“... então é natal...”, cantará Simone, seja passando num carro de som pela rua de casa ou, talvez, num carro desses que embola o “olha a uva, olha a uva! Mulher bonita não paga, mas também não leva” com outras músicas, inclusive Noite Feliz e aquelas que apenas os sininhos ecoam pelo ambiente. E não importa a região, estado, cidade que você esteja, alguma música dessas você vai escutar por mais de três vezes, no mínimo, no dia 24 de dezembro: o dia do peru! (e a noite também).
Ah, se você ligar a televisão no dia, desista! Além de Simone, você ouvirá o “Jesus Cristo” nas chamadas do Especial do “rei” e outras coisas já desagradáveis de se ver por tantos anos. Mas, acredite, você não tem do que reclamar, cara pálida. Afinal, você não faz aniversário no Natal!
Pois é, hoje, dia em que escrevo esse texto, são, ao todo, 27 anos, 359 dias e algumas horas de uma quase “indigência-festiva-com-relação-a-tudo-e-qualquer-coisa-que-envolva-o-meu-aniversário”. Soou dramático? Você não viu nada ainda.
Vou tentar relembrar meus momentos na infância, quando eu, uma criança criada em creche, precisava comemorar meu aniversário em novembro, pois em dezembro todos estariam de férias. (É, fui criada em creche e não tenho vergonha disso. Meus amigos de infância estão preservados até hoje e, quando sentimos muita saudade, nada como um churrasco para reunir todo mundo e rir lembrando as pérolas).
Bem, mas voltando: onde já se viu comemorar aniversário em novembro porque no mês do seu aniversário estão todos de férias? E o pior, no dia do seu aniversário mesmo que ninguém estivesse de férias estariam ocupados, afinal, é Natal (ê, laiá, ainda rima), dia do peru! Gente, sem essa de dizer que antecipar o aniversário pra comemorar é a mesma coisa. Ainda mais naquela época em que as mães, todas apressadas e ocupadas com trabalhos e afazeres domésticos, compravam lembrancinhas do tipo estojo de maquiagem (ganhava no mínimo uns quatro), meias, caixa de lencinhos (o que uma criança vai fazer com lenços? Dar pro pai, né? Claro. Ou limpar o catarro – desculpa - do nariz de tanto chorar com os trágicos presentes) e coisas do nível. Ou seja, o aniversário, além de antecipado por mais de um mês ainda era torturante. Eu chorava ao chegar em casa e ver o tanto de coisa tosca, inútil e repetida que ganhei. E foi bem naquela época que acredito ter entendido o significado de algo “tosco e inútil” – traumatizante. Sim, naquele tempo eu ainda dava valor aos presentes. Criança não tem tanta noção do quanto é mais divertido apenas rir e compartilhar um pouco de cada coisa com tudo e todos ao redor. (Se bem que aquele bolo gelado que serviam era dos melhores!)
É válido lembrar também que muitos desses aniversários eram divididos com minha irmã. Pois é, ela é de janeiro, portanto, férias também! Beleza, não? Imagine quantas criancinhas não levavam presente pra uma das duas porque achavam que era aniversário só de uma ou a mãe, uma peste qualquer sem sensibilidade alguma, achava que o presente servia para ambas. Tudo bem, com cinco anos de diferença entre as duas obviamente gostaríamos das mesmas coisas (dava vontade de matar uma mãe dessas). Começava o ritual de “desculpas-esfarrapadas-para-não-comprar-dois-presentes-simplesmente-por-achar-que-não-havia-necessidade” ou “acostume-se-você-faz-aniversário-no-natal-portanto-só-ganha-um-presente-isso-se-alguem-lembrar-do-seu-aniversário”. É, e minha mãe que tentou avisar para o mundo que eu não tinha culpa alguma da data do meu nascimento. Eu já acho que soprei a farofa da Santa Ceia em todos os apóstolos, falei de boca cheia e peguei a tábua dos 10 mandamentos “emprestada” para picar salsinha (espero que não tenha sido para temperar algum peru).
Mas tudo bem, o pior estava por vir. Ainda nessa época, já obrigada a passar o Natal em Cachoeiro de Itapemirim (é, a família da minha mãe é de lá), eu desci escondida as escadas do terraço e flagrei meu pai se transformando em Papai Noel. Legal, né? Eu era a mais velha das crianças da família e, portanto, o Natal | Aniversário ainda era feito pra mim, já que minha irmã e primos não entendiam bem o que ocorria. Só sabiam que um sujeito barbudo de roupa vermelha subiria as escadas com um saco pra dar presente. Na verdade e pensando bem, apenas eu ficava a espera do “bom velhinho”. O resto não sabia nem o que fazia ali. Ponto pra mim! Mais um trauma adquirido graças ao 24 de dezembro! (“Dia de que?” “Dia de Natal!” “Natal o
car*$%#o! É meu aniversário!”)
E nisso eu fui crescendo e aquela família enorme que passava todos os “24 de dezembro” naquele mesmo terraço da casa da vovó passou a entrar em ação. Era hora do “nossa, como você cresceu!” consecutivas vezes. Cada ser humano que ali colocava os pés dizia o mesmo. Durante anos da minha vida foi assim! Sei que muitos passaram por isso, se ainda não passam. Porém, o meu caso tem como piorar, gente. Tudo isso seguido do “ah, é seu aniversário? Não sabia”. É óbvio que chegou o momento em que meus pensamentos sarcásticos e revoltados produziam frases do tipo “não sabia? E o que fez aqui no ano passado? Cantou parabéns pra quem, infeliz? E as bochechas que você apertou falando dos lindos olhos verdes? Me poupe! Não trouxe presente? Tudo bem, mas não venha com essa de ‘ó, é seu aniversário’ que não cola!” – com aquele sorriso amarelo de quem, disfarçadamente, diz “ah, filho de uma...!”.
É foda dizer isso, mas sentia um ar de falsidade em muita gente que freqüentava o local. Não é a toa que eu sempre fui a favor de algo mais intimista, só com a parte mais próxima da família da minha mãe. Mas, quem disse que eu tinha vez? Afinal, o problema era meu. Era como se me perguntassem “quem mandou nascer no dia 24 de dezembro?”. Ninguém se importa com o seu aniversário nessa data, isso é fato!
A verdade é que simplesmente esquecem. As pessoas passam o dia envolvidas com a tal da ceia, na qual aquele irritante peru vai ser o centro das atenções, que se esquecem de que naquela data você comemora algo. Não que seja importante ou fundamental, mas é bom receber o carinho das pessoas que a gente gosta e ver quem se lembra da gente. Faz bem, nos faz sorrir. Mas é sempre assim: se alguém te encontra no dia 23 vai logo falar “amanhã é seu aniversário, né?”, mas no dia seguinte, desista! Do seu aniversário “nunca se lembrarão” – como diria o Capitão Nascimento (jamais perderia a oportunidade de fazer uma singela homenagem ao personagem mais marcante de 2007 num texto tosco e de aniversário feito por mim – fora isso, é um Especial de Natal).
O que me conforta, e admito que até me faz ver e sentir uma certa magia, é a cidade enfeitada, os canteiros coloridos com luzes, as casas e prédios cheios de ornamentações da época – muitos incentivados, hoje, pelo dinheiro de concursos natalinos, fato. Mas alguns fazem pelo prazer e pela mesma magia que sinto. Não sei, mas eu gosto do Natal, desses dias que antecipam a data. As pessoas parecem sorrir mais, parecem estar envoltas na mesma magia que paira no ar. Se é que paira. Enfim, o que eu sei é que toda essa magia termina exatamente no dia 24, quando entra o peru e eu só ouço coisas do tipo “o peru tá no forno, vê se tá pronto!”, “Cortou o abacaxi pra colocar no peru?”, “vai ter chester?”, “o tabuleiro tá quente, pega aquela vasilha tal pra colocar o peru, fica mais bonito!”. É dose! Ligações? Conto nos dedos e sei exatamente os amigos que vão me ligar! Os de sempre! Os outros vão dizer “as linhas estavam congestionadas, não consegui falar com você”. Tudo bem, gente. E com essa onda de Orkut ninguém mais se dá o trabalho de fazer uma ligação, não é mesmo? Deixa scrap. Uma sensibilidade fantástica! Aliás, uma comparação fabulosa também! “Pra que ligar se posso deixar scrap, não é mesmo?”. Tsc, tsc.
Retiro o que disse sobre a magia do Natal e da época! As pessoas continuam se importando apenas com aquele tal de peru e com coisas práticas, nada que dê trabalho ou que seja, de fato, algo importante para os outros. Lá vem o 24 de dezembro! Será que esse ano vão me deixar ficar na cama esperando que ele passe? Não quero ver peru, chester, toalhas vermelhas e coisas do gênero! Aliás, tem como mudar a data de um aniversário? Bem, se não tem jeito, tudo bem. Eu encaro mais essa!
PS: Faltam apenas dois anos para os meus 30! Isso deve ser experiência o suficiente para encarar mais um ano de história!
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