LIVinRooom LIVinRooom LIVinRooom
   

Grinch, eu?
Lívia Santana

especial de natal IV | lívia santana  
     
   
Ah, o Natal! Uma data sui generis, um acontecimento sem par, uma coisa de louco. De louco mesmo, porque quem acha Natal lindo e vê algum sentido nesse salseiro que as pessoas aprontam por aí deve ter assistido alguma aula que eu perdi, só pode.

Não vou ficar aqui falando sobre o fato de Jesus e suas idéias terem sido perseguidos pelo Império Romano até se darem conta de que o melhor meio de vencer o cristianismo era justamente esvaziá-lo, o que fizeram muito bem com a criação da Igreja Católica, seus rituais sem sentido e seus dogmas inventados.

Não vou ficar falando sobre o nonsense de se comemorar o nascimento de Jesus numa data inventada, se apropriando das tradições pagãs de povos dominados, que precisavam ser domesticados a contento. Aliás, nunca existiram duas instituições mais capazes no quesito domesticação que a Igreja e os cursinhos pré-vestibulares.

Vou falar dos pequenos absurdos natalinos, tão abundantes.

O natal, afinal de contas, é uma época cheia de idiossincrasias, de pequenos rituais (estúpidos) e de elementos marcantes, como o peru assado na ceia (de quem pode comprar um, o que no Brasil não é a maioria da população), as guirlandas penduradas nas portas (de péssimo gosto a maioria delas), as luzes coloridas piscantes compradas na 25 de Março ou em lugar equivalente das diversas localidades e, a mais importante, a pieguice.

É uma época em que as pessoas parecem despir o bom senso e de repente se convencem de que adoram corais infantis ao som de harpas repicadas por aqueles sinos malditos. Uma época em que, de repente, anormal é o pobre coitado que não gosta de arroz com passas (Carla pediu pra eu incluí-la aqui, porque o espaço do texto dela acabou e ela não mencionou sua repulsa pelo tal arroz de passas) e coisas mergulhadas em calda. Uma época em que gente que não gosta de dizer nem mesmo “bom dia”, se vê coagido a repetir mecanicamente “feliz natal” ou, no meu caso, “idem” e “igualmente”, sob pena de ser coberto de piche e penas de pombos toxoplasmósicos, amarrado em praça pública e apedrejado aos berros de “antipático!”, “grosseiro!” e “Lívia!”.

Minha mãe diz que eu pareço o Grinch, o que eu considero um elogio, se levar em conta o desenho animado e não o medonho filme homônimo do Jim Carrey. Nada contra o Jim Carrey, ao contrário. Depois de Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças, passei a respeitá-lo ainda mais. Mas havemos de convir que a história do filme e a caracterização dos personagens é execrável e vergonhosa. Malditos filmes de natal, um capítulo à parte nesse circo de horrores natalino.

Eu ia seguir falando das demais incongruências natalinas banais, mas me ocorreu algo, ouvindo uma reportagem ali na televisão. As caixinhas de natal, as cestas básicas, as cartas pro Papai Noel enviadas pro correio, os envelopes de contribuição dos lixeiros e varredores de rua, enfim, um monte de facetas de uma coisa só.

Vivemos num país com péssima distribuição de renda que pratica intensamente o assistencialismo. Durante o ano todo vemos um monte de campanhas assistenciais: Criança Esperança, Rock Contra a Fome, Teleton, Fome Zero, Bolsa Família, Bolsa Escola e até o BBB (Big Brother Brasil, o programa que serve pra arrebanhar novas playmates e dar um milhão de reais pra “quem precisa mais”). Ou seja, no Brasil nem precisa ser Natal pra apelarem pra famigerada “solidariedade”. Aliás, já que a maioria da população pouco ou nada tem, existe uma identificação curiosa, como se dissessem “estamos no mesmo barco, cara”, “minha barriga dói como a sua”, então é ainda mais simples pedir “ajudas” e “contribuições”, ou mesmo despertar simpatias pelas adversidades alheias.

Claro, tem milhares de pessoas em situação de extrema penúria vivendo bem ao nosso lado e sou totalmente a favor de qualquer intervenção nesse sentido. Afinal, se eu estivesse morrendo de fome, quereria que as pessoas me enxergassem em vez de passar reto. Aliás, faço questão de ajudar com o que estiver ao meu alcance. O problema nesse país é aquele: você dá o dedo e querem o braço inteiro.

As caixinhas de natal, por exemplo. Se você dá pouco, te olham feio, sem pensar que nada tem de obrigatório naquilo e que poderia estar dando nada. As pessoas não pensam, inclusive, que talvez seja apenas aquilo que você pode dar. Jesus (aquele, que as pessoas dizem comemorar o nascimento no Natal, lembra? O mesmo cujas palavras são esquecidas com facilidade, pelo qual já se travaram guerras sangrentas e injustificáveis? Pois é, ele mesmo) tem uma parábola chamada O Óbolo da Viúva, em que conta que mais vale o sacrifício da mulher pobre que tira duas moedas do que tem e doa a quem não tem, do que as doações vultuosas feitas pelos hipócritas nos templos.

E quem disse que as pessoas lembram disso? Corrompem tudo! Aliás, até essa prática que era tão bonita quando começou, a das cartas mandadas para o correio com pedidos extremos de ajuda, permitindo que as pessoas ajudassem as outras, tem sido corrompida. Uma amiga me contou que, no ano passado, ela e o pai foram ao correio buscar uma dessas cartas e pegaram uma em que o garoto pedia um presente qualquer, não me lembro o que. Compraram a coisa e foram lá levar. O garoto recebeu, agradeceu, mas acabaram descobrindo que ele tinha enviado mais quatro cartas com outros pedidos, de forma que a casa estava parecendo dia de entrega do Caminhão do Faustão, cheia de coisas que as pessoas tinham ido levar.

Ué, mas o moleque não tem direito de querer ganhar um monte de coisas? Claro que tem. O problema é: será que por causa da esperteza dele alguém que precisava mais de ajuda não ficou sem assistência?

(...) Parei pra reler o que escrevi e me dei conta de que o que começou como um texto resmungão em tom de brincadeira, se tornou um tratado de assistencialismo. Eu poderia apagar alguma das metades, optar por uma das abordagens, mas resolvi deixar as duas, porque são coisas que eu gostaria mesmo de dizer sobre o tema e encerrar dizendo o seguinte:

  1. Natal é uma época repleta de coisas ridículas e sem sentido. Duvida? Renas voadoras, papai Noel, neve, pinheiros, luzinhas, sinos, harpas, corais infantis e arroz com passas por acaso são coisas razoáveis?


  2. Dizer feliz natal pra todo mundo é irritante (ainda mais porque é dito da boca pra fora na maioria das vezes), eu não gosto de dizer, não faço questão de ouvir, então dá pra me deixar em paz?


  3. Filmes de Natal são uma praga e deviam ser extintos.


  4. Cartões de Natal não significam coisa nenhuma. Na maioria das vezes você é apenas um nome numa lista, condenado a receber uma mensagem piegas com uma ilustração piegas.


  5. Dramas de natal, sejam familiares ou de qualquer outra natureza, não são bem vindos.


  6. Propagandas e promoções de Natal são deprimentes e nos fazem pensar se toda a criatividade do mundo já se extinguiu, comida pela esterilidade desse consumismo arrasador.


  7. Essa coisa de espírito natalino, embora seja pequena e hipócrita (porque, como muita gente já disse, deveria durar o ano todo), ainda rende boas coisas pra muita gente que precisa de ajuda.


  8. Deveríamos ser um pouco mais dignos. Pra reunirmos a família (seja do jeito que for), pra presentearmos quem quer que seja, pra ajudarmos alguém ou pra sermos ajudados.


  9. Pra ajudar quem precisa não é necessário esperar grandes campanhas e nem ter muito dinheiro. Às vezes, conversar basta.


  10. E, pra ninguém dizer que eu não disse nada positivo sobre o Natal, aqui vai: eu adoro PANETONE!

Quer falar comigo? livia@livinrooom.com
 
especial de natal IV

Papo de mulher.
Crônicas humorísticas cotidianas.
Sobre os atentados à Língua Portuguesa.
Resenhas mal humoradas e satíricas.
Crônicas de humor machista.
Dúvidas satíricas sobre sexo.
Crônicas sobre os infames anônimos.
Texto em cima da foto e vice-versa.
Reflexão e sensualidade. Ficção.
Discursos controvertidos e satíricos.
Várias visões de um mesmo tema.
Textos variados de autores diversos.
Curiosidades e informações sobre música.
Loucuras aleatórias, humor e cultura.

   
 
   
 
                                                          rss vai aqui ® 2006-2007 LIVinRooom Todos os direitos reservados