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Noite feliz
Outsider

desconstrução | outsider  
     
   
Ele pensou em desta única vez, dar o braço a torcer por uma data. Lembrava de todas as outras vezes em que nada havia dado certo, faltava lhe ânimo, faltava-lhe um desafio. Talvez lhe faltasse tudo, porque ali estava oco.

Via novamente as pessoas com esperanças de um novo ano cheio de coisas diferentes do ano anterior, e fazia força pra não enxergar o que elas não viam, o fato que seria apenas mais um ano como o anterior. Um novo ano com mais dificuldades do que felicidades, um ano com um lado da balança diferente.

Decidiu ligar para algumas pessoas que não via há alguns anos. Conversou, falou horas, mas na verdade só relatou “estou assim, conquistei isso, perdi aquilo” e do outro lado da linha lhe disseram o mesmo todas as outras vezes. Isso, porque o que já foi feito, ou melhor, o que não foi feito, não poderia ser consertado. Mesmo assim, sua convicção, ou fé como alguns a chamam, persistia em tentar encontrar algo que lhe fizesse sentir mais vivo naquele fim de ano, algo como os inúmeros fatos de sua adolescência, a época em que estava começando a descobrir as coisas.

Resolveu fazer uma pequena doação de forma diferente, a uma das milhares campanhas de natal. Sua doação seria arrecadar mais doações e conseguiu. Sentiu as outras pessoas com uma certa inveja por ele ter conseguido tanto e eles tão pouco, viu pessoas serem ajudadas e essas mesmas pessoas não tratarem bem seus próprios familiares, ou seja, alguém não sustenta o seu pilar e outros vão até lá, dar uma pequena e obsoleta contribuição colando um pedaço quebrado.

A árvore de natal de sua casa já estava linda, como ele via em filmes e na TV, algo digno do saguão principal de um shopping, brilhante e bem personalizada, sem ser muito gritante ou colorida demais. Perguntou a todos da casa se já haviam colocado os presentes no pé da árvore e todos colocaram. Ele foi até lá e viu caixas vazias e pessoas elogiando a aparência que enchia os olhos de quem não vê o vazio interno. Desistiu da árvore, e deixou-a lá, apenas pelo fato de agradar aos que viam o externo.

Para a ceia que estava chegando, comprou muitas coisas caras e saborosas com que a mãe encheu a mesa. Recebeu bem os seus vizinhos com quem não falava há meses ou anos, na esperança de ver uma comunidade reunida, mas chegaram também alguns parentes e algumas poucas discussões fúteis após alguns copos de vinho foram o suficiente para perceber por que parentes moram longe e só se reúnem para entender o porquê de viverem separados.

Os vizinhos, não se sentindo à vontade, pegaram um pequeno pratinho com guloseimas e saíram com cumprimentos automáticos e frios, e foram para suas casas comemorar o bom banquete que tiveram daquele vizinho que não viam há algum tempo. Tentou ter algum sentimento de raiva, mas não conseguiu. Há muito tempo esquecera o que é um sentimento, porque se livrou dos bons na tentativa de se livrar dos maus. Via tudo, mas nada sentia.

Ele resolveu dar uma volta sozinho na rua como fazia na adolescência, quando caminhava sozinho à noite por vários lugares, muitas vezes sem destino, apenas porque caminhar era a melhor forma de pensar e não precisar ver ou ouvir nada – tinha aprendido.

Mas não foi bem sucedido. Encontrou no caminho um grupo de jovens, aparentemente bêbados que o perseguiram sem que ele soubesse por que. Levou um chute nas costas e se virou para encarar quatro homens e duas mulheres, de aparência estranha, mas bem vestidos. Claramente marginais. Revidou. O sangue frio ajudava a não perder a noção dos fatos e conseguiu se defender porque os agressores estavam talvez drogados, meio lerdos, apenas procurando diversão na hora errada, da forma errada, porque não tinham apego à sua casa, nem alguém importante com quem estar naquela noite. Correram, xingaram e gritaram. Machucado, ele os viu indo embora. Sentiu algumas fisgadas no corpo, mas nada grave. Tinha sido apenas um conflito simples, em que ninguém saiu ferido por fora.

Aquele era apenas mais um conflito sem motivo. Só mais alguns jovens que não sabiam o que é ficar junto de quem os criou, ou mesmo, quem os trouxe ao mundo e não soube educá-los ou tratá-los com o devido respeito.

Voltando pra casa via que aquela era mais uma noite em que saía, caminhava e conseguia tranqüilizar sua chuva de idéias e perguntas. Não conseguia resposta, mas sentia algum alívio ao final.

Deitou-se na cama olhando para o teto, já era quase de manhã. Repetiu para si mesmo que aquela era mais uma das datas que as pessoas comemoram apenas por que alguém lhes disse que uma vez no ano elas devem tentar ser quem não são, para tentar receber o que não merecem. E se deu conta de que não poderia tirar nenhuma conclusão daquilo, porque tinha sido mais um dos que fez algo tentando entender ou atingir um estado de espírito bom, sentir que ajudou alguém, que fez alguém feliz.

Mas não conseguia nem entender o que era felicidade na verdade, ou o que era desprezo. Dormiu. No dia seguinte, continuou a viver sem pensar mais nisso, porque não adiantaria.

Era apenas mais um que desistiu de mudar o mundo e abraçou o cotidiano vazio. Mais um na multidão.


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