
Ela odiava o final de ano e todo aquele espírito natalino superficial e artificial que tomava conta de todo o mundo. “Um dia ainda fujo pro Tibet!” – bufou, se desviando de um Papai Noel magrelo e ruidoso que saltou sobre ela na porta do edifício. Passou rapidamente pelo hall de entrada e pulou dentro do elevador. A ascensorista sorridente e excessivamente maquiada usava um gorro vermelho berrante com uma bolota de algodão branco na ponta. Ela revirou os olhos: “ridículo!”.
Entrou no escritório como um tufão, deixando a secretária boquiaberta. Fechou a porta às suas costas, fugindo da balbúrdia da cidade inteira. Jogou a pasta sobre a mesa e afundou na cadeira de espaldar alto. “Ufa”.
“Essa gente é louca ou sou eu? Desse jeito vou parar no analista ou no tatame!” – falou para as paredes.
Precisava desanuviar. Tinha um cliente muito importante marcado pra dali a uma hora e seu trabalho não rendia quando estava de mau humor. Pelo interfone, chamou a secretária:
- Juliana, não estou pra ninguém!
- Aconteceu alguma coisa, Ana? – a voz da secretária soou perplexa.
- O de sempre Ju – um suspiro – Essa perseguição natalina insuportável! Vou contar até dois mil aqui e não quero nem ouvir o telefone, certo?
- Claro, pode deixar.
- Ah, tem algum recado pra mim?
- Nada que não possa esperar a minha chefinha contar até dois mil! – riu Juliana.
- Desaforada! – Ana fez uma careta e riu em resposta. Gostava de Juliana, a menina tinha apenas dezoito anos, mas elas se entrosavam bem.
Voltando ao problema mais premente, olhou em volta pelo escritório decorado em tons claros. “Preciso de música”, pensou sentando-se ao computador, onde procurou algo instrumental e escolheu o Adágio de Albinoni. Fechou os olhos, respirou fundo e recostou-se na cadeira. Música quase sempre tinha o condão de acalmá-la e depois de alguns minutos tinha deixado a histeria natalina de lado.
Resolveu conferir os e-mails. Acessou a caixa de mensagens, correu os olhos pela lista e apagou alguns de lojas, restaurantes e outras promoções. Indesejáveis, principalmente nesta época do ano!
Leu uma mensagem da mãe, contando dos preparativos para a ceia de Natal na casa da avó. “Vovó, nunca achei tão bom a senhora morar no Chile como agora!” – ela suspirou. Uma outra mensagem continha um convite de um amigo pruma festa à fantasia. “NÃO NATALINA”, era a frase em destaque, o que fez com que Ana risse. “Como o Tiago me conhece!” Estendeu os dedos pro teclado e respondeu:
Festa à fantasia, é? Parece muito bom...Mas só vou se você me prometer que não vai ter ninguém fantasiado de Papai Noel!...E que caso apareça alguém, você me deixa afogá-lo na piscina! Combinado?
Ana.
PS: Pensando bem, prometa que não vai ter nem Papai Noel, nem Rena, nem Ajudante de Papai Noel, nem Mamãe Noel, nem Árvore de Natal, nem porra natalina nenhuma!
Beijo da Ana.
Com uma risada, clicou em “enviar” e desviou a atenção para os outros e-mails. Olhando pras mensagens de parentes e amigos, no entanto, ela avistou uma que não era de ninguém conhecido. Aliás, era mais que desconhecido, era inesperado e esquisito. Abriu e leu, espantada:
Ana,
Mulher jovem, de beleza incomum. Inebriante, vestida com a luz da sua própria beleza, despertando desejos e adorações. Provocando esplendores e tristezas, tremeluzentes esperanças e medos, fantasias da zona de penumbra. Tão surdo aos anjos quanto um carvalho, não pude, porém, resistir ao que os deuses, generosos, me dispensavam. Como a lua, todos temos um lado oculto, que não revelamos a ninguém. E mesmo este meu lado, ergue-se na sombra da noite, apenas para encontrá-la e velar por seu sono, oscilando embriagado entre o amor e a loucura.
É esperado que hesite antes de abrir a porta para o desconhecido. Nos desertos do coração, que jorre a fonte curativa. Que se restaure a vida, que seja audível o borbulhar do sangue, ardendo de desejo. Que se derrubem as barreiras, que se renda ao inevitável. Por mais tempo que fôssemos amados, não seria por tempo suficiente. Há sempre mais, Ana. Queremos sempre mais. Desejo e prazer ilimitados. Sem defesas, sem senão. Entrega plena e irrestrita. Alegria, emoção, os sentidos elevados a píncaros de gozo delirante. Para isso, basta apenas dar-me mão e deixar-se ir e ficar. Completa. Saciada, minha menina.
Mestre Sátiro.
“Não acredito nisso!” – pensou Ana, de olhos arregalado e a boca aberta – “Da onde esse homem saiu?”. Jogou a cabeça pra trás e gargalhou gostosamente. “Só comigo acontece essas coisas!” – pensou. “Pelo menos ele não me desejou ‘Feliz Natal’, já é ponto pra ele!”
Leu e releu a mensagem, sacudindo a cabeça levemente, com um pequeno sorriso. O que significava aquilo? Seria uma piada? Deveria ficar assustada com um possível louco a assediando? Deveria sentir-se lisonjeada por inspirar tais palavras? Riu novamente, o bom humor tinha sido restaurado.
Com expressão travessa, marcou a mensagem pra reler mais tarde. Aquela merecia uma resposta à altura.
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