imensos, escuros e a boca muito vermelha que parecia poder provocar um vácuo, mal se abrisse, engolindo o mundo, a começar por mim mesmo.

Ela se aproximou do balcão sem se dar conta da minha presença pouco notável, ficou de pé nos estribos do banco de metal e se debruçou sobre o tampo de pedra fria. Imaginei o que sentiria a pele cálida tocada pela pedra fria e mal tive tempo de percorrer o corpo esguio por inteiro, ela apanhou a cerveja que o barman lhe estendia e saltou no chão, afastando-se agilmente.

Virei-me, desperto da minha letargia, para ver aonde ia a aparição de cabelos coloridos e surpreendi-me ao vê-la subir num palco acanhado e semi-oculto, apanhar um violão e sentar-se ante um pedestal com microfone. Achei que àquela hora apenas nós, nulos, estávamos acordados. Ela tomou um gole da cerveja, estalando a língua gostosamente. A tudo eu acompanhava de perto. Olhou pra mim e sorriu, revelando os dentes grandes como a boca, e muito, muito brancos. Por um segundo eu me imaginei num filme de Almodóvar e me vi entrando de cabeça dentro da boca abissal, sentindo os lábios muito vermelhos se fechando sobre mim, pressionando-me contra os dentes e acomodando-me sobre a língua quente.

E quando ia ser mastigado, a voz dela me despertou com os doces primeiros versos de Summertime. Eu ri comigo mesmo, sentindo a cerveja finalmente fazer efeito. E ainda tinha algumas horas antes do amanhecer.

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