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O Diabo usa barba
Júlio César Soraes

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Quanto entrei na Lapônia Inc., já conhecia a fama do Papai Noel. O Devorador de duendes estagiários, o Flagelo do Ministério do Trabalho, uma espécie de fúria workaholic do mundo trabalhista. Eu, um duende estagiário, vindo dos filmes épicos, sabia que trabalhar com o homem mais famoso do mundo não seria fácil. Quer dizer, poderia até ser, se ele fosse apenas famoso, e não o ego com trenó.

O primeiro dia de qualquer pessoa na Lapônia Inc. é a realização de um sonho. Você faz parte de um mundo único, um mundo onde brinquedos saem de qualquer canto da fábrica. As mães duendes sonham com seus filhos lá. Os pais duendes educam seus filhos como espartanos para o Exército. É a Armada de Noel, pronta para invadir os lares, fazendo com que as crianças boas fiquem felizes e as más repensem todo o seu projeto de vida. E era nesse lugar mágico que eu estava à mercê do temível Noel.

Vamos falar um pouco de Noel. Começou a trabalhar aos dois anos de idade, uma máquina. Aos sete fez seu primeiro milhão e aos quinze já ostentava a barba, marca registrada. Noel era implacável com qualquer um. Exigia o melhor dos seus funcionários dando o pior dos trabalhos. Quem vê o mundo de sonhos das mães e pais duendes não imagina que ali, naquele canto gelado do mundo, você sobe no organograma de escravo para escravo. A Sibéria é uma espécie de Aruba perto daquilo.

Papai Noel montou seu império sendo mais esperto que os concorrentes. Enquanto o Coelhinho da Páscoa apelava apenas para o chocolate, Noel expandiu seu ramo de atuação a todo o comércio. Na Páscoa temos os ovos de chocolate. No Natal temos roupas, CDs, brinquedos, perfumes, carros e, por que não, ovos de chocolate. O Coelho só não faliu ainda porque faz pontas em desenhos da Warner. E ainda assim, sujeito aos tiros do Eufrazino. Maldito Toelho.

E é no dia de hoje que eu vou dar o passo mais importante na carreira de um duende. É hoje que eu vou chutar o fundilho vermelho do Papai Noel e virar um tal de Dobby, de um livro infanto-juvenil qualquer. Depois de anos de provação e um único sorriso de gratidão, dado meio de lado para não aparecer, eu finalmente sairei do Inferno que é o Natal e o expoente máximo desta data. Jesus Cristo, diz alguém. Pergunte para seu filho, para qualquer criança na rua, se é o filho de Deus quem traz presentes, se é para o filho de Deus, o filho de Deus, eu repito, que as crianças deixam suas meias penduradas e se comportam como freiras por causa de uma bicicleta. E percebam, que o emprego fosse bom eu não o trocaria por uma ponta em um filme onde as pessoas pegam em varinhas e montam em vassouras. Maldito Noel.


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