Lá pelos idos de dezembro de 1993, eu era uma adolescente fã de Red Hot Chili Peppers e contava 1,50m da ponta dos tênis até o alto da franja. Numa tarde de primavera, eu caminhava em direção à minha casa quando passei por um grupo de rapazes de seus 17 anos, que chutavam uma coisa que parecia um pedaço de trapo velho e preto. Chegando mais perto, notei que o tal trapo miava baixinho... foi a conta. Possuída pelos espíritos guerreiros da Xena, eu saí berrando, agitando os braços e amaldiçoando as futuras gerações daquele bando de imbecis. Acho que eles se assustaram com minha impetuosidade, ou acharam que era alguma espécie de pigmeu branco canibal, porque eles chisparam dali rapidinho. E eu recolhi a coisinha preta toda machucada e corri pro veterinário.
- Não se apeguem a ele, porque esse bichinho não vai vingar. Está muito machucado e é pequeno demais pra conseguir comer sozinho. Deve ter no máximo um mês.
Eu e minha mãe nos revezávamos nos cuidados com o bichinho, que necessitava de remédios, injeções, mamadeira e bolsa de água quentinha pra ficar bem gostosinho. Dia após dia, as feridas iam se fechando, ele ia crescendo, recuperando as forças e recebendo lambidas da nossa gata mais velha, a Pepê. Ele passava a maior parte do tempo numa caixinha de papelão no canto da sala. Dezembro avançou, as aulas acabaram, os planos para o Natal foram feitos. Decidimos cear em casa, receber a família e tal. Minha mãe comprou o maior peru que conseguimos carregar e eu preparei minha mundialmente famosa torta mousse de chocolate e um pavê de limão de dar água na boca.
A árvore estava linda, cheia de enfeites, e minha mãe caprichou na mesa. Botou vela, arranjo de folhas secas, colocou lá toda aquela louça boa que a gente deixa guardado no armário pra ocasiões especiais, enquanto no dia a dia de classe média usamos copos de requeijão pra tomar Tang. Espalhados pela mesa, o salpicão de frango, a farofa, o arroz com passas e castanhas, a torta de palmito, os acompanhamentos todos. E no centro da mesa, glorioso, apocalíptico, poderoso, Ele: o Peru à Califórnia, decorado com pêssegos, cerejas, fios de ovos.
Enquanto minha mãe tomava banho eu decorava a torta de chocolate na cozinha, tentando fazer sentido com um chantilly que não tinha ficado exatamente durinho. Minha avó terminava de se arrumar, e quando ela chegou na sala deu um berro:
- Ai, minha Nossa Senhora!!!!
Quando minha avó invocava Maria, normalmente era sério. Larguei a bisnaga de chantilly e acudi rapidamente. Sobre a mesa, uma cena de terror: O gatinho preto, aparentemente recuperado das provações e finalmente com seus dentes desenvolvidos, comia alegremente a coxa direita do peru. Arranquei o animal infeliz de cima da mesa, mas já era tarde. O gato havia comido seu peso em carne de peru, acabando com a carne macia da coxa. Minha mãe chegou com a toalha na cabeça:
- E agora?
- Não dá tempo de comprar outro, descongelar e assar.
- A essa hora nem deve mais ter mercado aberto.
- Assa o gato.
- Vó!! A senhora é muito radical!!
- Radical o cazzo, esse gato filhadaputa comeu a coxa do MEU peru!!
Lembrei-me que a coxa era a parte favorita da nonna. Tentei ser criativa:
- Bom mãe, sei lá. Bota um pêssego aí e a gente fala que o peru era perneta.
- Sua tia vai querer processar a Sadia, desde que ela foi trabalhar naquela firma de advogados ela quer processar todo mundo...
- É mesmo. Mas se a gente contar que o gato comeu a perna do peru, ninguém mais vai querer comer.
- Se eles estiverem com fome o suficiente, comem até o gato...
Alheio ao perigo de seu corpinho peludo virar petisco, o gatinho se enroscou numa poltrona, virou a barriga pra cima e se pôs a ronronar de prazer, digerindo a coxa. Minha mãe tirou o peru da mesa, os olhos brilhando com uma idéia sensacional:
- Vou cortar tudo, fatiar. A gente diz que assim é mais chique. Diz que viu numa revista ou algo assim.
Achamos genial. Ela cortou tudo direitinho, fatiou o peito com esmero e arrumou tudo numa bela baixela. Decorou com os fios de ovos seminovos e os pêssegos e ficou lindo. Botou de volta na mesa, que a partir daí não ficou sem a supervisão de um humano, e foi terminar de se arrumar. A parentada chegou, todo mundo falando alto, mil presentes debaixo da árvore, meu tio contando piadas inconvenientes... um belo Natal.
Meu primo, muito inteligente e observador, cravou os olhos no peru. Anos mais tarde, ele se formaria químico e viveria de dar aulas a moleques tão inconvenientes quanto ele era naquele momento.
- Cadê a outra coxa do peru?
- Que que tem, André? Tá aí, fatiada.
- Tá nada. Ó, aqui tá um fêmur, cadê o outro?
O moleque pentelho havia detectado nosso truque. Minha mãe puxou-o de lado:
- Tá bom, André. O que aconteceu foi que a nonna tava com fome e comeu a coxa do peru antes da hora. Foi isso.
Ela devia ter imaginado que esse tipo de informação não passaria incólume. A ceia rolando, o povo se acabando de comer e antes do meu tio fazer a piada do pavê (ou pacumê) todo mundo já sabia que a nonna tinha comido a coxa do peru. E começou um disse-me-disse, um tio sussurrando que minha mãe não estava cuidando direito da nonna, outra suspirando que a nonna tava ficando gagá, uma prima achando que quem tinha comido era eu, porque eu era uma esganada, e minha tia bêbada cantando junto com o Rei no especial de Natal da Globo. Eventualmente, os rumores chegaram na velha.
- Quem é o filho da puta que falou que fui eu que comi a porra da coxa do peru?? Não fui eu, tá? Foi o desgraçado do gato morto!
- Mas que gato morto, vovó? A senhora está delirando...
- Delirando um cazzo! O veado subiu ali na mesa e comeu a coxa do peru! E ninguém quis contar nada pra vocês não morrerem de nojo, bando de maricas!! Fosse durante la güerra, se o gato comesse o peru, a gente comia o resto do peru e o gato também! Ma che, vocês são tutto um bando de mimado!!!
Quando a nonna ficava brava, o sotaque piorava muito. Quando ela mencionava La Güerra, a gente ficava com medo de olhar na direção dela. Todos se entreolhavam, não sabendo se deviam comer mais peru ou se deviam vomitar o que já haviam comido. A nonna resolveu o caso:
- E ninguém venha falar merda nenhuma, que a outra coxa do peru é minha.
E pegou a coxa suculenta, botou no prato junto com a farofa e mandou brasa. Eu, quietinha, dava pedacinhos do peru pro gatinho preto que se acomodara no meu colo. Com essa alimentação reforçada, ele cresceu e cresceu e virou um gato de 6 quilos chamado Johnny Walker Black Label.
Mas essa é outra história, e deverá ser contada em outra ocasião.
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